"Eu Quis Expulsar um Menino do Restaurante. Ele Tinha Salvado Meu Filho." Capítulo 8

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EU NÃO VOU COM VOCÊ

Na semana seguinte, Marta marcou uma conversa presencial para revisar os próximos passos do acompanhamento. O telefonema de Márcio e a descoberta do galpão tinham mudado os cuidados com nossos deslocamentos.

Combinamos horários, evitamos as saídas de sempre e passamos a avisar quando chegávamos. Meu porteiro recebeu orientações. A escola de Lucas também.

Ainda assim, eu não conseguia olhar para uma van escura sem prender a respiração.

Samuel percebeu.

"Não é toda van que é dele", disse numa manhã.

"Eu sei."

"Você olha para todas."

Não tentei negar.

Naquele dia, saímos da conversa com Marta pouco antes das quatro. Lucas nos acompanhara porque participara de uma parte do encontro. O prédio ficava numa rua movimentada, e o estacionamento conveniado era na esquina.

O funcionário entregou a chave do carro no balcão e informou que o veículo estava no térreo, perto da saída. Havia duas pessoas esperando, uma rádio ligada e um homem lavando o piso na área de serviço.

Eu estava procurando o comprovante na bolsa quando Samuel parou.

Não precisou falar.

Márcio apareceu do lado de uma coluna, perto da passagem dos pedestres.

Tinha barba por fazer e a mesma jaqueta preta. Olhou rapidamente para a rua antes de se aproximar.

"Eu falei para devolver a chave."

O funcionário do balcão ergueu a cabeça.

Puxei os meninos para perto de mim e recuei na direção da guarita, sem correr.

"Chame a polícia", falei para o funcionário. "Esse homem está nos ameaçando."

Márcio sorriu para ele.

"É problema de família."

"Não é", respondi.

O homem do balcão pegou o telefone. Márcio avançou e segurou meu antebraço.

A dor me assustou. Soltei a bolsa, e o conteúdo se espalhou pelo chão.

Lucas deu um grito.

"Solta a minha mãe!"

"Vai para o balcão", mandei. "Lucas, agora."

Ele hesitou. Samuel o empurrou de leve para trás, e meu filho correu os poucos passos até a guarita.

Márcio me soltou para tentar alcançar Samuel.

Entrei na frente.

"Não chega perto dele."

"A senhora acabou com a minha vida."

"Afaste-se."

Ele tentou olhar por cima do meu ombro.

"Você contou, não foi? Eu devia ter imaginado. Eu te dou comida, te dou teto, e você faz isso."

Samuel estava tão perto que senti sua respiração nas minhas costas.

"Vai para perto do Lucas", falei, sem virar.

Márcio bateu a mão numa coluna.

"Fica aqui. Estou falando com você."

Samuel se moveu. Por um segundo, tive certeza de que obedeceria.

Mas ele saiu de trás de mim apenas o suficiente para enxergar o homem.

"Eu não vou com você."

Márcio ficou imóvel.

"Vai fazer cena na frente de todo mundo?"

O lavador desligou a máquina. Um cliente levantou o celular, dizendo que estava chamando ajuda. A rua estava a poucos metros, e eu pensei que Márcio fugiria.

Ele continuou olhando para Samuel.

"Acha que essa mulher vai ficar com você para sempre?"

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Meu estômago se contraiu.

"Ela tem filho. Você é só um favor que está fazendo agora. Quando der trabalho demais, vai te entregar para os outros."

Samuel chorava sem fazer barulho.

Dei um passo para o lado, bloqueando de novo a passagem.

"Não escuta isso. Vai para o balcão."

"Eu estou falando com ele", Márcio disse.

O funcionário surgiu da guarita com outro homem, mais velho. Pediram que Márcio se afastasse. Ele os ignorou.

"Sua mãe também me pediu para cuidar de você. Foi a única coisa que ela pediu."

Samuel levou a mão à gola da camiseta.

Eu vi a velha vontade de ceder no jeito como seus ombros baixaram. Quis responder por ele, gritar que aquele homem estava mentindo, mas o menino falou antes.

"Ela não pediu para você me bater."

Márcio abriu a boca.

"Você sabe muito bem..."

"Eu não vou voltar."

A voz saiu mais alta.

Lucas chamava pelo funcionário, apontando para o telefone. Ouvi meu filho informar a rua, o nome do estacionamento, pedir que viessem depressa. Tinha decorado o endereço da reunião porque eu o fizera conferir o trajeto comigo.

Márcio agarrou a manga de Samuel.

Segurei o pulso dele com as duas mãos e puxei para longe do menino. O homem do estacionamento interveio, colocando o corpo entre nós. Tudo aconteceu depressa, sem a clareza com que eu lembraria depois.

Samuel conseguiu recuar.

Eu o conduzi até a guarita. Lucas abriu a pequena porta e nós entramos. O funcionário ficou do lado de fora, junto ao colega, enquanto Márcio discutia e procurava uma saída.

Não estava preso ali. Podia ir embora. E tentou.

A primeira viatura chegou quando ele já atravessava a calçada. O cliente que permanecera na entrada apontou. Um agente mandou que parasse.

Márcio ainda olhou para trás.

Samuel se abaixou no canto da guarita.

Eu me sentei ao lado dele. Lucas ficou na porta, tremendo.

Ouvimos ordens, uma discussão curta, passos. Não pedi aos meninos que olhassem. Também não me levantei para assistir.

Só saímos quando uma policial veio falar conosco.

Márcio estava contido junto ao veículo. Reconheceu Samuel na porta e tentou dizer alguma coisa. A agente nos conduziu para o outro lado, impedindo que se aproximasse.

Desta vez, ele foi levado.

O funcionário recolheu minha bolsa e os objetos do chão. Um batom tinha rolado para debaixo de um carro. Eu disse que podia deixar.

Meu braço estava vermelho onde Márcio apertara.

Lucas viu e começou a chorar.

"Eu não consegui tirar ele."

Puxei meu filho para perto.

"Você foi buscar ajuda. Eu ouvi você no telefone."

Samuel estava parado ao nosso lado.

"Eu devia ter ficado lá dentro", murmurou. "Eu devia ter visto antes."

"Você não tinha que prever isso."

Ele balançou a cabeça, sem acreditar.

Os depoimentos e as providências tomaram o resto da tarde. Marta nos encontrou e ajudou a organizar o que precisava ser feito. Eu respondi às perguntas com as mãos ainda geladas.

Quando finalmente voltamos, Samuel entrou no apartamento e foi direto para o quarto.

Deixei que ficasse alguns minutos. Depois bati à porta.

Ele estava sentado no chão, de frente para a cama.

"Ele pode vir hoje?"

"Não. Ele foi levado, e a equipe está acompanhando a situação. Se houver qualquer mudança, vão nos avisar."

Samuel começou a chorar.

Ajoelhei perto dele. Dessa vez, foi o menino quem se aproximou.

Abraçou minha cintura com tanta força que perdi o equilíbrio e sentei no chão.

Lucas entrou e se acomodou do outro lado.

Eu fiquei segurando os dois, com as costas encostadas na cama e o braço dolorido preso entre seus corpos.

Nenhum deles tentou ser corajoso naquela noite.

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