"Eu Quis Expulsar um Menino do Restaurante. Ele Tinha Salvado Meu Filho." Capítulo 9

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E SE EU DER TRABALHO?

Depois que Márcio foi levado, esperei uma melhora que não veio do jeito que eu imaginava.

Samuel continuou olhando pelo olho mágico antes de abrir a porta. Acordava cansado. Às vezes se assustava com a voz de um homem na televisão e fingia que estava procurando o controle.

O acompanhamento continuou, assim como a investigação. Recebemos a informação de que Márcio permaneceria detido enquanto o caso avançava. Guardei os papéis numa pasta, fora do alcance dos olhos dos meninos, e mantive contato com quem nos orientava.

Para Samuel, a notícia só parecia valer até a próxima noite.

Um sábado, eu saí para trabalhar numa montagem e voltei depois do horário previsto. Avisei à minha mãe, que estava com os dois, mas não falei diretamente com ele.

Encontrei Samuel sentado no sofá, de tênis, a mochila entre os pés.

"Você vai sair com a minha mãe?", perguntei.

Dona Lúcia, na cozinha, me olhou de um jeito que conhecia desde criança.

"Estávamos esperando você."

Samuel tirou a mochila do caminho.

"Eu achei que você não vinha."

"Eu mandei mensagem."

Minha mãe não desviou o olhar.

Abaixei a bolsa.

"Mandei para ela. Devia ter falado com você também."

"Não precisa ficar avisando tudo."

Mas ele estava de tênis dentro de casa, com roupas suficientes para ir embora.

Sentei ao lado dele e expliquei o atraso. Não dei uma palestra sobre confiança. Nas semanas seguintes, passei a combinar os horários diretamente e a avisar quando mudavam.

Samuel também começou a sair da casa de outro jeito.

Houve uma retomada gradual dos estudos, organizada com a equipe e a escola. No começo, voltava irritado, dizendo que os exercícios eram fáceis demais ou difíceis demais. Algumas vezes, as duas coisas no mesmo dia.

Lucas tentou ajudar e descobriu que ser irmão de alguém não significava ser um bom professor.

"Você precisa ler a pergunta inteira."

"Eu li."

"Então por que fez outra coisa?"

"Porque eu entendi outra coisa, Lucas."

Eu apareci à porta antes que o tom subisse mais.

"Pausa para lanchar?"

"Eu não sou criança para precisar de pausa", Samuel respondeu.

Fiquei magoada por um segundo. Havia preparado bolo, rearranjado reuniões, acompanhado tarefas. Queria que ele aceitasse meu cuidado com a mesma disposição com que eu o oferecia.

Respirei antes de responder.

"Está bem. O bolo vai ficar na cozinha."

Meia hora depois, encontrei os dois comendo de pé, discutindo se a cobertura tinha açúcar demais.

Nem toda dificuldade terminava assim.

Numa tarde, Samuel voltou da aula e se trancou no banheiro. Lucas me contou que um menino fizera perguntas sobre o acolhimento e o chamara de caridade. Meu filho discutira com ele e acabara levado à coordenação.

Quando Samuel saiu, perguntei se queria conversar.

"Quero ficar quieto."

Deixei.

Mais tarde, ouvi os dois no corredor.

"Você não tinha que falar nada", Samuel disse.

"Ele estava sendo idiota."

"E agora todo mundo sabe."

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Lucas se calou.

Pensei em intervir, mas esperei perto da cozinha.

"Desculpa", meu filho disse depois. "Eu fiquei com raiva."

Samuel encostou na parede.

"Eu também fiquei. Só não queria que olhassem mais."

No dia seguinte, conversamos com a escola. Houve atenção ao que acontecera, sem fazer Samuel repetir sua história diante de uma turma inteira.

À noite, ele me entregou um desenho. Era nossa cozinha vista da porta, com a caixa de comida no armário baixo. Lucas aparecia inclinado sobre um prato, e eu estava de costas junto ao fogão.

"Seu braço ficou meio torto", explicou.

"Eu gostei."

"Não precisa falar isso só porque fui eu que fiz."

"O braço ficou torto. Eu gostei mesmo assim."

Ele sorriu e deixou que eu colocasse o desenho na geladeira.

Os meses foram passando entre consultas, tarefas e conversas sobre o futuro. A possibilidade de Samuel permanecer conosco de forma duradoura precisava ser avaliada com cuidado. Ele tinha espaços para falar sem a minha presença; Lucas também.

Num desses encontros, Marta perguntou por que eu queria continuar.

Eu podia ter repetido a história do restaurante. Já a contara tantas vezes que algumas frases vinham prontas.

Mas pensei em Samuel separando as ervilhas do arroz, perdendo a paciência com a internet, fingindo não gostar quando minha mãe o chamava para provar o feijão.

"Porque sinto falta dele quando não está em casa", respondi.

Foi a resposta mais simples que consegui dar.

Naquela noite, Samuel me encontrou guardando documentos na sala.

"Ela perguntou se eu queria ficar."

Fechei a pasta.

"Você conseguiu responder?"

"Mais ou menos."

Ele sentou na outra ponta do sofá.

Lucas estava no quarto, falando com a avó por chamada de vídeo. O apartamento tinha o cheiro do café que eu acabara de fazer.

"Você quer que eu fique por causa do Lucas?"

"Também gosto do que vocês têm juntos. Mas não é só por isso."

Samuel observou a unha do polegar.

"Se eu não tivesse puxado ele, você nem ia falar comigo."

Não havia resposta que apagasse aquela noite.

"Provavelmente não. E isso é uma coisa de que eu tenho muita vergonha."

Ele assentiu devagar.

"No começo, eu queria consertar o que fiz", continuei. "E queria agradecer pelo Lucas. Foi assim que começou."

Samuel olhou para mim.

"E agora?"

Tentei não transformar aquilo num discurso. Ele estava esperando uma resposta, não uma declaração que precisasse entender depois.

"Agora eu quero saber como foi seu dia. Quero reclamar quando você deixa a toalha molhada na cama. Quero estar aqui quando você precisar. Eu gosto de você, Samuel. Aprendi a gostar convivendo com você."

Ele apertou as mãos.

"E se eu der trabalho?"

"Você já dá um pouco. O Lucas também."

Um sorriso breve apareceu e sumiu.

"Estou falando sério."

"Eu também. Você não precisa passar a vida tentando ser fácil para mim."

Samuel respirou fundo.

"E se eu for mal na escola?"

"Vamos procurar o que está dificultando."

"E se eu mentir?"

"Eu vou ficar chateada. Vamos ter que conversar. Talvez tenha consequência, dependendo do que aconteceu."

Ele me estudava como se procurasse a parte escondida da resposta.

"Mas não vai me mandar embora?"

Senti os olhos arderem.

"Não vou usar sua casa como ameaça quando você errar."

Samuel olhou para o corredor. Do quarto veio a risada de Lucas.

"Eu não sei fazer isso direito."

"O quê?"

"Morar com vocês. Às vezes eu fico com raiva por nada. Depois acho que estraguei tudo."

Estendi a mão sobre o sofá, sem alcançar a dele.

"Você pode me contar quando achar isso. Mesmo se estiver com raiva de mim."

Ele se aproximou o suficiente para encostar o joelho no meu.

"Eu quero ficar."

As palavras saíram baixas, mas não havia dúvida nelas.

Eu segurei sua mão.

"Eu também quero."

Naquela noite, antes de ir para a cama, Samuel pegou a mochila que ainda mantinha pronta ao lado da escrivaninha.

Tirou as roupas, o caderno e o carrinho vermelho. Guardou cada coisa em seu lugar.

Depois me perguntou onde poderia deixar uma mochila vazia.

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