"Dezoito Reais e uma Promessa do Meu Pai." Capítulo 4
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EU A DEIXEI IR EMBORA
"Por que recusaram o pedido dela?"
Beatriz apontou a observação no final da folha. Faltava um comprovante atualizado de renda. Marlene recebera um prazo para enviá-lo, mas o processo fora encerrado sem que ninguém confirmasse se ela tinha entendido o aviso.
Eu lembrava da pasta de plástico que ela segurava naquele dia. Tirara a receita de dentro, junto com um papel amassado que não me mostrara.
"Ela veio tentar resolver aqui", falei. "Achou que eu podia olhar."
Sérgio puxou uma cadeira e se sentou.
"Você não tinha como saber."
"O senhor tinha."
Ele apoiou o copo na mesa com cuidado demais.
"Tinha como saber que existia um projeto. Não que ela tivesse pedido."
"Se eu soubesse para onde mandar, pelo menos não teria dito que não havia nada."
A lembrança doeu de um jeito humilhante. Eu havia falado com convicção, digitando o preço de outra compra, como se a pergunta dela fosse simples. Dona Marlene agradecera por eu verificar. Eu nem tinha verificado.
Beatriz recolheu os relatórios.
"A gente consegue pedir que a associação entre em contato amanhã. Não sabemos qual é a situação dela hoje."
Tirei o celular do bolso e depois parei. Não tinha o número de Marlene. Saber que alguém gostava de sabonete de erva-doce não significava conhecer a vida dessa pessoa.
"Posso ir junto quando falarem com ela?"
"Se ela quiser receber você."
Assenti. Era justo.
Na saída, peguei os dezoito reais da mesa e coloquei na carteira. Helena acompanhou o gesto sem comentar. Beatriz me entregou cópias dos documentos e uma fotografia digitalizada do meu pai. O original voltaria para o arquivo da associação.
Sérgio me esperou perto da porta.
"O tempo que você ficou depois do horário vai ser registrado."
Eu estava tão preparado para outra advertência que demorei a entender.
"Está bem."
"E você não vai receber punição por ter completado a compra."
Quis perguntar se isso teria acontecido caso Helena fosse só uma cliente qualquer. A pergunta estava pronta, mas eu estava cansado demais para ouvir a resposta.
Minha mãe esquentou o jantar quando cheguei. Ela sentou à minha frente ainda de uniforme e leu a carta com os óculos apoiados na ponta do nariz.
Não chorou. Passou a unha numa dobra do papel e perguntou se eu queria mais arroz.
"Você sabia de tudo isso?"
"Sabia que ele tinha ajudado a organizar uma caixa. Sabia que saiu brigado. Não sabia como ficou depois."
"Por que nunca me contou?"
Ela deixou a colher na panela.
"Porque você era uma criança quando ele morreu. Depois, quando falava dele, queria lembrar das coisas que a gente viveu junto. Talvez eu tenha guardado coisas demais."
Olhei a fotografia apoiada entre o saleiro e meu copo.
"Tenho a sensação de que ele teve uma vida inteira que eu não conheço."
"Teve. Eu também tive antes de você nascer."
A resposta me arrancou um sorriso cansado.
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Minha mãe estendeu a mão por cima da mesa.
"Isso não diminui a vida que ele teve com você."
Apertei seus dedos. Só naquele momento percebi o quanto estivera segurando o choro desde a farmácia.
Na manhã seguinte, Beatriz me ligou. Marlene aceitara conversar na sede da associação, uma sala alugada perto da igreja do bairro. Eu entrava na farmácia às duas e consegui ir antes.
Cheguei dez minutos adiantado e encontrei Helena na calçada, segurando duas garrafinhas de água.
"Não sabia se você vinha direto do ônibus", disse, oferecendo uma.
Aceitei. Ela não tentou transformar aquilo num pedido de perdão.
Marlene apareceu com a pasta de plástico de que eu lembrava. Tinha prendido o cabelo com uma presilha quebrada e sorriu ao me reconhecer.
"O menino da Santa Clara. Você passou na faculdade?"
Aquilo quase acabou comigo.
"Ainda não, dona Marlene. Eu vim porque soube do seu pedido. Queria pedir desculpa pelo que falei naquele dia."
O sorriso dela desapareceu devagar.
"Você disse o que sabia, meu filho."
"Eu devia ter perguntado para alguém."
"Eu também podia ter insistido. Mas a gente vai ficando cansada de explicar."
Ela se sentou ao lado de Helena, não diante de nós como se estivesse prestando depoimento. Uma funcionária chamada Joana conferiu os papéis e descobriu que o comprovante apresentado meses antes ainda ajudava a demonstrar a situação. Precisavam atualizar algumas informações, não começar tudo do zero.
Perguntei como Marlene passara as últimas semanas.
"Minha irmã comprou o que faltava. Ela tinha separado dinheiro para arrumar o telhado. Agora vai esperar a chuva decidir se dá para esperar também."
Falou sem amargura, ajeitando as folhas. Isso foi pior.
Joana conversou com a farmacêutica responsável pelo projeto e encaminhou o caso para avaliação naquele dia. Ninguém prometeu pagar tudo para sempre. Explicaram o que poderia ser coberto, o prazo e quem ligaria com a resposta.
Marlene anotou o telefone no verso de um calendário pequeno.
"Da outra vez mandaram mensagem. Eu achei que era propaganda e apaguei. Quando minha sobrinha foi ver, não tinha mais."
Helena fechou os olhos por um instante.
Saímos para um café enquanto a documentação era revisada. Marlene quis pagar o próprio pão e ficou irritada quando Helena tentou incluir na conta.
"Eu pedi ajuda com remédio, Helena. Não fiquei sem vontade de pagar um pão."
Helena recuou imediatamente.
"Tem razão. Eu vou querer um também."
Observei as duas discutirem se o café estava fraco. Pela primeira vez, a situação parou de parecer um problema que eu tinha de resolver e voltou a parecer uma manhã com pessoas de verdade.
Pouco antes de eu sair para o trabalho, Joana nos chamou. O auxílio daquele mês fora aprovado. Marlene receberia orientação para buscar os medicamentos com acompanhamento da farmacêutica, sem precisar voltar ao meu caixa para explicar tudo outra vez.
Ela segurou minha mão na despedida.
"Obrigada por vir."
Eu queria dizer que não merecia agradecimento. Não disse. Ela estava me oferecendo alguma coisa, e eu já tinha visto gente demais escolhendo por ela.
"Se precisar falar com a Joana, o número está aqui", respondi, conferindo o calendário.
No ônibus, mandei uma mensagem para Beatriz. Escrevi que aceitaria acompanhar a revisão, desde que as reuniões não coincidissem com meu trabalho e que alguém me explicasse o que eu não soubesse.
A resposta veio quando desci perto da farmácia.
"Combinado. A primeira coisa é essa: você não precisa pedir desculpas por fazer perguntas."
Guardei o celular e entrei. Sérgio me olhou do escritório, esperando alguma notícia.
Dessa vez fui até ele antes de vestir o avental.
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