"Eu Quis Expulsar um Menino do Restaurante. Ele Tinha Salvado Meu Filho." Capítulo 2

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O NOME QUE ELE NÃO QUERIA DIZER

"Para quem, Samuel?"

Ele colocou o casaco de Lucas na cadeira com um cuidado que tornava a pressa ainda mais evidente.

"Esquece. Eu falei besteira."

"Você não falou besteira."

Lucas se levantou também.

"Eu vou com você."

"Não vai, não."

A resposta de Samuel saiu dura. Meu filho recuou como se tivesse levado um empurrão.

Samuel percebeu e passou a mão boa pelo rosto.

"Não é por sua causa. Eu só preciso ir sozinho."

Peguei minha bolsa, deixei o cartão com Ricardo e pedi que Lucas esperasse perto da recepção. Samuel já atravessava a porta quando o alcancei.

Não segurei seu braço. Tinha visto o jeito como ele se afastara do gerente quando o homem chegara perto demais.

"Eu vou pegar meu casaco e volto. Você pode esperar debaixo da cobertura?"

Ele olhou para a rua, calculando alguma coisa.

"Só um minuto."

Quando voltei, continuava ali. A água escorria do cabelo para o pescoço.

Estendi o casaco.

"É emprestado. Você pode devolver depois."

Ele aceitou dessa vez. Tentou enfiar o braço machucado na manga e fez uma careta.

"Deixa aberto", eu disse. "Já ajuda."

Do lado de dentro, Lucas nos observava pelo vidro. Eu sabia que estava com medo de perder o menino de novo.

"Quem você não quer que encontre você?"

Samuel acompanhou um ônibus passando. Só respondeu depois que o barulho diminuiu.

"O Márcio."

"Ele é seu pai?"

"Não. Morava com a minha mãe."

"E ela?"

Ele apertou as bordas do casaco.

"Morreu quando eu tinha oito anos."

Eu pedi desculpas. Ele assentiu do jeito como devia fazer sempre que alguém dizia aquilo.

"O Márcio ficou cuidando de você?"

"Era para cuidar."

Uma manobrista trouxe um carro até a entrada. Esperamos a família embarcar. Samuel abaixou a cabeça quando o homem do banco traseiro olhou para ele.

"Ele sabe que você está na rua?"

"Faz três semanas que eu saí. Antes eu voltava. Dessa vez, não."

"Por quê?"

Ele tocou a marca no rosto.

Não precisei repetir a pergunta.

Eu queria telefonar para alguém, resolver, colocar aquele menino num lugar quente antes de ouvir mais uma palavra. Segurei o celular dentro da bolsa sem tirá-lo.

"Ele machucou sua mão também?"

"A mão foi no acidente. O rosto foi antes."

"Você contou para alguém?"

Samuel soltou uma risada curta, sem humor.

"Já contei."

Esperei.

"Uma vez eu fui falar com um homem que estava perto do terminal. Ele chamou o Márcio. O Márcio foi me buscar, levou documento, contou que eu era difícil. Disse que minha mãe tinha morrido e eu tinha ficado assim."

"Assim como?"

"Mentiroso. Agressivo. Ele tem uma palavra para cada coisa. Se eu choro, sou desequilibrado. Se eu não choro, é porque inventei."

Minha mão doía de tanto apertar o celular.

"O que aconteceu quando você voltou?"

Ele balançou a cabeça.

"Eu não vou contar isso aqui."

"Tudo bem."

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Meu primeiro impulso foi acrescentar que precisava contar a alguém. Consegui não transformar aquele momento em outra exigência.

Lucas abriu a porta.

"Mãe, o Ricardo está perguntando do cartão."

"Diga que já vou."

Meu filho olhou para Samuel.

"Eu pedi para embrulharem o resto. O molho separado, porque a massa fica mole."

Samuel pareceu não saber o que fazer com aquela informação.

"Obrigado."

Lucas voltou para dentro. Ficamos ouvindo a chuva cair na cobertura.

"Ele ficou procurando você", falei. "Não dorme direito desde quarta."

Samuel olhou através do vidro.

"Eu falei para ele prestar atenção quando fosse atravessar."

Havia irritação na voz. Pela primeira vez, reconheci um menino de treze anos, e não apenas alguém com medo de tudo.

"Eu também já falei muitas vezes."

"Então ele não escuta ninguém."

Um sorriso me escapou. Samuel quase sorriu também, mas olhou para a mão e o momento acabou.

"Conheço uma pediatra", eu disse. "A Helena. Ela pode examinar você. Eu telefono, explico que estamos indo."

"Você vai dizer meu nome?"

"Vou dizer que é Samuel e que está machucado. Não vou procurar o Márcio."

Ele me estudou.

"E depois?"

Eu não sabia. Odiava não saber, principalmente diante de alguém que tinha motivos para desconfiar de qualquer hesitação.

"Depois ela vai explicar o que precisa ser feito. Eu fico com você enquanto isso."

"Você tem trabalho."

"Hoje eu posso mudar meus planos."

Ele olhou de novo para Lucas. Meu filho estava junto ao balcão, abraçado à embalagem da comida.

"Só olhar a mão?"

"Para começar. Não quero prometer uma coisa que não dependa só de mim."

Samuel demorou, mas concordou.

No carro, sentou atrás com Lucas. Colocou o cinto usando a mão esquerda e se irritou quando meu filho tentou ajudar.

"Eu consigo."

Lucas ergueu as duas mãos.

"Está bom."

Segundos depois, Samuel perguntou se podia segurar a embalagem no colo. Meu filho entregou sem fazer comentário.

Liguei para Helena antes de sair. Conhecia-a porque organizara uma festa de aniversário para sua mãe. Não éramos íntimas. Ainda assim, ela percebeu alguma coisa na minha voz e orientou que fôssemos ao pronto atendimento onde estava trabalhando.

Durante o caminho, meu celular vibrou. Uma cliente queria trocar as flores de uma recepção de domingo. Eu li a mensagem parada no semáforo e não consegui entender por que aquilo parecia urgente uma hora antes.

Na sala de espera, Samuel escolheu uma cadeira de onde enxergava a porta. Guardou a comida debaixo dela e manteve os pés encostados na embalagem.

Helena o chamou pelo nome.

"Você quer que eles entrem?"

Ele olhou para nós.

"O Lucas pode."

Eu fiquei do lado de fora.

Foi mais difícil do que deveria ter sido. Eu trouxera o menino, pagaria o atendimento, estava tentando ajudar. Uma parte feia de mim achava que isso me dava direito a acompanhar tudo.

Sentei e esperei.

Quando me chamaram, Samuel estava com a mão imobilizada. Helena explicou os cuidados sem dramatizar. Havia uma lesão que precisava de acompanhamento, além de hematomas que não combinavam com uma única queda.

Depois pediu para conversar comigo no corredor.

"Ele contou sobre o homem com quem morava. Vou acionar a equipe que pode ajudar a protegê-lo."

"Ele está apavorado com isso."

"Eu percebi. Por isso preciso explicar antes, junto com vocês. Não posso fingir que não ouvi."

Voltamos à sala. Helena puxou uma cadeira e falou diretamente com Samuel.

Ele ouviu até a palavra equipe. Depois olhou para mim.

"Você disse que não ia chamar ninguém."

"Eu disse que não ia procurar o Márcio."

O rosto dele mudou.

Eu ouvi a minha própria frase e soube como soara: a esperteza de um adulto encontrando uma brecha numa promessa.

"Samuel, eu devia ter sido mais clara."

Ele se levantou.

"Agora você foi."

Pegou a embalagem de comida da cadeira, deixou-a cuidadosamente sobre a mesa e caminhou para a porta.

Lucas chamou seu nome.

Dessa vez, ele não olhou para trás.

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