"Eu Quis Expulsar um Menino do Restaurante. Ele Tinha Salvado Meu Filho." Capítulo 5

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A LUZ DO CORREDOR

Samuel estava sentado no pátio quando me viu chegar.

Não correu. Também não sorriu. Apenas tirou o cartão do bolso e alisou a ponta amassada contra o joelho.

"Você veio cedo."

"Peguei menos trânsito do que imaginei."

Era mentira. Eu saíra de casa antes da hora por medo de chegar um minuto depois e confirmar tudo o que ele esperava de mim.

Sentei no banco. Tinha levado um caderno de desenho e lápis, mas deixei a sacola ao meu lado. Não sabia se um presente logo na primeira visita pareceria uma tentativa de comprar alguma coisa.

Samuel viu a ponta do caderno.

"É para mim?"

"É. Se você quiser."

Ele pegou a sacola.

"Não precisa perguntar tudo. Se for caderno, eu quero."

A franqueza me pegou desprevenida. Ri, e ele baixou o rosto para abrir o plástico.

Na primeira folha desenhou a quina do banco. Depois perguntou por Lucas.

"Está com a avó. Eu queria vir primeiro para conversar com você e com a Marta."

"Ele ficou bravo comigo?"

"Por quê?"

"Eu fui grosso ontem."

"Ele ficou bravo com o Márcio. E comigo."

Samuel girou o lápis entre os dedos.

"Ele vai esquecer."

Eu soube que não falava da raiva.

"Você pode perguntar para ele quando vier."

Meu filho apareceu naquela tarde com um baralho que encontrara no fundo de uma gaveta. Faltava uma carta. Os dois discutiram durante dez minutos sobre quais jogos ainda eram possíveis, até improvisarem regras que nenhum deles respeitou.

As visitas seguintes tiveram menos conversa sobre o restaurante. Às vezes, eu levava uma muda de roupa que a equipe ajudara a escolher. Às vezes, apenas aparecia.

Samuel devolveu meu casaco lavado e dobrado numa sacola.

"Não precisava lavar", falei.

Ele franziu a testa.

"Eu sei lavar roupa."

"Não foi isso que eu quis dizer."

"Pareceu."

Pedi desculpas. Estava começando a perceber quantas vezes eu dizia alguma coisa esperando ser compreendida pelas minhas intenções, sem considerar o que realmente saía da minha boca.

Marta me recebeu em outra sala. Houve entrevistas, documentos, visita à minha casa, conversas sem Lucas e conversas com ele. Ela deixou claro que meu desejo não substituía avaliação, nem a história de Samuel se resumia àquela noite.

Eu reorganizei trabalho, procurei orientação e ouvi perguntas que nunca fizera a mim mesma. O que aconteceria se Lucas se sentisse deixado de lado? E se Samuel não me agradecesse? E se a convivência fosse difícil?

"Eu não espero gratidão", respondi uma vez.

Marta esperou.

Lembrei do incômodo que sentira quando Samuel não me quis na consulta.

"Estou tentando não esperar", corrigi.

Ela anotou e seguiu a conversa.

Semanas depois, quando uma permanência provisória conosco foi autorizada após as avaliações, tive vontade de fazer uma comemoração. Encomendar um bolo, comprar balões, transformar a chegada numa coisa bonita.

Perguntei a Samuel.

"Vai ter gente?"

"Só se você quiser."

"Então não."

Cancelei a ideia antes de encomendar qualquer coisa.

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No dia da mudança, ele chegou com uma mochila, o caderno e uma sacola de roupas. Lucas estava esperando na porta do apartamento havia meia hora.

"Você pode usar meu videogame. Mas não salva por cima do meu jogo."

"Lucas", comecei.

Samuel ergueu o rosto.

"Você acha que eu sou burro?"

"Acho que você nunca jogou esse."

"Então me ensina antes de reclamar."

Meu filho pegou a sacola dele. Os dois seguiram pelo corredor como se aquela discussão fosse a coisa mais natural do mundo.

Preparei o antigo quarto de hóspedes sem tirar todos os móveis. Havia uma cama, uma escrivaninha perto da janela e um armário quase vazio. Eu comprara lençóis azuis e uma luminária simples.

Samuel deixou a mochila no chão. Antes de guardar o velho moletom, apalpou a barra por dentro, conferiu alguma coisa e o dobrou com cuidado.

"Quem dorme aqui?"

"Agora, você. Minha mãe fica no quarto do Lucas quando vem, e ele divide comigo. Já conversamos sobre isso."

Ele passou a mão no cobertor.

"Não precisa mudar tudo."

"A gente precisava arrumar espaço."

Samuel olhou para o armário, depois para a janela. Abriu a porta do quarto, fechou e tornou a abrir.

"Tem chave?"

"Não. Tirei a que estava aqui e guardei."

"Por quê?"

"Para ninguém trancar sem querer."

Ele me olhou por alguns segundos. Depois entrou.

No jantar, Lucas falou demais. Contou da escola, do professor de ciências, de um colega que conseguia imitar a coordenadora. Samuel respondeu pouco, mas pediu mais arroz quando ofereci.

Minha mãe tinha preparado feijão e deixado uma panela na geladeira. Quando lhe contei por telefone que ele repetira, ela pediu para falar com o menino.

Olhei para Samuel antes de passar o aparelho.

"Ela quer saber se você gostou."

Ele aceitou a ligação, constrangido.

"Estava bom, sim, senhora."

Ouvi minha mãe protestar do outro lado.

"Está bom. Dona Lúcia."

Ele escutou por mais um minuto e me devolveu o telefone com um ar perplexo.

"Ela disse que o próximo vai ter menos sal."

"Minha mãe sempre acha que errou alguma coisa."

"Não errou."

"Você pode falar para ela de novo. Talvez acredite em você."

Depois do jantar, Lucas decidiu mostrar o videogame. Não demorou para eu ouvir uma discussão.

"É só apertar aqui."

"Eu estou apertando."

"Você está apertando o errado."

"Então para de puxar o controle."

Entrei no quarto. Lucas tinha pegado o braço direito de Samuel para mostrar a posição do botão. Meu filho soltou imediatamente quando me viu.

Samuel estava imóvel.

"Eu só estava ensinando", Lucas disse.

"Eu vi. Mas a mão ainda está machucada."

Samuel se levantou e passou por mim.

Achei que iria ao banheiro. Ele entrou no próprio quarto e ficou olhando a mochila.

Bati no batente.

"Posso?"

Ele assentiu.

"Foi sem querer", falei.

"Eu sei."

"Quer que eu chame ele?"

"Não. Ele vai achar que eu faço drama."

Sentei na ponta da cama, deixando espaço.

"Você quer me dizer alguma coisa para eu explicar?"

Samuel se apoiou na escrivaninha.

"Não gosto quando pegam meu braço por trás. Só isso."

"Está bem. Você pode falar para o Lucas. Se preferir, eu falo junto."

Meu filho apareceu na porta, descalço.

"Eu ouvi. Desculpa. Não vou fazer de novo."

Samuel mexeu no zíper da mochila.

"Eu também fui chato."

"Você ainda pode jogar. Eu deixo no fácil."

"Não precisa deixar no fácil."

Lucas sorriu. Samuel voltou com ele para a sala.

Mais tarde, quando fui apagar as luzes, encontrei o menino deitado sobre o cobertor, ainda de camiseta e calça. A mochila estava ao alcance da mão.

"Quer outro travesseiro?"

"Esse está bom."

Ajeitei a cortina e disse boa-noite.

Já estava saindo quando ele chamou:

"Clara?"

Voltei.

"Dá para deixar a luz do corredor acesa?"

"Dá."

"Só hoje."

Não discuti o prazo.

Deixei a porta entreaberta e fui para o meu quarto. Da cama, enxergava a faixa de luz no piso.

Demorei a dormir, ouvindo os pequenos ruídos do apartamento. Uma descarga, uma torneira, passos leves.

Quando fui buscar água, Samuel estava na porta do quarto.

"Eu só estava vendo onde você estava", explicou.

Mostrei meu copo.

"Quer um também?"

Ele quis.

Bebemos em pé na cozinha, sem dizer mais nada.

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