"Dezoito Reais e uma Promessa do Meu Pai." Capítulo 3
PUBLICIDADE
O QUE MEU PAI NÃO DEIXOU
Pensei nas nove vezes em que eu tinha perguntado a Sérgio se fizera alguma coisa errada e nas nove vezes em que ele encontrara uma resposta que não dizia nada sobre meu pai.
Até o meu jeito de empilhar caixas ele havia corrigido.
"O senhor me contratou por causa dele?"
"Seu currículo servia para a vaga."
"Não foi isso que perguntei."
Sérgio olhou para Helena antes de responder. O gesto me feriu mais do que a hesitação.
"O nome fez com que eu prestasse atenção. Você ficou porque trabalhava bem."
Eu queria que a segunda parte bastasse. Não bastou.
"E depois passou nove meses fingindo que nunca tinha ouvido falar dele."
"Eu conhecia seu pai pouco. Quem trabalhou com ele foi o meu pai. Achei que cabia à sua mãe contar o que quisesse."
"Mas não teve problema em falar de mim com a dona Helena."
Ele olhou para a mesa.
Beatriz colocou um copo de água perto da minha mão. Bebi metade, mais para ocupar a boca do que por sede.
Helena esperou até eu baixar o copo.
"Eu perguntei se você trabalhava aqui. Depois perguntei como era. Ele disse que você era responsável e que demorava demais ajudando os clientes."
"Isso ele fala para mim também."
"Imagino."
Não sorri. Ela aceitou o fracasso daquela tentativa de humor.
Beatriz separou os documentos em duas pilhas. Uma continha relatórios da associação. A outra, cópias de papéis antigos e duas cartas em envelopes distintos.
"O projeto é independente da farmácia, embora os atendimentos tenham ficado ligados a ela", explicou. "A venda tornou necessária uma decisão sobre essa parceria. Foi por isso que a Helena me procurou."
"E meu pai previu tudo isso?"
"Não. Ele tinha receio de que a ajuda acabasse subordinada aos interesses de quem administrasse a loja. Deixou isso por escrito."
Abri a primeira carta. A letra parecia mais firme do que a que eu lembrava dos últimos meses de doença. Reconheci o jeito de puxar a perna do J e a marca forte no fim das palavras.
Era endereçada à associação. Meu pai pedia regras mais claras, prestação de contas e decisões que não dependessem de uma pessoa só. Numa observação ao final, mencionava meu nome.
"Se algum dia meu filho quiser conhecer esse trabalho, mostrem a ele o que fizemos, inclusive os erros. Não prometam lugar nenhum em meu nome."
Li uma segunda vez.
Aquele homem não estava me nomeando para cargo algum. Estava pedindo que não me contassem uma versão limpa demais de sua vida.
"Então por que o teste?"
Helena não tentou escapar.
"Porque eu confundi conhecer você com procurar uma semelhança."
Dobrei a folha com cuidado.
"A senhora já sabia quem eu era antes de entrar. Não precisava me encontrar."
"Eu sei. A frase que falei no telefone foi para a Beatriz entender que eu queria conversar hoje. Eu estava emocionada e falei de um jeito que não devia."
PUBLICIDADE
Aquilo era uma explicação pequena, quase constrangedora. Preferi a qualquer nova promessa misteriosa.
Beatriz retirou outra folha.
"Gostaríamos de convidar você a acompanhar uma revisão do projeto. Como funcionário da farmácia e, se quiser, como alguém interessado no trabalho do seu pai. Sem obrigação de aceitar. Sem decidir sozinho sobre dinheiro."
Eu tinha dezenove anos. Ainda pedia à Renata que conferisse minha contagem de estoque quando as caixas vinham com embalagens parecidas. A ideia de participar de alguma espécie de conselho me pareceu absurda.
"Eu não sei fazer isso."
"Você pode começar ouvindo", ela disse. "E pode achar que não quer continuar."
Sérgio se afastou da porta para buscar café. Voltou com quatro copos de plástico, derramando um pouco no caminho. Pela primeira vez, pareceu tão desconfortável naquela sala quanto eu.
Perguntei por que meu pai saíra da Santa Clara.
Helena olhou para o café sem pegá-lo.
"Ele discordava da maneira como as solicitações estavam sendo recusadas. Queria mudar. Meu colega, o pai do Sérgio, achava que era preciso acumular uma reserva maior. Eu tentei conciliar os dois."
"E conseguiu?"
"Não. Acabei pedindo paciência a quem já tinha esperado demais."
Meu pai tinha deixado o emprego, passado por outra farmácia e depois ido trabalhar no hospital. Eu conhecia a última parte. A primeira sempre coubera numa frase: houve uma desavença.
"Ele nunca falou mal daqui em casa."
"Acredito", Helena respondeu. "Mas falou mal de nós para mim. Com bastante clareza."
Aquela sinceridade inesperada me arrancou um sopro de riso. Ela olhou para mim, aliviada, e logo voltou ao assunto.
Beatriz mostrou os relatórios recentes. Os recursos continuavam na associação. Havia despesas, aplicações e pequenas distribuições, tudo sujeito a revisão; não era uma mala de dinheiro desaparecida. O problema saltava de uma coluna bem menor.
"Sete pessoas?", perguntei.
"No último ano."
Passei o dedo pela linha.
"Só sete receberam ajuda?"
"Sim."
"Quantas pediram?"
Ela virou a folha seguinte.
Havia dezenas de solicitações. Algumas incompletas, outras encerradas sem resposta final. Vi observações sobre renda, endereço e documentos pendentes. Pensei nos clientes que contavam moedas diante de mim, nos que pediam para tirar um item, nos que nunca voltavam para buscar a encomenda.
"Eu nunca soube que podia encaminhar ninguém."
Sérgio mexeu no café.
"A orientação antiga era que os pedidos viessem pela associação."
"A associação que ninguém me disse que existia."
Ele não respondeu.
Pedi a Beatriz que me mostrasse uma solicitação recusada. Ela explicou que os detalhes pessoais não poderiam simplesmente circular entre nós, mas havia um caso cujo retorno a própria cliente autorizara que a farmácia acompanhasse. Puxou a folha, cobrindo dados que não eram necessários.
No alto estava escrito Marlene Costa.
Reconheci o nome antes de terminar a primeira linha.
Dona Marlene comprava sabonete de erva-doce, recusava sacola para uma caixa só e sempre perguntava se eu já tinha prestado vestibular. Duas semanas antes, havia ficado parada no meu caixa com uma receita dobrada em quatro.
Eu lembrava da vergonha dela ao perguntar se existia alguma ajuda.
Lembrava ainda melhor da minha resposta.
Olhei a data na folha. O pedido tinha sido recusado na véspera daquela visita.
"Eu conheço essa mulher."
Beatriz deixou o papel sobre a mesa.
Senti o café amargo subir pela garganta.
"Ela perguntou se a farmácia podia fazer alguma coisa. E eu disse que aqui não tinha nenhum auxílio."
PUBLICIDADE
você pode gostar
-
TerminadoCapítulo 10
Eu Quis Expulsar um Menino do Restaurante. Ele Tinha Salvado Meu Filho.
Eu pedi ao gerente que tirasse aquele menino do restaurante. As roupas estavam sujas, os tênis encharcados, e eu só conseguia pensar nos olhares das outras mesas. Até meu filho se colocar na frente dele. “Mãe, para. Se não fosse por ele, eu estaria morto.” Foi então que enxerguei a mão inchada, o rosto machucado e o esforço que Samuel fazia para não demonstrar fome. Ele tinha arriscado a vida para salvar Lucas. Eu quase o coloquei de volta na chuva. Quis pedir desculpas, pagar um jantar, levá-lo ao médico. Mas Samuel não confiava em promessas de adultos. E, quando descobri por que um menino de treze anos preferia dormir na rua a voltar para casa, entendi que ajudá-lo exigiria muito mais do que abrir a carteira.Drama|Moderno10.3 mil palavras5 0 -
TerminadoCapítulo 10
Minha Filha Acordou o Homem Que Todos Temiam
No meu primeiro dia de trabalho na mansão Moretti, minha filha de três anos entrou no único quarto proibido da casa. Encontrei Mia sentada ao lado de Lorenzo Moretti, segurando sua mão e cantando baixinho. O homem que todos temiam estava havia quarenta e nove dias sem despertar. Minha filha só queria saber se ele tinha medo de dormir sozinho. Eu estava prestes a tirá-la dali quando seus dedos se fecharam em torno dos dela. A partir daquele momento, Mia passou a esperar pelas visitas. E Lorenzo começou a esperar por nós. Eu também queria voltar àquele quarto, embora demorasse a admitir o motivo. Então descobri uma anotação escrita antes do acidente. Lorenzo já estava procurando por mim e pela minha filha. E o homem que nos abandonou sabia por quê.Bilionário|Moderno9.7 mil palavras5 0 -
TerminadoCapítulo 10
A Porta Azul Escondia a Mãe Dela — e o Segredo da Minha Família
Ao voltar de uma viagem, Mateus Valenti encontra Sofia, de cinco anos, descalça pela casa, procurando a mãe que não vê há três dias. A administradora da fazenda garante que Helena saiu para cuidar da tia Rosa. Mas a menina revela um detalhe impossível de ignorar: Rosa morreu há oito meses. Então Sofia conta o que ninguém quis ouvir. Ela escutou a mãe batendo atrás de uma porta azul, no subterrâneo da propriedade. Mateus decide acompanhá-la. No corredor abandonado, encontra pegadas recentes, um botão da blusa de Helena e um cadeado novo numa porta antiga. Quando alguém finalmente responde do outro lado, ele percebe que não conhece tão bem as pessoas em quem sempre confiou. E encontrar Helena será apenas o começo.Drama|Moderno10.0 mil palavras5 0 -
TerminadoCapítulo 10
“Posso Pegar Seu Cachorro Emprestado?” A Filha da Empregada Revelou o Segredo do Chefe da Máfia
Ninguém entrava no escritório de Dante Moretti sem permissão. Até a filha da empregada aparecer de pijama, abraçada a uma almofada de estrela. “Seu Dante, posso pegar seu cachorro emprestado pra dormir comigo?” Sofia tinha quatro anos e uma explicação: alguém estava batendo perto da porta do seu quarto à noite. Ela estava com medo. E achava que Bruno, o enorme cão de guarda que todos evitavam, também não gostava de dormir sozinho. Dante pretendia apenas levar a menina de volta para a mãe. Então Sofia tirou uma fotografia do bolso. Na imagem estava o pai dele, morto havia dezoito anos. Ao lado, a empregada da casa, muito mais jovem, segurava um bebê. “A mamãe falou que não sou eu.” Dante conhecia cada rosto naquela fotografia. Menos o da criança. E descobrir quem ela era significava encarar tudo que sua própria família havia escondido dele.Drama|Máfia|Moderno10.7 mil palavras5 0 -
TerminadoCapítulo 10
Quebrei o Caixão da Minha Irmã
Rafael estava prestes a se despedir da irmã quando ouviu um choro vindo de dentro do caixão. Disseram que era o desespero. Tentaram afastá-lo. Mas ele pegou um castiçal e quebrou a madeira diante de todos. Luísa estava viva. Amarrada, amordaçada e apavorada. Salvá-la deveria ter sido o fim daquele pesadelo. Até que ela implorou para não voltar ao hospital onde fora declarada morta. Agora, Rafael precisa descobrir quem tentou enterrar sua irmã viva — e por que as pessoas em quem sempre confiou querem impedir que ela conte o que sabe. Naquela família, nem todos os funerais enterraram os mortos. Alguns enterraram a verdade.Drama|Bilionário|Traição|Vingança|Moderno10.6 mil palavras5 26 -
TerminadoCapítulo 11
Levei Três Tiros pelo Filho do Chefe da Máfia.
Clara Martins conhecia todos os funcionários daquele salão. O homem que caminhava em direção ao pequeno Léo não era um deles. Quando viu a arma apontada para o menino, ela não pensou no sobrenome Bellini. Pensou apenas que ele tinha seis anos. Três tiros depois, Clara acordou no hospital e descobriu que salvar o filho de Lorenzo Bellini havia colocado sua própria família em perigo. Enzo era um homem acostumado a ser obedecido. Podia oferecer médicos, seguranças e uma casa cercada por muros. Mas não sabia como consolar o filho — nem como lidar com a mulher que arriscara tudo por ele. Então, diante da própria família, anunciou: “Ela é minha esposa.” Clara nunca havia se casado com aquele homem. Agora, precisava sustentar uma mentira sob o mesmo teto que ele, enquanto um menino começava a confiar nela e um beijo ameaçava tornar tudo dolorosamente real. Ela aceitara sua proteção. Entregar o coração seria muito mais perigoso.Empregada/Babá|Drama|Vingança|Máfia11.3 mil palavras5 31