"Eu Quis Expulsar um Menino do Restaurante. Ele Tinha Salvado Meu Filho." Capítulo 6

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O PÃO NO BOLSO

Encontrei o primeiro pão dentro de uma fronha.

Fui trocar a roupa de cama enquanto Samuel estava numa consulta e senti alguma coisa dura junto ao travesseiro. Havia dois pães pequenos embrulhados em guardanapo. Um deles já tinha um ponto de mofo.

Fiquei com os pães na mão, sem saber onde colocá-los.

Meu impulso foi jogá-los fora e encher um prato com comida nova. Depois pensei em como ele se sentiria chegando ao quarto e descobrindo que alguém mexera no que guardava.

Deixei a fronha sobre a cama e esperei.

Quando voltou, viu antes que eu falasse.

"Eu ia comer."

"Esse aqui estragou."

"Eu ia ver."

"Samuel, não estou brigando."

Ele pegou os guardanapos depressa.

"Não precisa contar para o Lucas."

"Não vou contar."

Ficamos um diante do outro, eu com um lençol limpo no braço, ele apertando pão velho contra o peito.

"Quer me ajudar a escolher um lugar melhor para guardar alguma coisa?"

Ele franziu a testa.

"Na cozinha?"

"Pode ser. Perto do que você gosta."

Escolheu um armário baixo, de fácil alcance. Colocamos ali uma caixa com biscoitos, frutas e pães frescos. Combinei que olharíamos juntos para trocar o que estivesse ficando ruim.

Samuel conferiu a caixa três vezes naquela tarde. Não comentei.

O dia seguinte foi ruim por outros motivos.

Uma cliente me ligou irritada porque eu não acompanhara pessoalmente uma montagem. Eu estava em casa para receber uma profissional da equipe que acompanhava Samuel. Tentei explicar, ofereci minha sócia, prometi uma visita posterior.

A cliente não queria outra pessoa.

"Clara, eu contratei você."

Fui para a área de serviço e fechei a porta. Ainda assim, minha voz atravessou o apartamento.

"Eu não posso estar em dois lugares ao mesmo tempo."

Quando saí, Samuel estava na cozinha lavando uma caneca.

"Não precisa fazer isso", falei.

Ele não respondeu.

O vidro escapou da mão esquerda, bateu na pia e caiu no chão. Era uma caneca antiga, de uma viagem com Lucas. O cabo se separou do resto.

Samuel recuou.

"Desculpa."

"Tudo bem. Fica parado para não pisar."

Busquei a vassoura. Quando voltei, ele já juntava os cacos com os dedos.

"Samuel, para. Você pode se cortar."

Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia.

Ele deixou os pedaços no chão.

Enquanto eu limpava, o menino desapareceu no corredor. Achei que estivesse constrangido. Terminei, lavei a pia e fui dizer que podia entrar de novo.

Encontrei a mochila sobre a cama.

Ele dobrava uma camiseta com pressa.

"O que você está fazendo?"

"Eu pago a caneca. Não tenho agora, mas eu pago."

"Eu não perguntei da caneca."

Ele apertou os lábios.

Olhei para a mochila e compreendi.

"Você acha que precisa ir embora?"

"Eu ouvi no telefone. Você não consegue fazer tudo."

Sentei na cadeira da escrivaninha. Se me aproximasse mais, teria vontade de tomar a mochila da mão dele.

"Eu estava discutindo com uma cliente."

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"Por minha causa."

"Porque ela queria que eu fosse trabalhar hoje e eu tinha outro compromisso."

"Comigo."

Não adiantava contornar.

"Com você, sim. E fui eu que marquei."

Samuel segurou a camiseta sem terminar de dobrar.

"Eu posso ajudar. Não precisa ficar gastando comigo. Posso lavar, limpar."

"Você pode participar das coisas da casa, como o Lucas participa. Não precisa pagar por estar aqui."

Ele olhou para o corredor, onde eu deixara a vassoura.

"Você gostava daquela caneca."

"Gostava."

Seu rosto se fechou.

"E fiquei triste porque quebrou", continuei. "Isso não significa que quero que você vá embora."

Ele baixou a camiseta.

"Você pode ficar brava?"

"Posso. Não fiquei brava com você agora. Mas algum dia vou ficar. Com o Lucas eu fico bastante."

Da porta veio uma voz indignada:

"Eu ouvi."

Meu filho estava com um pacote de bolacha na mão.

Olhou para a mochila. O sorriso desapareceu.

"Você vai sair?"

Samuel não respondeu.

Lucas entrou e sentou no chão.

"Eu já quebrei a tela do tablet dela."

"Lucas..."

"Duas vezes. Na segunda eu escondi debaixo do sofá."

Samuel o olhou com desconfiança.

"E o que aconteceu?"

"Fiquei sem videogame. E ela falou por muito tempo. Muito mesmo."

Eu deveria ter reclamado da descrição. Em vez disso, fiquei quieta.

"Ela não te mandou embora?", Samuel perguntou.

Meu filho abriu a boca e fechou de novo.

Olhou para mim como se enfim entendesse o tamanho da distância entre a vida dele e a do menino diante de nós.

"Não", respondeu baixinho.

Samuel deixou a camiseta na cama.

Não houve abraço. Ele não desfez a mochila na nossa frente. Mas saiu para comer as bolachas com Lucas e, à noite, encontrei as roupas de volta no armário.

Alguns dias depois, acordei com um ruído na sala.

Era Lucas, deitado no sofá, a televisão ligada sem som. Samuel estava no chão, encostado no móvel, desenhando no caderno.

"Por que vocês estão acordados?"

Meu filho deu de ombros.

"Não estava com sono."

Eu o conhecia. Sentei na poltrona.

"Foi o sonho de novo?"

Ele demorou a responder.

"Eu escuto o freio."

Samuel parou o lápis.

"No sonho, eu não consigo sair da rua", Lucas continuou. "Eu tento correr e minha perna não vai."

Passei a mão no cabelo dele.

"Você podia ter me chamado."

"Você já estava dormindo."

Samuel virou uma página.

"Eu também acordo."

Lucas olhou para ele.

"Com o carro?"

"Às vezes. Com outras coisas."

Meu filho puxou as pernas para abrir espaço no sofá. Samuel hesitou, depois subiu e se sentou na outra ponta.

"Você ficou bravo comigo porque eu fui atravessar sem olhar?", Lucas perguntou.

"Fiquei."

"Ainda está?"

"Se fizer de novo, eu vou ficar mais."

Meu filho soltou uma risada pequena e limpou o nariz na manga.

Fiquei ali até os dois se acalmarem. No dia seguinte, procurei também ajuda para Lucas. Por semanas, eu me concentrara no menino que via ferido e esperara que o meu estivesse bem porque não tinha fraturas.

Naquela manhã, saí para comprar pão com Samuel. Ele já podia movimentar melhor os dedos, embora continuasse cuidadoso.

Quando chegamos à esquina, parou junto à faixa e esperou o sinal.

"Você pode perguntar para ele?", disse.

"O quê?"

"Se eu posso chamar ele quando acordo. Às vezes eu ouço ele acordado também, mas não sei se quer companhia."

"Você pode perguntar."

Samuel me lançou um olhar cansado.

"Eu sei. Estou pedindo para você perguntar primeiro."

"Está bem. Eu pergunto."

Na volta, ele deixou um pão na caixa do armário e outro no prato.

Comeu o do prato devagar.

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