"Dezoito Reais e uma Promessa do Meu Pai." Capítulo 7
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A PRIMEIRA VEZ QUE FUNCIONOU
A primeira reunião de que participei aconteceu numa terça-feira de manhã. Beatriz trouxe uma folha com os assuntos a discutir. O administrador da associação, Valter, apareceu com uma pasta grossa e a expressão de quem já tinha encontrado defeitos em todos eles.
Sentei perto da porta para poder sair a tempo do trabalho.
Helena percebeu e perguntou meu horário. Em vez de anunciar que conseguiria me liberar, anotou a resposta. A mudança era pequena, mas eu reparei.
Valter explicou que as exigências tinham surgido para evitar problemas. Pedidos repetidos, informação incompleta, despesas que não cabiam na finalidade do projeto. Ouvi até ele terminar.
"Quem liga para a pessoa quando falta uma informação?", perguntei.
"O aviso é enviado."
"Eu perguntei quem liga."
Ele tirou os óculos.
"Nem sempre há uma ligação."
Joana mostrou o caso de Marlene, com os dados pessoais protegidos. Não precisou falar muito. Entre o aviso automático e o encerramento, ninguém havia confirmado que ela sabia o que faltava.
Valter leu em silêncio. Depois pegou uma caneta e riscou uma linha na proposta.
"Esse prazo precisa ser revisto."
Eu estava preparado para discutir. Não soube o que fazer quando ele concordou.
Renata, convidada para acompanhar a parte da farmácia, propôs um atendimento inicial mais simples, com avaliação profissional quando necessária e um contato claro para cada cliente. Os pedidos maiores continuariam passando por análise. As pequenas ajudas teriam um caminho rápido, com registro e limites definidos.
A conversa teve números, ressalvas e frases que precisei pedir que repetissem. Em certo momento, pensei na caricatura de reunião que imaginara. Não era fascinante. Mas Joana anotava quem faria cada tarefa e em qual dia. Isso fazia diferença.
Eu pedi uma coisa que não estava na folha.
"Não quero que o funcionário tenha de decidir se tira dinheiro da própria carteira."
Helena parou de escrever.
Expliquei que eu provavelmente voltaria a pagar uma diferença se estivesse sozinho diante de alguém precisando. Mas não queria que Célia, que sustentava a casa, se sentisse obrigada a fazer o mesmo para não parecer indiferente.
Renata concordou. Ficou combinado que os funcionários chamariam a pessoa responsável pelo atendimento e teriam uma orientação por escrito, sem precisar improvisar uma coleta no balcão.
Antes de sairmos, Joana colocou sobre a mesa um aviso pequeno, que caberia perto do caixa. Pediu que eu lesse como se fosse um cliente. Travei numa frase longa e apontei o trecho.
"Eu explicaria isso diferente."
Ela virou a folha e me entregou a caneta. Trabalhamos por alguns minutos, tirando palavras que só quem participara da reunião entenderia. Foi a primeira tarefa em que não me senti apenas um convidado.
O teste começou na segunda seguinte.
No primeiro dia, ninguém pediu nada. Eu olhava o telefone separado para o projeto como quem esperava uma ligação de emprego. Célia reparou e me mandou organizar os produtos infantis.
No segundo, apareceu um homem com um envelope de hospital debaixo do braço. Chamava-se Antônio e parecia irritado com o simples fato de precisar entrar na farmácia. Conferiu o preço, mexeu no bolso e pediu que eu esperasse.
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Reconheci a pausa.
"O senhor quer conversar com a Renata? Temos um atendimento de auxílio que pode verificar se consegue ajudar."
Ele apertou o envelope.
"Eu não quero fazer cadastro para receber anúncio."
Expliquei devagar. Não falei alto, não apontei para uma fila especial. Perguntei se preferia que Renata viesse até uma mesa mais reservada.
Antônio aceitou.
Segui trabalhando enquanto as duas conversas aconteciam: a dele, no fundo da loja, e a minha, com uma cliente que queria trocar a marca de um creme. Eu me obriguei a não olhar a cada dez segundos.
Pouco antes do almoço, Antônio voltou ao caixa com Renata. Parte da compra tinha sido autorizada pelo atendimento rápido. O restante cabia no dinheiro que trazia.
Ele pagou, pegou a sacola e ficou parado.
"É só isso?"
"É só isso", Renata respondeu. "O telefone está neste papel, se precisar de alguma orientação sobre o atendimento."
Antônio dobrou o papel e guardou no envelope do hospital. Seus ombros baixaram. Não chorou, não abraçou ninguém, não fez discurso. Perguntou onde ficava o ponto do ônibus que passava perto da rodoviária.
Saí até a porta para mostrar.
Quando voltei, Célia estava atrás de mim.
"Você vai ficar com essa cara o dia inteiro?"
Tentei fechar o sorriso.
"Que cara?"
"Essa. Parece que passou no vestibular."
Naquela noite, liguei para minha mãe no caminho para casa. Contei a história duas vezes, acrescentando detalhes que não importavam, e ela ouviu as duas.
O teste também teve problemas. Uma cliente entendeu que todos os produtos da loja estavam incluídos e saiu aborrecida quando explicamos. Outro pedido ficou aguardando esclarecimento que não podia ser dispensado. Joana ligou, explicou e marcou retorno. Eu ainda detestava dizer para alguém esperar, mas já sabia para quem encaminhar a pergunta seguinte.
Na sexta, Helena apareceu sem receita e sem encenação. Comprou um creme para as mãos, pagou com o celular e fez questão de me mostrar a confirmação.
Olhei para ela.
"Muito engraçado."
"Achei que você gostaria de acompanhar meu progresso."
Ri antes de lembrar que estava no trabalho. Sérgio ouviu do escritório e levantou a cabeça. Não reclamou.
Helena quis saber do teste. Contei sobre Antônio, sem entrar em detalhes que não eram meus para contar. Ela ouviu com as mãos em volta da sacola.
"Seu pai ia ficar contente", disse.
Esperei sentir o peso de ter de corresponder. Dessa vez só senti saudade.
"Eu fiquei."
Ela sorriu.
Na semana seguinte, os representantes da Vitalis visitaram a loja. Sérgio apresentou a equipe, as instalações e a mesa usada no atendimento do projeto. Um dos homens tirou fotos da fachada; a mulher que o acompanhava anotou o nome da associação.
Na conversa marcada para depois, Beatriz me mostrou a proposta inicial de continuidade. A rede queria manter a parceria e mencionar o auxílio na divulgação da aquisição.
Procurei a parte sobre os recursos.
A contribuição proposta era pequena demais para sustentar o atendimento que acabávamos de iniciar. O período de garantia também era curto.
"Eles viram o que aconteceu com o Antônio?", perguntei.
"Viram os resultados gerais", Beatriz respondeu.
Olhei outra vez a fotografia da fachada no material de apresentação. Na legenda, a palavra comunidade aparecia duas vezes.
Eu queria saber quanto ela valia fora daquela página.
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