"Eu Quis Expulsar um Menino do Restaurante. Ele Tinha Salvado Meu Filho." Capítulo 7

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A CHAVE NO FORRO

O telefonema chegou numa terça-feira, enquanto eu cortava tomates.

Lucas fazia a lição na mesa. Samuel desenhava ao lado dele, interrompendo de vez em quando para dizer que uma conta estava errada.

Atendi com a mão molhada.

"Clara Monteiro?"

Reconheci a voz antes que ele dissesse o nome.

Apoiei a faca na tábua e fui para a área de serviço.

"Não ligue novamente para este número."

Márcio soltou um suspiro.

"Eu só quero resolver uma coisa. Sem confusão."

"Fale com quem está acompanhando o caso."

"Não é disso. O menino levou uma coisa minha."

Olhei pelo vidro. Samuel tinha erguido a cabeça.

"Eu não vou discutir isso com você."

"Uma chave. Só isso. Ele sabe. Devolve e eu deixo vocês em paz."

O medo veio antes da raiva. Ele tinha meu número. Sabia meu nome. Talvez soubesse mais.

"Não procure nenhum de nós."

Desliguei e fiquei alguns segundos olhando para a tela.

Quando voltei, Samuel já estava em pé.

"Era ele?"

Lucas largou o lápis.

Eu podia ter pedido que fossem para o quarto. Não fiz.

"Era. Falou de uma chave. Vou avisar agora a Marta e a polícia."

Samuel levou a mão ao peito, onde não havia bolso.

Lembrei do moletom cinza. Quando o lavamos, ele insistira para conferir o forro antes de pendurar. Eu pensara em dinheiro, num bilhete, em alguma pequena coisa que quisesse preservar.

"Você tem essa chave?"

Ele assentiu.

"Você sabe o que ela abre?"

"Uma porta num galpão."

Lucas começou a perguntar alguma coisa, mas parou ao ver o rosto dele.

Samuel foi ao quarto e voltou com o moletom. Sentou à mesa, virou a barra e procurou uma abertura pequena na costura. Tirou uma chave comum, escura de uso, presa a uma argola sem identificação.

Colocou sobre o desenho de uma casa.

"Era para eu entregar para um homem. Não entreguei."

Sentei diante dele.

"Por quê?"

"Porque fui embora antes. O Márcio me deu de manhã. Falou que, quando o cara chegasse na oficina, eu passava a chave e esperava ele voltar."

"E você fugiu naquele dia?"

"Ele tinha saído. Minha mochila estava no galpão. Eu queria pegar a foto da minha mãe. Achei que dava tempo de buscar e sumir. Mas tinha gente lá quando cheguei. Fui embora sem nada."

Ele esfregou o polegar na mesa.

"Depois fiquei com medo de jogar fora. Se ele me achasse, ia pedir."

Eu olhei para a chave. Um objeto pequeno o acompanhara durante semanas, até dentro da cama que eu preparara, porque ele ainda pensava no que precisaria apresentar ao homem caso fosse levado de volta.

"Por que não contou antes?"

A pergunta saiu e me arrependi. Samuel apertou a boca.

"Eu sei. Devia ter contado."

"Não estou brigando. Quero entender."

"Ele me mandava fazer entrega. Eu levava coisa. Se acharem tudo, vão saber que eu também estava lá."

Aproximei o telefone.

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"Vamos contar isso com a Renata e a Marta. Você não precisa explicar sozinho."

Ele olhou para Lucas.

"Eu não pegava porque queria."

Meu filho respondeu sem hesitar:

"Eu sei."

Samuel baixou a cabeça. Uma lágrima caiu sobre a casa desenhada. Ele tentou secá-la depressa, borrando o telhado.

Nenhum de nós tocou na chave.

Naquela tarde, recebemos orientação sobre o telefonema e a entrega do objeto. O investigador responsável, André, veio ouvi-lo acompanhado de uma profissional que Samuel já conhecia. Falou baixo, fez perguntas concretas e parou quando o menino se cansou.

Samuel não sabia o endereço inteiro do galpão, mas lembrava de um mercado na esquina, de um muro com um cachorro pintado e de um viaduto visível do portão. Desenhou o caminho a partir de uma avenida que conhecia.

André não prometeu prender Márcio naquela noite.

"Isso vai nos ajudar a verificar o local", disse. "Se lembrar de outra coisa, pode avisar. Não vá lá. Nem peça para alguém ir buscar nada."

Samuel assentiu.

Depois que todos saíram, passou o resto da tarde no quarto.

Bati à porta perto do jantar.

"Você quer comer aqui ou na cozinha?"

"Não estou com fome."

"Deixo um prato separado."

Eu já me virava quando ele falou:

"Você devia ter me deixado sair do restaurante."

Voltei.

Ele estava sentado na cama, os cotovelos nos joelhos.

"Agora ele tem seu telefone. Vai te atrapalhar no trabalho. Vai ameaçar o Lucas."

"Eu avisei as pessoas que podem ajudar. Estamos revendo os cuidados."

"Você não conhece ele."

"Você conhece. Por isso precisamos ouvir você."

Samuel cobriu o rosto.

"Eu só queria a foto."

Sentei na cadeira, como fizera no dia da caneca.

"Da sua mãe?"

Ele assentiu.

"Era a única que eu tinha. Ela estava com uma blusa vermelha. Eu era pequeno. Ela não gostava da foto porque o cabelo estava bagunçado."

Sua voz falhou.

"Eu gostava."

Fiquei ali até ele pedir um copo de água. Depois levei o jantar. Comeu metade e deixou o prato na escrivaninha.

Dois dias mais tarde, André avisou que o galpão fora localizado. Eu soube que haviam encontrado objetos e documentos relevantes para a investigação, além de pertences identificados por Samuel. Não me contou tudo, e não perguntei além do necessário.

Márcio não estava no local. A busca por ele continuava.

Quando permitiram a devolução de alguns objetos pessoais, uma mochila velha chegou às mãos do menino.

Samuel abriu o zíper no chão da sala.

Havia folhas dobradas, um carrinho vermelho sem uma roda e uma fotografia dentro de um saco plástico.

Ele tirou a foto e ficou olhando.

"É ela?", Lucas perguntou.

Samuel fez que sim.

Eu me agachei ao lado dos dois. Nádia sorria para alguém fora da imagem, segurando um menino de camiseta amarela no colo. O cabelo estava mesmo desarrumado, levantado pelo vento.

"Você tinha quantos anos?"

"Acho que quatro."

Lucas aproximou o rosto.

"Você está com cara de quem aprontou."

Samuel soltou um som entre riso e choro.

"Eu tinha derrubado o sorvete dela."

Naquela noite, ele pediu uma moldura. Escolheu uma de madeira, simples, entre as opções que mostrei.

Colocou a foto na escrivaninha, virada para a cama.

Antes de dormir, ficou ajeitando o ângulo para não refletir a luz do corredor.

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