"A Porta Azul Escondia a Mãe Dela — e o Segredo da Minha Família" Capítulo 3

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A CHAVE NO BOLSO

Marcos retirou a mão com dois dedos fechados em torno de uma tira de couro.

Na ponta dela havia uma chave.

Ninguém falou. Até o rádio de Ronaldo pareceu alto demais quando uma voz perguntou se precisávamos de mais gente.

Sofia foi a primeira a entender.

"Você podia abrir?"

Marcos olhou para ela, mas não conseguiu sustentar seu olhar.

"Sofi, eu..."

"Não explica para ela", interrompi. "Entregue a chave."

Ronaldo a pegou e fez um sinal para o outro segurança guardar a arma. Pedi que Marcos se afastasse até a parede.

"Helena, conseguimos a chave. Você já saiu da frente?"

"Só um instante."

Ouvimos um esforço abafado e a voz de um homem pedindo que ela não puxasse pelo braço. Ronaldo me lançou um olhar. Havia muita coisa que não sabíamos, mas finalmente havia uma maneira de começar a saber.

"Pode abrir", ela disse.

O cadeado cedeu na primeira tentativa.

Ronaldo retirou o ferrolho e puxou a porta para fora. Um cheiro de roupa úmida, balde usado e ar parado invadiu o corredor. Levei alguns segundos para distinguir a sala atrás da luz.

Helena estava descalça. Tinha um corte pequeno na testa, os cabelos presos num nó frouxo e a manga da blusa rasgada perto do punho.

Seus olhos encontraram a filha antes de encontrarem qualquer outra coisa.

"Mamãe!"

Coloquei Sofia no chão, mas mantive a mão em suas costas até Helena se ajoelhar. Então a menina correu os dois passos que as separavam.

Ela abraçou o pescoço da mãe com tanta força que Helena perdeu o equilíbrio e se sentou no piso. Não pareceu notar. Apalpava os braços, o rosto, a cabeça da filha, como se precisasse verificar cada parte.

"Você está bem? Quem ficou com você?"

Sofia tentou responder e engasgou no choro.

"Eu procurei você. A dona Cida deixou eu dormir com ela, mas você não vinha."

"Eu sei, meu amor. Eu sinto muito."

"Você falou que ia ver meu desenho depois do jantar."

O rosto de Helena se contraiu.

"Eu lembro. Você tinha desenhado o coelho com as botas vermelhas."

Sofia se afastou um pouco, apenas o suficiente para olhar para ela.

"Você lembra mesmo?"

"Eu lembro. Não fui embora, Sofi. Eu não ia deixar você."

A menina enterrou o rosto no ombro da mãe. Helena fechou os olhos e balançou com ela no colo. Havia poeira sobre os dois pés da criança. Helena passou a mão por um deles e começou a chorar também.

Eu tirei o paletó e o coloquei sobre suas costas.

"O atendimento já vem. Você consegue levantar?"

Ela assentiu, mas quando tentou apoiar a mão no chão, o braço cedeu. Ajoelhei ao seu lado. Por um instante senti seus dedos cravarem no meu punho.

"Não deixa tirarem ela de perto de mim."

"Ninguém vai fazer isso."

Ronaldo entrou na sala e iluminou o fundo. Um armário de metal estava atravessado perto de uma abertura menor. Ao lado dele, sentado numa cadeira com o encosto quebrado, um homem idoso protegia o pulso contra o peito.

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Reconheci-o antes que levantasse o rosto.

"Doutor Álvaro?"

Ele piscou para a lanterna.

"Seu pai teria reclamado da demora, mas acho que podemos deixar isso para depois."

A voz estava rouca. Ainda assim, era a mesma voz que eu ouvira em almoços de domingo e, muitos anos antes, na leitura do testamento de meu pai.

Álvaro Azevedo tinha setenta e seis anos. Eu o vira pela última vez num aniversário de Lourenço, pouco antes da morte dele. Depois disso, o escritório passara aos sócios mais novos, e nós perdêramos contato.

"O senhor também está aqui desde terça?"

"Desde o fim da tarde. A Helena chegou um pouco depois."

Ele tentou se levantar. Ronaldo o ajudou.

Marcos continuava encostado na parede, olhando para o piso. Helena percebeu sua presença quando a levantei com Sofia ainda presa a ela.

"Você trouxe água", disse.

Marcos assentiu.

"Trouxe."

"Eu pedi que avisasse o Mateus."

"Eu sei."

"Eu pedi que deixasse a Sofia ouvir minha voz. Eu podia falar pela porta. Você só precisava trazê-la até a escada."

Ele começou a chorar em silêncio. Helena o observou sem suavizar o rosto.

"Eu ouvi minha filha andando lá em cima e você disse que eu precisava esperar."

Senti vontade de agarrá-lo pelo colarinho. Ronaldo percebeu antes que eu me movesse.

"Vamos levar os dois para cima", falou.

Helena começou a tremer assim que passamos a porta. Ela não tinha forças para carregar Sofia pela escada. Expliquei à menina que eu a levaria e caminhei ao lado da mãe, para que continuassem de mãos dadas.

No primeiro patamar, Cida esperava com um cobertor. Ao ver Helena, cobriu a boca. Depois abriu os braços.

"Minha Nossa Senhora, eu achei..."

Não terminou. Ajudou a apoiar Helena e subiu conosco.

Os profissionais de saúde chegaram poucos minutos depois. Álvaro tinha uma lesão no pulso e precisava ser examinado com mais cuidado. Helena estava desidratada. Eu me mantive do lado de fora da sala enquanto verificavam as condições dos dois, ouvindo Sofia perguntar se a mãe teria de ir embora na ambulância.

Quando a porta abriu, Helena veio até mim segurando um copo de água.

"A Cida vai com a gente. O médico disse que a Sofi pode acompanhar até terminarem meus exames."

"Eu vou também."

Ela olhou na direção do escritório.

"Você precisa ficar."

Celeste apareceu na galeria antes que eu respondesse. Tinha trocado de roupa e carregava a bolsa no braço.

"Mateus, eu posso explicar."

Helena recuou meio passo. Toquei seu cotovelo, sem prendê-la.

"Vá com a Cida. Quando voltar, ninguém entra no seu quarto sem você permitir."

Só depois de vê-la caminhar para a ambulância encarei Celeste.

"Deixe a bolsa na mesa."

"Eu não vou fugir."

"Então espere pela polícia e diga a eles o que acabou de me dizer."

Ronaldo já tinha feito a ligação, a meu pedido. Celeste empalideceu.

Álvaro pediu que eu o acompanhasse por um instante antes de partir. Ronaldo trouxe da sala subterrânea um maço embrulhado num pedaço de tecido sujo. O advogado apontou para ele.

"Eu escondi isso atrás do forro solto da cadeira. Celeste ficou com minha pasta, mas procurou nos bolsos errados."

Peguei o embrulho. Havia folhas dobradas, uma carta e uma cópia marcada com o nome de Rosa Duarte.

"O que há aqui?"

Álvaro baixou a voz.

"A razão pela qual eu vim. Rosa deixou direitos sobre uma parte desta propriedade para a Sofia. Celeste soube antes de você."

Olhei para a ambulância. Pela janela traseira, Sofia segurava o copo para que a mãe bebesse.

"Ela tem cinco anos."

"Eu sei", respondeu Álvaro. "E alguém achou que isso tornava mais fácil impedir que ela recebesse o que era dela."

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