"Eu Quis Expulsar um Menino do Restaurante. Ele Tinha Salvado Meu Filho." Capítulo 3

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O HOMEM QUE VEIO BUSCÁ-LO

Alcancei Samuel antes da saída do corredor.

"Eu não vou segurar você. Mas me escuta um minuto."

Ele parou, sem se virar.

"Vocês sempre falam que é para ajudar."

"Eu sei que foi isso que disseram antes."

"Você não sabe."

Era verdade. Tudo o que eu sabia sobre a vida dele cabia numa conversa debaixo de uma cobertura. Não conhecia a casa, a voz do homem quando ninguém estava olhando, o que acontecera depois de sua tentativa de pedir ajuda.

"Não sei", admiti. "E você não precisa me contar agora. Mas a Helena não está chamando o Márcio. Está procurando pessoas que possam ouvir você sem ele na sala."

Samuel olhou para o balcão da recepção. Uma funcionária fingiu não prestar atenção.

"Ele tem papel."

"Que papel?"

"Da minha mãe. Do lugar onde eu morava. Ele guarda tudo numa pasta. Quando precisa, mostra. Parece até que gosta de mim."

Helena chegou sem pressa, mantendo alguma distância.

"Documentos ajudam a entender a situação. Não apagam o que você contou, Samuel. Nem o que eu vi na sua mão e no seu corpo."

Ele ficou em silêncio.

"Quero que você saiba o que estamos fazendo", ela continuou. "Não vou mandar você entrar num carro sem explicar quem está nele. A assistente social daqui está vindo conversar conosco."

Lucas surgiu atrás dela com a embalagem.

"Você esqueceu."

Samuel olhou para a comida, mas não pegou.

Meu filho apertou o saco de papel contra o peito.

"Se você não quiser agora, eu guardo."

O menino passou a mão pelo cabelo ainda úmido.

"Eu não pedi para vocês fazerem tudo isso."

"Eu sei", respondi.

"Eu só tirei ele da rua. Não estava querendo nada."

"Eu acredito em você."

"Então por que não me deixa ir?"

Foi a primeira pergunta para a qual não tentei montar uma resposta bonita.

"Porque estou com medo de que alguém machuque você de novo."

Samuel me encarou. Eu estava cansada, com a barra da calça molhada, o rosto provavelmente marcado de maquiagem. Não devia parecer a mulher que o expulsara do restaurante.

Ainda era a mesma. Precisava me lembrar disso.

"Posso ficar na recepção?", ele perguntou a Helena.

"Pode. Vou pedir para separarem uma sala mais tranquila, se você preferir depois."

Ele escolheu a cadeira perto da porta. Sentei duas cadeiras adiante. Lucas ficou entre nós, segurando o jantar como uma coisa importante que não podia derrubar.

Por alguns minutos, ninguém falou.

A televisão sem som mostrava uma apresentadora sorrindo. Um menino pequeno dormia no colo do pai do outro lado da sala. Samuel observava os dois sem mover a cabeça.

"Minha mãe gostava de novela", disse de repente.

Eu acompanhei seu olhar.

"Qual?"

"Todas. Até as ruins. Ela falava que ia parar de assistir, mas no outro dia estava lá."

Lucas sorriu.

"Minha avó faz isso."

Samuel roçou a borda da imobilização na calça.

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"Ela desenhava roupa quando assistia. Eu desenhava do lado."

"Você ainda desenha?", perguntei.

"Às vezes."

"O quê?"

"Casa. Ponte. Carro eu desenho mal."

Lucas se animou.

"Eu desenho tudo mal."

O canto da boca de Samuel se moveu.

"Dá para ver pela sua letra. Você escreveu seu número na caixa."

Meu filho virou a embalagem e conferiu o que escrevera no restaurante. Tinha colocado o telefone, embora Samuel nem tivesse celular.

"Eu estava com pressa."

"Imagino."

O pequeno deboche fez Lucas rir. Eu baixei os olhos para que não percebessem a emoção no meu rosto. Dois meninos implicando um com o outro numa sala de espera. Nada acontecera de extraordinário, e eu teria dado qualquer coisa para aquele momento durar.

Uma mulher de crachá veio falar com Helena. A médica nos apresentou. Chamava-se Renata e perguntou se Samuel gostaria de conversar num espaço reservado.

Ele se contraiu.

"Sozinho?"

"Você pode escolher alguém para acompanhar no começo. Depois, se conseguir, eu queria ouvir algumas coisas só de você."

Samuel pensou.

"Ela pode entrar?"

Demorei a perceber que apontava para mim.

Lucas me entregou a comida e foi buscar água com Helena. Samuel levantou, deu dois passos e parou junto ao vidro da entrada.

Uma van escura passava devagar na rua.

Eu nem teria reparado. Havia carros chegando a toda hora. Mas ele recuou tão bruscamente que esbarrou no meu braço.

"Não olha."

Foi quase um sopro.

Olhei.

O veículo parou alguns metros adiante. O motorista inclinou o corpo sobre o banco do passageiro para enxergar a fachada.

"É ele?"

Samuel não respondeu. Apertava meu casaco contra o peito com a mão boa.

Renata se aproximou.

"Vamos para a sala."

O menino não se moveu.

"Ele anda por aqui", murmurou. "Ele sabe do pão. Sabe que eu fico perto."

A van avançou até a área de embarque. O motorista nos viu através do vidro e desceu.

Era um homem de pouco mais de quarenta anos, cabelo curto, jaqueta preta. Nada nele parecia extraordinário. Se tivesse encontrado Márcio num supermercado, eu talvez perguntasse onde ficava o corredor do café.

Ele entrou sorrindo para a recepcionista.

"Boa noite. Vim buscar meu menino."

Samuel se colocou atrás de mim.

Meu estômago se contraiu. Até aquele instante, o homem fora um nome na boca de uma criança. Agora estava a poucos passos, limpando os tênis no tapete.

"Samuel. Graças a Deus."

Márcio suspirou, levou a mão ao peito e olhou para Renata.

"Vocês não imaginam o que passei procurando esse garoto."

Ela se apresentou e pediu que aguardasse.

Ele continuou olhando para Samuel.

"Por que você faz isso comigo? Eu fico sem dormir. Sua mãe não ia gostar de ver a gente assim."

Senti o menino prender a respiração.

"O senhor pode conversar comigo aqui", Renata disse, indicando o balcão.

Márcio tirou uma carteira do bolso.

"Claro. Tenho os documentos. Ele está comigo faz anos. Tem umas dificuldades, sabe? Depois que perdeu a mãe, nunca mais foi o mesmo."

A facilidade com que disse aquilo me deu frio.

Samuel baixou a cabeça.

"Não é bem assim", falei.

Márcio me examinou. Viu a bolsa, os brincos, o casaco sobre os ombros do menino.

"A senhora é quem encontrou ele? Muito obrigado. Às vezes aparece gente boa."

"Ele foi atendido por uma médica."

"Ele vive se metendo em confusão. Eu falo, mas não escuta."

Lucas voltou com um copo de água. Parou ao lado de Helena quando viu o homem.

O sorriso de Márcio diminuiu.

Samuel deu um passo na direção dele.

Não entendi de início. Depois vi que olhava para Lucas.

"Eu vou", disse, quase sem voz.

Meu coração bateu tão forte que doeu.

Márcio tornou a sorrir.

"Está vendo? Já passou. Vamos conversar em casa."

Samuel começou a tirar meu casaco.

Renata pediu que ele esperasse. Helena chamou a recepcionista pelo nome e disse alguma coisa baixa, firme.

Márcio avançou mais um passo.

"Vem, filho."

Estendeu a mão.

Eu me coloquei entre ele e Samuel.

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