"A Porta Azul Escondia a Mãe Dela — e o Segredo da Minha Família" Capítulo 9
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O QUE NÃO PODIA CONTINUAR
Na segunda-feira, encontrei Marcos esperando no escritório da segurança.
Tinha deixado o uniforme no armário e segurava um envelope com as duas mãos. Ronaldo permanecia perto da porta.
"É o meu pedido de demissão", ele explicou.
Não peguei o envelope de imediato.
"Você já prestou seu depoimento?"
"Prestei. Vou voltar quando chamarem. Eu contei o que fiz."
Ele me mostrou, com autorização do advogado que o acompanhava, os papéis usados por Celeste para amedrontá-lo. Havia referências ao filho, Daniel, dívidas que ele não reconhecia e uma participação atribuída a Marcos em movimentações que não compreendia.
Daniel saíra de casa depois de uma discussão anos antes. O pai não tinha coragem de procurá-lo. Celeste soubera usar justamente o que ele escondia.
"Ela falou que podia acertar tudo antes de sexta-feira", disse. "Eu quis acreditar. Depois, quando vi o que tinha feito, já estava com medo do senhor, da polícia, de todo mundo."
"E Helena continuou lá."
Ele assentiu, os olhos cheios.
"Eu dizia para mim mesmo que estava levando água, comida, que não ia deixar acontecer o pior."
"Você sabia o que a Sofia estava passando?"
Marcos dobrou a ponta do envelope.
"Sabia."
Eu tinha imaginado aquela conversa muitas vezes desde o resgate. Em algumas versões, gritava. Em outras, acertava um soco nele e me sentia melhor durante alguns segundos. Na realidade, só conseguia lembrar de Helena dizendo que implorara para que ele levasse um recado.
Peguei o envelope.
"Você não volta à segurança nem a qualquer função que dê acesso à rotina das duas. O restante vai ser tratado com quem está acompanhando o caso. Seu pedido não encerra nada."
"Eu entendo."
Antes de sair, ele me perguntou se podia pedir desculpas a Helena.
"Vou perguntar se ela quer ouvir. Se não quiser, você aceita."
Ele baixou a cabeça. Ronaldo o acompanhou até o portão.
Helena não quis encontrá-lo naquele dia. Nem no seguinte. Entreguei a resposta sem tentar negociá-la.
Celeste fez o mesmo pedido por meio de seu representante. A essa altura, a mulher que administrara a casa durante vinte e tantos anos estava afastada de qualquer função e respondia pelo que fizera. O acesso dela às contas e aos sistemas fora encerrado. A perícia examinava os arquivos que tinham desaparecido.
Duas semanas depois, Helena aceitou uma conversa em local reservado, acompanhada por sua advogada. Pediu que eu a levasse, mas não entrasse.
Esperamos no carro depois, sem ligar o motor.
"Ela disse que nunca imaginou chegar àquele ponto", Helena contou.
Eu mantive os olhos no volante.
"E você?"
"Eu disse que ela teve três dias para mudar de ideia."
Sua voz estava firme. Depois ficou menor.
"Ela sabia que a Sofi dormia com a luz acesa quando eu trabalhava até tarde. Já tinha levado a menina para a cozinha outras vezes. Como conseguiu ouvir ela perguntando por mim?"
Eu não tinha uma explicação que suportasse ser dita em voz alta.
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Helena soltou o cinto e tornou a prendê-lo, percebendo que ainda não tínhamos saído.
"Quero buscar minha filha."
Liguei o carro.
O trabalho sobre a propriedade levou muito mais tempo do que a busca sob a estufa. Suspendi qualquer negociação do terreno oeste. Os profissionais contratados passaram a conversar com os representantes das famílias citadas no caderno e a comparar os registros.
Alguns parentes queriam ouvir uma explicação. Outros não tinham interesse em conhecer outro Valenti, apenas em ter o prejuízo reconhecido. Uma senhora levou fotografias da casa onde crescera. Fiquei com ela numa sala de reuniões enquanto me mostrava a janela do quarto que perdera.
Não havia assinatura capaz de tornar aquelas conversas rápidas.
Os direitos destinados a Sofia foram tratados separadamente, com orientação independente para Helena. Nada seria usado para pagar as escolhas que eu fizesse com a minha parte da fazenda.
Helena fez questão de continuar trabalhando depois da licença. Mudamos a estrutura de sua função, com contrato e atribuições claras. Ela coordenaria a restauração da estufa, caso ainda quisesse.
"Você está me oferecendo isso porque sabe que eu sou boa no trabalho ou porque se sente culpado?", perguntou.
Estávamos diante das plantas, na mesa da biblioteca.
"Eu já tinha aprovado seu projeto antes de viajar. Só fui mais lento do que deveria em prestar atenção ao resto."
Ela examinou meu rosto.
"Então eu quero escolher a equipe."
"Pode escolher."
"E não quero que você aceite qualquer orçamento só para não discutir comigo."
"Essa parte vai ser fácil. Eu discuto muito bem."
Helena riu. Foi um som pequeno, mas ficou comigo durante o resto da tarde.
A proximidade cresceu desse jeito. Ela passou a deixar uma caneca no meu escritório porque o café da biblioteca esfriava antes de terminarmos as reuniões. Eu comecei a saber em que dias Sofia precisava de material para a escola. Cida percebeu antes de nós e passou a servir três pratos quando as reuniões atravessavam o jantar.
Nem tudo era leve. Às vezes, Helena parava no meio de uma conversa porque uma porta batia. Sofia acordava chamando por ela. Com ajuda, as duas foram encontrando maneiras de voltar a dormir, sair, ficar algum tempo separadas sem imaginar o pior.
Numa tarde, Helena me encontrou sentado no chão da varanda, ajudando Sofia a colar algodão num trabalho da escola.
"Você está usando cola demais", avisou.
A menina suspirou.
"Eu também falei."
Helena se sentou conosco e me tomou o tubo da mão. Nossos dedos se tocaram. Dessa vez, ela não fingiu que precisava ajustar o papel.
Mais tarde, quando Sofia foi tomar banho com Cida por perto, ficamos na varanda.
"Eu gosto de estar aqui com você", Helena disse. "Mas preciso saber se você entende que isso não é gratidão."
Virei para ela.
"Eu espero que não seja."
"Não é."
Eu queria beijá-la havia semanas. Mesmo assim, esperei aquele segundo em que ela se aproximou por vontade própria, pousando a mão na minha camisa.
O beijo começou devagar. Quando me afastei, ela sorriu com o rosto ainda perto do meu.
"Você vai ficar me olhando desse jeito agora?"
"Provavelmente."
Ela riu e me beijou outra vez.
No dia seguinte, trouxe uma nova proposta para a estufa: uma horta, atividades para crianças e um espaço que os funcionários pudessem usar com suas famílias.
"A Rosa fazia nascer tomate em lata de tinta. Aqui temos um pouco mais de espaço."
Abri a planta ao lado dela. Pela primeira vez em meses, falamos do terreno oeste sem começar por tudo o que alguém perdera.
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