"Dezoito Reais e uma Promessa do Meu Pai." Capítulo 5
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O PAI QUE ELA CONHECEU
"A ajuda saiu", falei.
Sérgio afastou a calculadora.
"Para a dona Marlene?"
Assenti. Ele soltou o ar pelo nariz, um alívio discreto que me irritou menos do que eu esperava.
"Ela passou aqui várias vezes", disse. "Eu não percebi."
"Eu também não."
Não era uma absolvição. Mas ele entendeu como uma chance de continuar a conversa.
Naquela semana, Beatriz organizou o acesso aos documentos de modo que eu visse o necessário para acompanhar o trabalho, sem sair carregando a vida dos clientes na mochila. Joana me mostrou como chegavam as solicitações. Descobri que uma pergunta mal explicada por telefone podia virar semanas de espera.
Também descobri que Helena tinha a péssima mania de responder pelas outras pessoas.
"Ele consegue vir na quinta", anunciou a Beatriz, quando eu ainda olhava minha escala.
"Eu trabalho na quinta."
"Mas no intervalo você poderia..."
"No intervalo eu almoço."
Ela interrompeu a própria frase. Beatriz abaixou a cabeça para esconder um sorriso.
"Desculpe", Helena disse. "Qual dia você consegue?"
Na sexta, depois de uma visita que Joana já havia combinado com uma família atendida pelo projeto, Helena me convidou para almoçar. Avisou que eu podia recusar. A formalidade exagerada me fez rir pela primeira vez com ela.
"Pode convidar normalmente. Eu sei dizer não."
"Isso eu já percebi."
Fomos a um restaurante pequeno, com balcão de saladas e uma televisão sem som. Helena pegou abobrinha, arroz e uma quantidade de farofa que me surpreendeu.
"Meu médico reclama", explicou, vendo meu olhar.
"Da farofa?"
"Ele reclama de quase tudo. Eu seleciono o que vou levar a sério."
Sentei diante dela, ainda com a pasta de trabalho na mochila. Na mesa ao lado, duas mulheres discutiam a melhor maneira de congelar feijão. O ruído comum do restaurante ajudou a tirar da conversa o peso daquela sala de descanso.
Perguntei como ela conhecera meu pai.
Helena pousou o garfo.
"Minha mãe precisava de um medicamento que, naquele mês, ficou fora do que eu conseguia pagar. Eu tinha cinquenta anos, trabalhava, pagava minhas contas. Achava que pedir ajuda era uma coisa que acontecia com os outros."
Ela abriu o guardanapo sobre o colo.
"Seu pai não fez discurso. Viu que eu estava tentando escolher o que levar e perguntou ao farmacêutico como podiam resolver. Completou o valor. Eu fiquei tão constrangida que fui embora quase sem agradecer."
"E voltou?"
"No outro dia, para devolver. Ele estava almoçando no fundo da loja. Me ofereceu metade de uma mexerica."
Eu ri antes de conseguir evitar.
"Ele fazia isso comigo. Dizia que dividir era justo, mas escolhia a metade maior."
"Comigo também. E tinha o descaramento de perguntar se estava doce."
Por alguns segundos, nós dois olhamos para o prato, sorrindo da mesma pessoa em épocas diferentes.
Helena contou que se aproximaram por causa da associação. Ela conhecia moradores, sabia organizar campanhas e tinha o hábito de guardar todos os recibos. Meu pai conhecia o balcão. Quando alguém desaparecia por semanas, ele lembrava.
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"Júlio era paciente com os clientes?", perguntei.
"Muito. Com reunião que não acabava, nem um pouco."
"Isso combina. Ele odiava esperar a reunião da escola terminar. Minha mãe ia porque ele começava a responder ao diretor."
"Ele discutia olhando para baixo quando tentava não ser grosseiro. Depois levantava a cabeça, e eu sabia que a tentativa tinha acabado."
Reconheci aquele movimento. Eu mesmo o tinha feito com Sérgio.
Comemos um pouco em silêncio. Esperei a tristeza vir inteira, mas ela apareceu misturada a uma curiosidade agradável. Não me lembrava da última vez em que descobrira alguma coisa nova sobre meu pai.
"Por que a senhora não ficou do lado dele?"
Helena mexeu no copo de suco.
"Porque o Arnaldo, pai do Sérgio, me ajudara muito a colocar a associação em ordem. Eu confiava na competência dele. Quando pediu mais cuidado com as despesas, achei sensato. Depois vieram outras exigências, uma atrás da outra. Júlio dizia que a gente estava deixando as pessoas para depois."
"E estava?"
"Estava. Mas eu continuava pedindo calma. Dizia que ele era impaciente. Era mais fácil falar do jeito dele do que admitir que ele tinha razão sobre algumas coisas."
Ela olhou para a mesa por um tempo.
"No último dia, ele me perguntou quantas vezes eu ainda ia pedir paciência usando o remédio dos outros. Eu fiquei ofendida. Passei meses achando que ele me devia uma desculpa."
"Ele pediu?"
"Pediu desculpa por ter gritado. Eu aceitei e não pedi a minha."
A frase terminou sem efeito ensaiado. Helena cortou um pedaço de abobrinha que já estava frio.
"Vocês voltaram a se falar?"
"Algumas vezes. Mais tarde, quando adoeceu, fui visitá-lo no hospital. Você estava dormindo numa cadeira, com um carrinho vermelho na mão."
Não lembrava dela. Lembrava do carrinho. Uma das rodas soltava, e meu pai prometera consertar quando voltasse para casa.
Baixei a cabeça. Helena não estendeu a mão nem tentou me consolar depressa. Chamou o garçom e pediu água. Agradeci por isso sem conseguir dizer.
Quando consegui falar, minha voz saiu mais rouca.
"Por que guardou tudo por tanto tempo?"
"No começo porque doía. Depois porque eu tinha vergonha. A associação continuou funcionando no papel, outros assumiram tarefas, e eu me acostumei a aceitar os relatórios. Cada ano que passava tornava mais difícil admitir o anterior."
Olhei para ela. Eu havia imaginado uma mulher poderosa movendo peças em segredo. Havia algum poder, sim, e uma arrogância que me deixara sem jantar. Mas também estava ali uma senhora que vinha repetindo o próprio erro por anos, sempre com uma justificativa nova.
"Ainda estou bravo com o teste", falei.
"Eu sei."
"Só não quero continuar bravo com tudo o que a senhora me disser."
Helena assentiu devagar.
"Podemos começar por aí."
Na saída, dividimos a conta. Ela não discutiu. No ponto de ônibus, tirou uma mexerica da bolsa e olhou para a fruta como se tivesse acabado de perceber uma coincidência inconveniente.
"Pode rir", disse.
Eu ri. Ela descascou enquanto esperávamos, separou os gomos e me ofereceu metade.
Aceitei, conferindo qual porção era maior.
Antes de o ônibus chegar, meu telefone tocou. Era Renata.
"Lucas, você viu a mensagem do Sérgio? Ele marcou uma conversa com a equipe para amanhã. É sobre a venda."
A mexerica perdeu o gosto na minha boca.
Helena percebeu antes de eu guardar o celular.
"O que houve?"
"Acho que agora vou descobrir se ainda tenho emprego."
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