"A Porta Azul Escondia a Mãe Dela — e o Segredo da Minha Família" Capítulo 8

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O HOMEM NA VARANDA

A confirmação veio na manhã seguinte.

Samuel morava numa residência para idosos perto de uma cidade a menos de duas horas da fazenda. Usava o próprio nome. Recebia correspondência, participava de consultas e reclamava da comida, segundo a pessoa que atendeu a primeira ligação do escritório.

Eu fiquei olhando para Álvaro depois que ele desligou.

"Nós não precisávamos descobrir um esconderijo."

"Não. Precisávamos ter continuado procurando."

O advogado parecia menor naquela cadeira.

Helena pediu que ligassem antes da visita. Não queria aparecer com perguntas na porta de um homem de noventa e um anos sem lhe dar a chance de escolher.

Samuel concordou em recebê-la. Perguntou se a menina viria e, depois de um silêncio, se eu também estava disposto a ir.

A casa onde ele morava tinha um jardim simples e uma varanda coberta. Um ventilador girava sobre cadeiras de palhinha. Quando chegamos, Samuel estava sentado perto de um vaso de manjericão, com uma bengala entre os joelhos.

Ele levantou o rosto para Helena e segurou o braço da cadeira.

"Por um instante achei que..."

Interrompeu-se. Passou a mão na boca.

"Você deve ser a Helena."

Ela assentiu.

"A Rosa me criou."

"Eu sei. Ela falava de você como quem fala de uma filha."

Helena permaneceu de pé um segundo a mais. Depois se sentou diante dele, ainda segurando a mão de Sofia.

Apresentei-me. Samuel estudou meu rosto com atenção.

"Você tem a expressão do Lourenço quando está tentando não ficar zangado."

Eu quase ri.

"Não estou tentando muito."

"Então ele teria gostado de você."

Não soube o que responder. Sofia resolveu o silêncio apontando para a bengala.

"Você machucou a perna?"

"Não recentemente. Ela só está velha."

A menina olhou para as duas pernas dele.

"As duas?"

Samuel riu, e a tensão nos ombros de Helena diminuiu um pouco.

"As duas, infelizmente."

Uma funcionária trouxe água e suco. Sofia aceitou um copo, mas colocou o coelho na cadeira ao lado da mãe, reservando seu lugar antes de se aproximar da mesa.

Helena tirou a carta de Rosa da bolsa.

"Ela encontrou você?"

Samuel tocou o envelope sem pegá-lo.

"Há quase dois anos. Achou uma carta antiga da mãe, procurou os lugares que eu mencionava e chegou até mim."

"Por que não me contou?"

Ele não tentou dizer que a pergunta deveria ser feita à morta.

"Eu pedi que esperasse. A Rosa estava muito zangada comigo. Com razão. Eu queria ter algumas conversas antes de conhecer o restante da vida dela. Depois ela adoeceu, e tudo aconteceu mais depressa do que eu aceitava."

"Ela morreu achando que precisava guardar mais um segredo seu?"

Samuel baixou o rosto. Eu vi seus dedos apertarem a bengala.

"Eu dei a ela esse peso. Não tenho uma resposta bonita para isso."

Helena olhou para o jardim. Sofia brincava com a embalagem do canudo, fazendo uma espiral. Nenhum de nós apressou a conversa.

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Samuel contou que fugira em 1981 temendo uma acusação que não tinha meios imediatos de enfrentar. Teresa, mãe de Rosa, ficara com a filha. Durante algum tempo trocaram cartas. Depois o medo, a distância e a vergonha fizeram o resto.

"Eu dizia que estava protegendo as duas. Em parte era verdade. Mas houve anos em que eu simplesmente não quis voltar a ser o homem que todos acusavam. Acabei deixando minha filha lidar sozinha com a falta que eu fazia."

"Em 1998 você ouviu a confissão. Podia ter ido atrás dela."

"Podia. Fui covarde. Procurei Teresa, soube que ela tinha morrido, e recuei outra vez. A Rosa já tinha uma vida. Eu achei mais fácil acreditar que não havia lugar para mim."

Ele olhou diretamente para Helena.

"Não quero que você confunda entender meus motivos com concordar com eles. Sua tia nunca fez essa confusão."

Uma risada curta escapou dela, seguida de lágrimas.

"Ela era boa nisso."

Samuel sorriu também.

"Era. Na primeira visita, passou quase uma hora me dando bronca. Depois perguntou se eu estava tomando os remédios direito."

Helena abaixou a cabeça. Reconhecera Rosa naquela combinação de raiva e cuidado.

Perguntei sobre os documentos apresentados quatro meses antes.

Samuel explicou que destinara a Rosa uma parcela dos direitos que buscava regularizar. Ela organizara a disposição em favor de Sofia antes de morrer. Restavam documentos de apoio, e ele demorara a conseguir alguns deles.

"Quando recebi, levei para o escritório responsável pelo encaminhamento. Não queria que a menina perdesse uma possibilidade porque eu tinha adiado mais uma vez."

"Você não pensou em procurar Helena diretamente?", perguntei.

"Pensei. Escrevi três cartas que não mandei. Não vou fingir que isso me torna sensato."

Ele se abaixou com dificuldade e pegou uma pasta de lona junto à cadeira.

"Lourenço também me escreveu. Conversamos depois de 1998. Ele queria resolver tudo imediatamente, e eu não estava disposto a voltar para uma mesa com o irmão que tinha arruinado minha vida. Isso atrapalhou mais do que eu admitia."

De dentro da pasta tirou um envelope com meu nome.

"Seu pai deixou comigo em 2001. Disse que entregasse quando você tivesse de decidir o que fazer com a história da casa."

Li ali mesmo.

Meu pai não previa portas, crianças ou acontecimentos impossíveis. Explicava suas tentativas, confessava os adiamentos e pedia que eu não tomasse o silêncio dele como prova de inocência da família. No último parágrafo, dizia que eu não precisava preservar todos os erros junto com as paredes.

Passei o polegar sobre a assinatura.

Helena me perguntou se eu queria ficar sozinho. Balancei a cabeça e continuei ao lado dela.

Perto da hora de sair, Sofia se aproximou de Samuel com o coelho nas mãos.

"A tia Rosa gostava de você?"

Ele engoliu em seco.

"No fim, acho que gostava. Às vezes ainda ficava muito brava."

"Minha mãe gosta de mim quando fica brava."

"Imagino que goste."

A menina pensou um pouco.

"Você é da nossa família também?"

Samuel olhou para Helena. Não respondeu por ela.

Helena limpou o rosto e assentiu, devagar.

"Se vocês quiserem se conhecer, podem ser."

Sofia abriu os braços. Samuel deixou a bengala de lado e a abraçou com uma delicadeza que me fez desviar os olhos.

Na volta, Helena chorou em silêncio durante alguns quilômetros. Depois procurou minha mão sobre o câmbio.

Eu a segurei. Ela não soltou até precisarmos fazer a próxima curva.

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