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"Dezoito Reais e uma Promessa do Meu Pai." Capítulo 2

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ELA PODIA TER PAGADO

Beatriz manteve a pasta no balcão, ao alcance da minha mão.

"São documentos de um projeto que ele ajudou a criar. A Helena me pediu para vir conversar com você."

Puxei a capa, mas não abri. Eu precisava de respostas numa ordem que fizesse sentido.

"Ela pediu quando?"

"Hoje à tarde. Eu sabia que ela viria aqui."

Olhei para Helena.

"A senhora sabia que ia me encontrar."

"Sabia."

"E estava mesmo sem dinheiro?"

Sérgio abriu a boca. Levantei a mão, e ele, para minha surpresa, ficou quieto.

Helena tirou a carteira da bolsa e colocou ao lado da sacola.

"Eu tinha pouco dinheiro em espécie. Mas podia ter pago pelo celular."

Meu rosto esquentou. A cliente das vitaminas já tinha ido embora; mesmo assim, tive a sensação de que a farmácia inteira me observava.

"Então por que não pagou?"

"Porque eu queria saber como você reagiria."

Renata soltou um suspiro atrás de mim.

Fiquei esperando que Helena sorrisse, que dissesse que eu tinha entendido errado. Ela apenas me encarou, sem conseguir sustentar o olhar por muito tempo.

"A senhora me viu discutir com meu chefe."

"Eu vi."

"E continuou."

"Continuei."

Afastei a pasta.

"Então a senhora pode levar isso de volta."

Helena fez menção de se levantar. Sérgio colocou a mão no encosto da cadeira, sem tocá-la.

"Lucas, escute primeiro."

Virei para ele.

"O senhor também sabia dessa parte?"

"Não. Eu não sabia que ela faria isso."

"Mas sabia de alguma coisa."

"Sabia do projeto."

Beatriz fechou o guarda-chuva e o deixou num canto.

"Podemos conversar sem trancar você numa sala, Lucas. Se quiser ir embora, os documentos ficam disponíveis para outro dia."

Era a primeira frase daquela noite que me oferecia alguma escolha.

Olhei o relógio. Faltavam quinze minutos para meu horário terminar. A rua ainda estava molhada, e um ônibus passou levantando água contra o meio-fio. Pensei no ponto cheio, na marmita de minha mãe, na facilidade com que eu poderia tirar o avental e sair.

Então vi de novo o nome do meu pai.

"Eu escuto. Mas não quero mais surpresa armada."

Helena assentiu.

"Você tem razão de estar zangado."

"Não precisa me autorizar a ficar zangado."

Ela apertou os lábios. A resposta tinha sido dura, e eu soube disso imediatamente. Ainda assim, não retirei.

Renata terminou o atendimento do último cliente. Sérgio baixou parcialmente a porta de aço depois do fechamento, e fomos para a sala de descanso. Beatriz me perguntou se eu preferia que minha mãe estivesse presente.

Liguei para ela antes de responder.

"Mãe, você conhece uma senhora chamada Helena Duarte?"

Houve um silêncio do outro lado.

"De onde você ouviu esse nome?"

Sentei na beirada da cadeira.

"Ela está aqui. Com uma advogada e uns documentos do pai."

Minha mãe pediu que eu colocasse no viva-voz. Helena se apresentou, embora não precisasse. As duas conversaram com uma formalidade estranha, como vizinhas que tinham se afastado depois de uma briga.

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"Eu devia ter ligado para você primeiro, Teresa", Helena disse.

"Devia mesmo."

A voz de minha mãe não estava alta. Por isso me preocupou.

Beatriz explicou que não havia nada a assinar naquela noite. Minha mãe escutou até o fim e pediu que eu levasse cópia de tudo.

"Você quer que eu vá?", perguntou.

Eu queria. Queria tanto que quase disse sim antes de lembrar que ela estava de chinelo, no outro lado da cidade, depois de um turno inteiro na cozinha de uma escola.

"Eu consigo ouvir. Depois a gente lê junto."

"Então não precisa decidir nada hoje."

Prometi que não decidiria.

Quando desliguei, Helena colocou dezoito reais na mesa.

"Eu fiz você pagar por uma encenação minha. Isso é seu."

Deixei o dinheiro onde estava.

"Eu ia jantar com aquilo."

Ela baixou os olhos.

Não contei para fazê-la sofrer. Contei porque todos estavam falando de um projeto, de documentos e de intenções, e eu queria que pelo menos uma pessoa naquela sala entendesse o tamanho exato da brincadeira.

"Eu não pensei nisso", ela disse.

"Pois é."

Beatriz abriu a pasta e retirou uma fotografia.

Meu pai estava diante da Santa Clara, com uma caixa de papelão apoiada no quadril. Usava uma camisa clara e tinha os mesmos ombros estreitos que eu. Seu sorriso era tão aberto que senti raiva da foto por existir havia tantos anos sem que eu a tivesse visto.

Helena aparecia ao lado dele, mais nova, o cabelo ainda escuro nas pontas. Havia outra mulher e um homem de bigode perto da porta.

"Posso pegar?"

Beatriz entregou.

Passei o polegar pela beirada, sem tocar o rosto dele.

"Ele carregava tudo assim", falei. "Minha mãe dizia que ia acabar estragando a coluna."

Helena sorriu, mas não tentou aproveitar a lembrança para se aproximar.

"Ele respondia que a caixa estava mais confortável do que ele."

Era exatamente uma coisa que meu pai diria. Precisei olhar para a parede.

Beatriz explicou que, vinte e dois anos antes, Júlio ajudara a organizar uma pequena caixa de auxílio para clientes sem condições de comprar determinados medicamentos. Helena participava de uma associação de bairro e ajudara a conseguir doações. Com o tempo, uma herança deixada por uma moradora e outras contribuições haviam aumentado os recursos.

"É uma herança dele?", perguntei.

"Não. E é importante esclarecer isso desde o começo. O dinheiro pertence à associação responsável pelo projeto."

Assenti, um pouco envergonhado por ter perguntado.

"Seu pai deixou cartas e propostas sobre o funcionamento", Beatriz continuou. "Também pediu que, quando você fosse adulto, pudesse conhecer essa parte da história dele."

Sérgio estava encostado perto da porta. A luz do corredor deixava metade de seu rosto na sombra.

"Por que ninguém falou antes?"

Helena juntou as mãos no colo.

"Porque adiei uma conversa que me envergonhava. Quando soube da possível venda da farmácia, percebi que estava ficando sem tempo para adiar."

Olhei para Sérgio.

"A farmácia vai ser vendida?"

"Ainda está em negociação."

Eu fazia parte da equipe e estava sabendo por uma estranha. Guardei aquilo para depois; naquele momento havia uma pergunta pior.

"Quando o senhor descobriu quem era meu pai?"

Ele tirou os óculos.

"No seu currículo estava escrito Lucas Moura. Eu suspeitei. Quando você trouxe os documentos e vi o nome completo dos seus pais, tive certeza."

"Na minha contratação?"

Sérgio passou os dedos pela armação.

"Desde o primeiro dia."

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