"A Porta Azul Escondia a Mãe Dela — e o Segredo da Minha Família" Capítulo 5
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O IRMÃO QUE NÃO EXISTIA
Helena teve alta no fim da tarde. Álvaro permaneceu em observação por mais uma noite.
Quando voltamos à fazenda, Sofia não quis entrar pela porta principal. Ficou parada junto ao carro, segurando a mão da mãe e olhando para a galeria.
"Ela está aí?"
Não precisou dizer o nome.
"A Celeste não está na casa", respondi.
A menina ainda hesitou. Cida apareceu na porta da cozinha com uma colher de pau na mão.
"Eu fiz a sopa sem aquela verdura que você chama de cabelo."
Sofia ergueu o rosto.
"A couve?"
"Essa mesma. Venha conferir antes que eu mude de ideia."
A menina foi, mas levou a mãe consigo. Eu fiquei alguns segundos ao lado do carro, agradecido por Cida ter encontrado uma maneira de oferecer alguma coisa normal.
Naquela noite, mandei instalar uma fechadura nova na porta dos aposentos de Helena, com as chaves entregues diretamente a ela. Dei-lhe também a opção de um hotel ou de uma casa na cidade. Ela escolheu ficar por enquanto.
"Aqui a Sofi conhece a cama, a cozinha, a Cida. Não quero que a primeira coisa depois de sair de lá seja perder tudo o que ela conhece."
Eu respeitei. Avisei ao restante dos funcionários, sem rodeios, que Helena fora mantida contra a vontade na propriedade e que as explicações anteriores sobre sua ausência eram falsas. Cida chorou. O jardineiro perguntou por que ninguém o chamara para ajudar a procurar. Não soube responder sem incluir minha própria confiança cega no funcionamento da casa.
Na manhã seguinte, Álvaro voltou acompanhado de um colega. O pulso estava imobilizado. Coloquei os dois na biblioteca, ofereci café e fui buscar Helena.
Encontrei-a sentada no chão do quarto, tentando desembaraçar o cabelo de Sofia. A menina tinha o queixo apoiado no coelho e reclamava a cada movimento do pente.
"Você está puxando."
"Eu ainda nem puxei, Sofi."
"Mas vai puxar."
Helena me viu à porta e quase sorriu.
"Ela voltou a reclamar. Estou considerando um bom sinal."
Sofia colocou a mão sobre a cabeça.
"Você pode fazer a trança depois?"
"Posso. Agora você vai com a Cida fazer os biscoitos. Eu vou estar na biblioteca. Se quiser me ver, é só pedir para ela trazer você."
"Não fecha a porta."
Helena deixou o pente na cama.
"A porta vai ficar aberta."
Descemos juntos. Ela usava uma blusa de algodão e tinha um curativo pequeno na testa. Ao passar pelo acesso oeste, aproximou-se de mim sem perceber. Reduzi o passo, acompanhando-a até a biblioteca.
Álvaro começou pela pergunta mais simples: por que viera à Santa Clara.
"Há três semanas, recebi uma consulta sobre registros que conhecia. O pedido de vocês chegou a um escritório com o qual ainda colaboro. Quando vi o sobrenome Duarte e a referência à estufa, procurei meu arquivo."
Meu pai o encarregara de localizar as famílias envolvidas numa disputa antiga. O trabalho avançara aos poucos, com documentos incompletos e parentes que mudaram de cidade. Álvaro identificara Rosa, mas ela morrera antes que conseguisse falar com ela.
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"Eu não sabia que Helena trabalhava aqui até ler o pedido", explicou. "Não imaginei que a ligação estivesse tão perto."
Abriu o caderno verde que trouxera de seu escritório naquela manhã. Reconheci a letra do meu pai.
Havia nomes, medidas, valores antigos e observações nas margens. Nada ali lembrava uma fortuna escondida. Parecia a tentativa paciente de alguém que não conseguira desfazer um erro.
"Seu avô adquiriu direitos sobre seis áreas vizinhas em condições que as famílias contestaram depois", disse Álvaro. "Lourenço encontrou as reclamações e percebeu que os acordos não correspondiam ao que aquelas pessoas diziam ter aceitado."
"Meu pai tentou procurá-las?"
"Tentou. Algumas não quiseram falar com ele. Outras já tinham morrido."
Helena acompanhava os nomes com o dedo. Parou em Rosa Duarte.
"A tia tinha relação com uma dessas famílias?"
"Foi o que eu pensei inicialmente. Mas a documentação mais recente trouxe uma ligação diferente."
Álvaro tirou de uma pasta uma fotografia de dois homens diante da estufa. Eu conhecia o da esquerda: Vittorio, meu avô, ainda jovem, de mangas dobradas e expressão impaciente.
O outro sorria para alguém fora do enquadramento.
"Este é Samuel Valenti. Irmão do seu avô."
Encostei as costas na cadeira.
"Meu avô não tinha irmão."
Álvaro virou a fotografia. Os dois nomes estavam escritos no verso.
"Seu pai descobriu a existência dele quando Vittorio adoeceu, em 1994. Antes disso, conhecia a mesma versão que você."
Olhei outra vez. Havia uma semelhança evidente, embora Samuel tivesse o rosto mais estreito e uma maneira menos rígida de sustentar os ombros.
"E por que apagaram esse homem da família?"
"Ele foi acusado de roubar dinheiro e provocar um incêndio em 1981. Saiu da região. Pelo que encontrei, Vittorio usou sua ausência para assumir o controle de tudo."
Helena pediu a fotografia.
"Foi ele o pai da Rosa?"
Álvaro assentiu.
Ela pousou a imagem na mesa, com cuidado.
"A tia dizia que o pai tinha ido viver outra vida. Nunca mostrava fotografia. Quando eu era pequena, achei que ela tivesse vergonha dele."
O colega de Álvaro mostrou as peças que acompanhavam a disposição de Rosa. Antes de morrer, ela reunira informações sobre os direitos de Samuel e sobre uma parcela que ele lhe destinara. Parte do caminho documental ainda precisava ser reconstruída.
"Então a Sofia não é parente de vocês", Helena disse, olhando para mim.
"Não", respondeu Álvaro. "Rosa escolheu beneficiá-la. Isso é diferente de uma ligação de sangue."
Helena soltou um pouco os ombros. Não pelo dinheiro. Eu suspeitava que qualquer descoberta que não mudasse quem sua filha era já lhe parecesse um alívio.
Ronaldo bateu no batente aberto. Tinha uma cópia dos registros de manutenção.
"Celeste vinha pedindo acesso às fundações há meses. Sempre sozinha. Na segunda-feira mandou comprar o cadeado no cartão da administração."
Olhei a nota. Valor, horário, nome da loja. A banalidade da compra me deu mais raiva do que uma ameaça teria dado.
"E o que ela disse sobre o motivo?"
"Que havia material perigoso no corredor."
Helena cruzou os braços.
"Ela sabia que eu ia pedir uma inspeção. Eu tinha encontrado a abertura atrás da hera e achei que explicava a umidade."
Álvaro apoiou a mão boa sobre o caderno.
"Há uma referência a uma divisão anterior da propriedade. Se encontrarmos o documento original, talvez a reivindicação de Rosa tenha uma base ainda mais ampla."
Fitei a fotografia dos irmãos. Minha vida inteira naquela casa se apoiava numa história que alguém escolhera me contar.
Pela primeira vez, eu queria saber também quem ficara do lado de fora dela.
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