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"Dezoito Reais e uma Promessa do Meu Pai." Capítulo 6

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O QUE O SÉRGIO GUARDOU

Sérgio esperou o último funcionário chegar antes de começar. Éramos seis na sala de descanso, espremidos entre a geladeira e o armário. Renata cruzou os braços. Célia, que cuidava do estoque, segurava um pano de limpeza sem perceber.

"Os proprietários estão negociando a venda para a Rede Vitalis", ele disse. "Ainda não houve assinatura."

Perguntaram de salário, horário, férias já marcadas. Sérgio tinha algumas respostas e se recusou a inventar as outras. Quando Célia quis saber se todos ficariam, ele olhou para a mesa.

"A proposta prevê mudança na operação. Dois postos auxiliares podem ser afetados."

Eu e Célia não precisamos nos olhar para entender.

Ela alisou o pano sobre o joelho.

"Eu tenho quarenta e oito anos, Sérgio. Não posso ficar sabendo disso na semana de sair."

"Por isso estamos conversando agora."

"Agora para a gente. Para vocês, começou quando?"

Senti uma gratidão amarga por ela ter feito a pergunta.

Depois da reunião, voltei ao caixa. Atendi um homem que reclamou do preço do protetor solar, conferi dois pedidos e derrubei um pacote de algodão. A rotina continuava com uma naturalidade ofensiva.

No intervalo, procurei vagas no celular. Uma exigia experiência que eu não tinha; outra ficava longe demais. Minha mãe respondeu à mensagem sobre a venda dizendo que a gente daria um jeito. Fiquei olhando para aquilo, odiando a frequência com que precisávamos dar um jeito.

Ao fechar a loja, Sérgio pediu que eu esperasse.

"Se for mais reunião, marca no horário", falei.

"Cinco minutos. Se você puder."

O pedido, em vez da ordem, me fez ficar.

Ele abriu uma gaveta baixa do escritório e tirou uma pasta de papelão presa com elástico. Havia uma caixa menor junto, cheia de cadernetas antigas.

"Meu pai morreu há quatro anos. Quando esvaziei a casa, trouxe esses documentos."

A pasta tinha a mesma sigla que eu vira nos relatórios da associação. Sérgio colocou tudo na mesa, mas manteve a mão sobre a tampa.

"Eu ia levar para organizar. Nunca levei."

"Nunca abriu?"

Ele tirou a mão.

"Abri."

Esperei.

"Tem correspondência sobre o auxílio. E anotações das reuniões em que seu pai esteve."

A raiva voltou tão depressa que precisei me afastar da mesa.

"O senhor estava com isso aqui o tempo todo."

"Estava."

"Enquanto dizia que não controlava o projeto."

"Eu não controlava. Mas podia ter feito perguntas."

Passei as mãos pelo rosto. A sala cheirava a café requentado e papel velho.

"Por que está mostrando agora?"

Sérgio se sentou.

"Porque você falou da dona Marlene. E porque eu ouvi a Célia hoje e reconheci a mesma coisa que faço há anos: espero que uma decisão chegue pronta para dizer que não depende de mim."

Ele olhou para os cadernos.

"Meu pai era um homem difícil. Trabalhei com ele desde muito novo. Quando Júlio saiu, eu tinha pouco mais de vinte anos e achei que ele estava deixando os outros com o problema. Foi a versão que ouvi em casa."

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"E depois?"

"Depois encontrei as cartas. Percebi que tinha mais história. Não quis mexer."

Abri a pasta. Uma cópia de carta tinha anotações nas margens, duas letras discutindo o mesmo parágrafo. Reconheci a do meu pai. Embaixo de uma proposta recusada, ele escrevera uma pergunta sobre o prazo de resposta a um pedido urgente.

Não havia crime revelado nem confissão espetacular. Havia discussões pequenas, repetidas, que alguém sempre conseguia adiar. De perto, aquilo me pareceu mais triste.

"A dona Helena sabe que o senhor tem isso?"

"Sabe que havia papéis na casa dele. Não sabe que estão aqui."

"Então vamos avisar."

Sérgio pegou o telefone, mas parou.

"Lucas, sobre ter contratado você..."

Fiquei com a pasta aberta.

"Eu lembrei do seu pai, sim. Lembrei de coisas que ouvi e fiquei curioso. Não foi caridade. Não foi para devolver nada. Você precisava de um trabalho, e a gente precisava de funcionário."

Ele demorou um pouco antes de continuar.

"Eu devia ter dito que o conhecia. Quanto mais tempo passava, mais ridículo ficava não ter dito antes."

Não o desculpei. Ainda não conseguia. Mas aquela explicação tinha o tamanho de uma pessoa, e eu estava cansado das explicações sem rosto.

"Pode ligar para a Beatriz", falei. "Eu não vou levar esses originais na mochila."

Fizemos uma chamada rápida. Ela combinou o recolhimento e pediu que nada fosse separado sem registro. Sérgio colocou a caixa no armário e me entregou uma cópia de uma fotografia: meu pai diante de uma prateleira, rindo de alguma coisa fora do enquadramento.

"Essa estava solta. Pode ficar com você, se quiser."

Peguei com cuidado.

"Obrigado."

Na porta, ele comentou que a Vitalis queria visitar a loja na semana seguinte. Perguntei se a associação estaria na conversa.

"Não estava previsto."

"Talvez devesse estar. Eles querem continuar dizendo que a farmácia atende o bairro. Precisam saber o que existe aqui."

Sérgio encostou a mão na chave, pensando.

"Vou pedir que incluam."

"E a Célia precisa de uma resposta sobre o emprego. Eu também."

Ele assentiu.

Já na calçada, vi Célia esperando o ônibus do outro lado. Ela ergueu a mão, e atravessei para ficar com ela.

"Ele contou alguma novidade?", perguntou.

"Sobre a venda, não. A gente conversou de outra coisa."

Ela apertou o casaco contra o peito.

"Tomara que conversem bastante. Eu trabalhei em outro lugar antes daqui. Disseram que ia ficar tudo bem até a sexta-feira em que entregaram o aviso."

Nunca me contara aquilo. Perguntei quanto tempo tinha ficado sem trabalhar.

"Quatro meses. Pareceu mais."

O ônibus dela apareceu na esquina. Célia pegou a bolsa e me olhou antes de entrar na fila.

"Se souber de alguma coisa que pode contar, avisa. Não precisa me poupar."

Prometi que avisaria. Fiquei no ponto depois que ela partiu, pensando no que Sérgio tinha dito sobre esperar decisões prontas. Era mais fácil reconhecer o problema na boca dos outros.

Quando cheguei em casa, minha mãe já estava dormindo. Deixei a foto na mesa da cozinha e procurei alguma coisa para comer. Havia um bilhete preso à panela: a carne estava separada para mim.

Sentei sozinho, tirei o celular do bolso e escrevi para Beatriz perguntando quando começaria o teste das novas regras.

Se meu tempo ali estava acabando, eu queria pelo menos ver uma delas funcionar.

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