"A Porta Azul Escondia a Mãe Dela — e o Segredo da Minha Família" Capítulo 7
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ELE VOLTOU PARA OUVIR
Ainda havia uma folha no envelope.
Álvaro a separou da anotação de Vittorio. O papel tinha sido dobrado duas vezes, e uma das bordas estava quebradiça. No alto, alguém escrevera apenas o nome do meu avô.
A letra era diferente.
"É do Samuel", disse Álvaro, depois de comparar a assinatura com outra peça da pasta.
Helena se aproximou da mesa.
A carta não tinha mais que alguns parágrafos. Samuel dizia que não voltara pela casa. Precisava ouvir o irmão admitir o que fizera. Durante dezessete anos carregara o peso de uma acusação e de uma fuga que a filha entendera como abandono.
Ele ouvira a confissão. Não tinha forças para começar outra guerra naquela noite. Isso não significava abrir mão do que era seu.
No fim, pedira que Vittorio permitisse que a verdade chegasse a Rosa.
Helena leu essa parte duas vezes.
"Ele pediu", murmurou. "E ninguém contou."
Olhei para a porta aberta do ateliê. Cida atravessava o jardim com Sofia, que carregava um biscoito enorme nas duas mãos. Helena acompanhou a filha com os olhos até a menina desaparecer atrás de uma roseira.
"A Rosa achava que tinha alguma coisa errada com ela", disse. "Quando eu era adolescente e fazia besteira, ela me mandava pedir desculpas, conversar, voltar para casa. Dizia que a pior coisa era deixar alguém esperando sem saber o motivo."
Sentou-se, mas não chorou de imediato. Ficou dobrando o canto do lenço que trouxera no bolso.
"Eu devia ter perguntado mais."
"Ela talvez não soubesse responder", disse Álvaro.
"Mas eu podia ter escutado."
Eu conhecia a sensação de descobrir tarde demais que uma pessoa da família tivera uma vida inteira fora do papel que ocupava para nós. Meu pai era uma voz serena ao telefone, um homem ocupado, o lugar vazio à cabeceira da mesa. Naquele caderno verde, havia alguém frustrado, envergonhado, tentando resolver uma história que o ultrapassava.
Pedi a Álvaro que me contasse tudo o que lembrava das buscas de Lourenço.
Ele não tentou transformar meu pai em herói.
"Houve épocas em que ele insistiu. Houve outras em que mandou guardar os papéis. Dizia que não era a hora de perturbar a família. Eu deveria ter discutido mais. Também me acostumei a adiar."
"Ele encontrou Samuel?"
"Até onde sei, teve contato depois da visita de 1998. Nunca me deu os detalhes. Eu recebi instruções para continuar procurando os outros envolvidos."
Isso me irritou. Meu pai confiara em Álvaro por décadas e, ainda assim, guardara partes importantes para si.
"Parece que todos sabiam apenas o suficiente para não resolver nada."
O advogado não se ofendeu.
"É uma descrição justa."
Naquela tarde, Helena quis ver os aposentos da tia na cidade. Havia meses que adiava terminar de separar os pertences guardados por uma vizinha. Ofereci o carro e esperei que recusasse minha companhia.
Ela ficou olhando para as chaves na minha mão.
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"Você pode dirigir? Não quero ficar sozinha com a Sofi no banco de trás pensando nisso tudo."
Fomos os três.
O apartamento de Rosa ficava no segundo andar de um prédio antigo, acima de uma papelaria. A vizinha nos recebeu com um pote de café e desculpas por não ter conseguido cuidar das plantas.
Na varanda, quatro latas de tinta serviam de vasos. Um tomateiro tinha secado. Outro ainda resistia, torto, preso a uma colher de pau.
"A tia dizia que esse era o mais teimoso", Helena comentou.
Sofia tocou uma folha com o dedo.
"A gente pode levar?"
"Pode."
Enquanto a menina escolhia quais latas viajariam conosco, Helena abriu uma caixa de fotografias. Encontrou contas antigas, receitas recortadas e uma carta que começava com o próprio nome.
Não era um documento novo sobre a fazenda. Era Rosa explicando que deixara algumas coisas organizadas com um profissional e que desejava conversar quando melhorasse.
Helena fechou os olhos.
"Ela escreveu isso antes da última internação. Eu achei junto das contas e guardei para ler com calma."
Helena tentou continuar, mas apertou os lábios e ficou olhando para a primeira linha. Sentei ao seu lado, no sofá estreito.
Havia uma marca redonda de xícara no papel. Ela passou o dedo por cima, e eu pensei em Rosa escrevendo naquela mesma sala, interrompida pelo café, acreditando que ainda teria tempo para terminar a conversa pessoalmente.
"Você estava cuidando dela e de uma criança."
"Eu sei. Ainda assim, queria ter lido enquanto podia perguntar."
Deixei que segurasse a carta. Não havia nada útil a dizer sobre a culpa de quem sobrevive a alguém.
Quando saímos, levei duas latas para o carro. Sofia foi atrás de mim com o coelho preso sob o braço.
"Não põe deitado. Ele vai derramar."
"Recebi instruções muito claras sobre o tomateiro."
Ela me deu um olhar sério, satisfeita por eu entender a importância do trabalho.
No caminho de volta, dormiu antes de alcançarmos a estrada. Helena ficou olhando pela janela, a carta no colo.
"Obrigada por não ficar perguntando se eu estou bem."
"Você me parece cansada dessa pergunta."
"Eu estou cansada de não saber o que responder."
Diminuí a velocidade numa curva. Ela encostou a cabeça no banco e dormiu também.
Foi a primeira vez que a vi descansar desde a abertura da porta.
Ao chegarmos, Ronaldo nos esperava na varanda. A expressão dele fez meu estômago apertar antes que abrisse a boca.
"O escritório conseguiu retorno sobre a documentação da Rosa. Tem um complemento apresentado quatro meses atrás."
Helena saiu do carro com Sofia adormecida nos braços. Peguei a bolsa e me aproximei.
"A Rosa morreu há oito meses", ela disse.
"Eu sei. Não foi ela quem apresentou."
Ronaldo me mostrou o nome no retorno recebido pelo escritório. Os detalhes ainda seriam conferidos, mas a identificação constava nas peças encaminhadas.
Samuel Valenti.
Helena olhou da tela para mim.
"Ele pode estar vivo?"
Fiz a conta em silêncio. Noventa e um anos, se os registros de nascimento estivessem corretos.
Atrás de nós, Sofia resmungou no sono e se ajeitou no ombro da mãe.
Entrei na casa já ligando para Álvaro. Não queria passar outra noite tratando uma pessoa como uma fotografia quando ainda era possível encontrá-la.
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