"A Porta Azul Escondia a Mãe Dela — e o Segredo da Minha Família" Capítulo 6

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DEBAIXO DA ESTUFA

Não levei Sofia de volta ao subterrâneo. Nem pedi que Helena fosse.

Quando expliquei que iríamos inspecionar a passagem com um engenheiro, ela pegou o desenho que fizera no hospital e acrescentou uma marca.

"A parede muda de espessura aqui. Eu percebi porque a prateleira não encostava no fundo."

"Você não precisa lembrar de tudo agora."

Ela apertou o lápis.

"Eu passei três dias olhando para aquelas paredes. Se isso servir para alguma coisa, quero que sirva."

Não insisti. Perguntei o que mais recordava e anotei exatamente como disse.

Ronaldo conseguira também uma informação prestada por Celeste às autoridades: o pai dela falava de um compartimento fechado sob a antiga cocheira, no terreno onde a estufa fora construída. Ela acreditava que existia ali um documento de transmissão da fazenda.

Isso explicava as buscas. Não explicava, por si só, o que fizera com duas pessoas.

Ao meio-dia, desci com Ronaldo, o engenheiro e dois funcionários da manutenção. Álvaro esperou perto da saída, apoiado numa cadeira trazida do jardim. Reclamou quando sugeri que voltasse para casa.

"Eu já perdi três dias esperando que alguém viesse abrir uma porta. Hoje prefiro esperar por vontade própria."

A sala estava diferente sob refletores portáteis. Havia duas garrafas vazias num canto, um balde coberto e um colchão de depósito que Helena dividira com Álvaro para que nenhum dos dois passasse a noite inteira sentado.

Na parede, perto do chão, vi três riscos e depois mais um, inacabado.

Não perguntei quem os fizera.

O engenheiro examinou a área atrás do armário. A chapa de ferro estava coberta por uma camada irregular de reboco. A passagem não fora escondida por um trabalho cuidadoso, mas por anos de objetos empilhados e pela certeza de que ninguém procuraria ali.

"Vamos abrir só o suficiente para avaliar", ele disse.

A manutenção trabalhou devagar. Eu ouvia os golpes curtos, lembrando de Sofia reproduzindo as batidas na minha pasta.

Quando retiraram a chapa, entrou uma corrente de ar frio.

Do outro lado havia um corredor estreito. O teto parecia estável, mas o engenheiro não permitiu que entrássemos todos. Ronaldo ficou na abertura. Eu o segui, com máscara, luvas e a lanterna apontada para o chão.

O túnel terminava em alguns degraus. Subimos até uma câmara baixa sob a estufa. Pelas frestas de uma abertura tampada, entravam raízes finas e um filete de claridade.

Não havia baús alinhados nem cofres. Encontramos vasos rachados, ferramentas corroídas e caixas comidas pela umidade. Uma etiqueta antiga, ainda presa a uma prateleira, trazia o nome de um fertilizante que eu lembrava de ver na infância.

Depois de vinte minutos, comecei a achar que estávamos procurando uma lembrança que Celeste herdara do pai sem nunca verificar.

Foi Ronaldo quem percebeu a caixa de metal.

Ela estava atrás de bandejas de madeira apodrecidas, sobre uma elevação de pedra. A tampa resistiu, mas não tinha fechadura. Dentro havia um embrulho protegido por tecido encerado.

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Fotografamos a posição antes de tocar. Quando voltamos ao corredor principal, Álvaro se inclinou tanto para ver que precisei segurar o encosto de sua cadeira.

"Não abram aqui. Essa umidade já fez estrago suficiente."

Levamos o conjunto para uma mesa preparada no antigo ateliê. O engenheiro registrou de onde fora retirado. Álvaro chamou o colega para acompanhar a abertura.

Eu queria rasgar o tecido com as mãos.

Esperei enquanto separavam cuidadosamente as folhas.

Helena apareceu no vão da porta. Parou ali, sem entrar.

"Cida está com a Sofi no jardim. Posso ficar?"

Afastei uma cadeira.

A primeira peça era uma cópia antiga de um instrumento que dividia a propriedade original entre Vittorio e Samuel. A assinatura da mãe deles aparecia no rodapé. As descrições dos limites precisariam ser comparadas aos registros, mas a ideia era clara: o controle exclusivo que meu avô exercera não correspondia à vontade que aquela mulher deixara por escrito.

"Metade para cada um", murmurei.

"É o que este documento indica", respondeu Álvaro. "Precisamos verificar o histórico inteiro."

Helena olhou a folha sem se aproximar.

"Celeste achava que era tudo do Samuel?"

"Parece que sim. O pai dela lhe contou uma versão incompleta."

Debaixo havia um envelope endereçado a Vittorio. A carta da mãe dele falava da briga com Samuel, do incêndio e da obrigação de esclarecer o que acontecera. Não nomeava um culpado, mas deixava claro que ela não acreditava na acusação contra o filho mais novo.

Eu conhecia aquela mulher apenas pelo retrato na biblioteca. Sempre a imaginara distante, obediente ao tipo de família que ajudara a formar. Sua letra tinha correções apressadas e uma frase sublinhada duas vezes, pedindo que Vittorio parasse de usar a morte dela como desculpa para se calar.

Na folha seguinte, a caligrafia mudava.

Reconheci o V da assinatura antes de ler o conteúdo. Meu avô fazia aquela curva exagerada até em cartões de Natal.

A anotação tinha data: 17 de outubro de 1998.

Li em voz alta porque Helena não conseguia enxergar de onde estava.

"Samuel não tirou o dinheiro. Eu o tirei da conta antes da discussão. O incêndio começou quando derrubei a lamparina sobre o material que guardávamos na cocheira. Eu consegui sair. Depois deixei que acreditassem que ele tinha feito tudo."

Minha voz falhou. Álvaro pegou a folha pela borda e leu o resto em silêncio, antes de devolvê-la.

Vittorio escrevera que o irmão voltara naquela noite. Que lhe dissera a verdade. Que Samuel ficara sentado diante dele por quase uma hora sem tocar no café.

Havia uma última frase.

"Ele me perguntou quantos anos da vida dele eu achei que a casa valia. Não consegui responder."

Pousei a folha. Senti a madeira da mesa sob os dedos e precisei me apoiar nela.

Eu tinha onze anos em 1998. Lembrava do meu avô naquela época: um velho impaciente, que me ensinava a jogar cartas e reclamava do barulho dos talheres.

Em algum lugar daquela memória, enquanto eu crescia protegido, outro homem tentara recuperar o próprio nome.

Helena encostou a mão no meu braço.

"Você não sabia."

Assenti, mas continuei olhando para a letra que conhecia desde criança.

Agora eu sabia.

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