"Eu Quis Expulsar um Menino do Restaurante. Ele Tinha Salvado Meu Filho." Capítulo 4

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DESSA VEZ, EU FIQUEI

"Não toque nele."

Márcio parou com o braço estendido.

"A senhora não entendeu."

"Entendi que ele está com medo. Vai conversar com a equipe antes de sair daqui."

O segurança da entrada se aproximou. Helena ficou junto aos meninos, e Renata indicou novamente o balcão.

"Precisamos esclarecer a situação. O senhor vai aguardar aqui."

Márcio olhou para o segurança, depois para a recepcionista com o telefone na mão.

"Isso é um absurdo. Eu cuido dele há cinco anos."

"Então pode esperar alguns minutos", Helena respondeu.

Senti Samuel segurar a parte de trás da minha blusa.

Foi um toque leve. Tive medo de me mexer e perdê-lo.

Márcio viu.

"Você andou contando o quê, Samuel?"

O menino não respondeu.

"Olha para mim quando eu falo."

"Ele não precisa responder agora", Renata interveio.

"Precisa aprender a respeitar. Vocês ficam passando a mão na cabeça e depois sobra para quem cria."

A voz subiu. Uma senhora na recepção abraçou a própria bolsa. O pai com o menino dormindo levantou e se afastou.

Márcio notou os olhares e se recompôs.

"Desculpem. Estou nervoso. Faz semanas."

Eu conhecia aquele esforço de ajustar o tom, de reconstruir uma impressão. Havia usado o mesmo recurso no restaurante para fazer uma crueldade parecer razoável.

"Samuel", Helena chamou. "Você quer voltar com ele hoje?"

O menino apertou minha blusa.

Márcio abriu a boca, mas Renata levantou a mão.

"A pergunta é para ele."

Samuel levou alguns segundos.

"Não."

"Por quê?", Márcio perguntou, sorrindo sem mostrar os dentes. "Porque eu mando você ir à escola?"

O menino levantou a cabeça.

"Você me tirou da escola."

A sala ficou quieta.

"Não inventa."

"Você falou que eu precisava ajudar."

"Eu estou desempregado. Ele ajuda em casa. Isso agora é crime?"

Samuel começou a tremer. Eu queria responder por ele, desmontar cada frase daquele homem. Helena tocou de leve meu cotovelo. Entendi e me calei.

"Ele me manda pegar coisas", o menino disse. "Nas lojas. Se eu volto sem nada, ele não deixa eu comer."

Márcio deu uma risada indignada.

"Olha a história. Ele rouba e põe a culpa em mim."

Lucas se moveu, furioso. Segurei sua mão antes que falasse.

Renata conduziu Samuel e meu filho para a sala reservada. Eu fui com eles, esperando que Márcio tentasse impedir.

O segurança permaneceu junto ao corredor.

Quando a porta se fechou, Samuel sentou no chão.

Não caiu. Dobrou os joelhos devagar, encostou as costas na parede e escondeu o rosto no braço bom.

Lucas se agachou ao lado, ainda segurando o copo.

"Quer água?"

Samuel balançou a cabeça.

Meu filho deixou o copo sobre uma mesinha e ficou ali.

Eu sentei numa cadeira. Queria abraçar o menino, mas me lembrei de que só fazia algumas horas que ele me conhecia. Minhas necessidades não eram as mais importantes naquela sala.

A equipe permaneceu conosco. Mais tarde chegaram policiais, ouviram os adultos separadamente e conversaram com Samuel com apoio de Renata. Márcio apresentou documentos e negou tudo. Eu soube disso no corredor; não assisti à conversa inteira.

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Quando perguntei se o menino teria de sair com ele, uma agente me respondeu com clareza:

"Hoje, não. A situação vai ser avaliada antes de qualquer encaminhamento."

Voltei à sala para repetir exatamente aquelas palavras.

Samuel ergueu o rosto.

"Ele falou que eu estava mentindo?"

"Falou."

Vi a decepção atravessar o rosto de Lucas. Ele esperava que eu escondesse aquilo.

Continuei:

"A médica registrou seus ferimentos. A Renata ouviu você. Eu também. O que ele disse não encerrou a conversa."

Samuel olhou para a porta.

"Ele vai ficar esperando lá fora."

"Não vamos sair sozinhos."

Dessa vez, era algo que eu podia garantir.

Ao longo das horas seguintes, conheci Marta, a profissional que acompanharia o caso na rede de proteção. Tinha uma bolsa gasta, um bloco cheio de anotações e nenhuma paciência para respostas vagas.

Perguntou onde Samuel vinha dormindo, quem sabia de sua situação, se havia parentes que pudessem ser localizados. Ele disse que a mãe falava de uma tia distante, mas não sabia onde morava. O pai nunca estivera presente.

Quando Marta mencionou um acolhimento provisório, o menino começou a puxar a manga da roupa.

"Ele vai me achar."

"Vamos considerar isso na escolha do lugar", ela respondeu.

Eu perguntei se poderia recebê-lo.

Marta me olhou por cima do bloco.

"A senhora o conheceu hoje."

"Sim."

"E trabalha fora? Quem mora na sua casa?"

Respondi. Falei de Lucas, da funcionária que trabalhava durante o dia, da minha mãe, que morava em Campinas. Disse que poderia reorganizar os próximos compromissos.

Ela anotou, sem entusiasmo nem reprovação.

"Eu registro seu interesse. Mas não vou decidir isso só com base nesta conversa."

Meu impulso foi insistir, oferecer contatos, dizer que tinha condições. A palavra condições estava pronta na minha língua quando olhei para Samuel.

Ele observava meu rosto.

"O que precisa ser feito?", perguntei.

Marta explicou os próximos passos sem prometer o resultado. Eu anotei tudo.

Já passava da meia-noite quando Samuel recebeu a informação de onde ficaria inicialmente. A equipe organizou a saída com cuidado. Márcio não estava mais na recepção; fora ouvido e deixara o local. Os relatos e o atendimento seguiriam para apuração.

A ausência dele não tranquilizou o menino.

"Você vem?", perguntou para mim.

"Vou acompanhar até onde permitirem. E amanhã eu volto no horário combinado."

Lucas entregou a embalagem da massa.

"Não deve estar boa agora. Mas eu trouxe."

Samuel a recebeu com o braço esquerdo.

"Eu gosto de massa fria."

"Ninguém gosta de massa fria."

"Então você pode ficar sem."

A resposta fez meu filho sorrir. Samuel tentou também, mas seus lábios tremiam.

Eu tirei um cartão da bolsa e escrevi meu telefone atrás, em letras grandes. Entreguei a Marta e pedi que ajudasse Samuel a entrar em contato quando precisasse.

Ele olhou para o cartão.

"Você vai atender?"

"Vou. Se estiver falando com alguém, retorno assim que vir."

"De noite?"

"De noite também."

No carro, depois de nos despedirmos, Lucas ficou em silêncio por vários quarteirões.

"Você foi horrível com ele", disse finalmente.

Mantive os olhos na rua.

"Fui."

"Você nem perguntou o nome antes."

"Eu sei."

Meu filho encostou a cabeça no vidro.

"Você vai mesmo amanhã?"

Parei no sinal vermelho e olhei para ele.

"Vou."

Lucas não respondeu. Também não disse que estava tudo bem.

Na manhã seguinte, cheguei vinte minutos antes do horário.

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