"A Porta Azul Escondia a Mãe Dela — e o Segredo da Minha Família" Capítulo 2

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A FECHADURA NOVA

Ronaldo iluminou os degraus antes de abrir o portão.

"Eu vou primeiro. O senhor espera no patamar."

Marcos colocou o pé à frente dele.

"Esse corredor está interditado. Pode haver outra parte do teto solta. É melhor chamar a manutenção."

"Então chame", respondi. "Enquanto isso, vamos descer."

Peguei Sofia no colo. Ela não protestou, mas segurou minha camisa com a mesma força com que prendia o coelho. Os chinelos de Cida ficaram no primeiro degrau.

"Se houver qualquer risco, você volta com o Ronaldo", expliquei.

Ela encostou a boca perto do meu ouvido.

"Só não deixa ela lá."

Não fiz uma promessa que ainda não sabia cumprir. Ajustei o braço sob suas pernas e desci.

A Santa Clara fora ampliada tantas vezes que nem as plantas mais recentes mostravam tudo. Abaixo da lavanderia antiga existia um pavimento de depósitos; depois dele, um segundo lance levava à passagem de abastecimento da antiga estufa. Meu pai usara aqueles espaços para guardar móveis quebrados. Depois da infiltração, eu nunca mais voltara.

O cheiro de terra molhada ficou mais forte no último degrau.

Ronaldo examinou o teto, a fiação desativada, as pedras. Um segurança mais jovem permaneceu no patamar com o rádio. Eu queria que Sofia ficasse com ele, mas ela começou a tremer quando tentei afastá-la.

"Por enquanto ela fica comigo", falei. "Pare se encontrar qualquer problema."

A luz da lanterna correu pelo chão. A poeira cinzenta estava cortada por marcas de botas.

Mais de uma pessoa passara por ali recentemente.

"Quando foi a última inspeção?", perguntei a Marcos.

"Não sei dizer."

"Descubra."

Ele não pegou o rádio.

Andamos mais alguns metros até Sofia levantar o rosto do meu ombro.

"Ali."

No rodapé, junto a uma rachadura, havia um botão pequeno. Ronaldo o pegou com um lenço e o colocou na palma da mão.

Sofia esticou o braço.

"É da blusa da mamãe. Tem um que arranha quando ela me abraça."

Eu me lembrava da blusa clara. Na terça de manhã, antes da minha viagem, Helena aparecera no escritório com amostras de argamassa. Um dos botões do punho estava frouxo. Ela o enrolara numa linha enquanto me explicava por que a parede da estufa não devia receber cimento comum.

Na ocasião, eu olhara mais para suas mãos do que para as amostras. Um pensamento deslocado, do qual me arrependi ali, carregando sua filha por um corredor subterrâneo.

Ronaldo guardou o botão.

A porta surgiu no alcance da lanterna pouco depois. A tinta azul descascava em placas, revelando madeira escura. As dobradiças estavam enferrujadas. O ferrolho que atravessava o batente brilhava.

O cadeado também era novo.

"Helena!"

Minha voz bateu nas paredes.

Sofia se mexeu no meu colo.

"Mamãe, sou eu!"

Esperei até conseguir ouvir de novo a água pingando em algum lugar.

Nenhuma resposta.

Toquei a madeira. Estava fria e úmida.

"Helena, é o Mateus. A Sofia está comigo. Se estiver aí, bata na porta."

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Atrás de nós, Marcos respirava pela boca.

Vieram três pancadas.

Fracas. Inconfundíveis.

Sofia soltou um grito e tentou descer do meu colo.

"Eu sabia! Eu falei que era ela!"

Segurei-a contra o peito. Meu próprio coração batia tão depressa que precisei respirar antes de dar a ordem seguinte.

"Tragam uma ferramenta para cortar o cadeado. Agora. E chamem atendimento médico."

Ronaldo transmitiu pelo rádio. Pediu também que dois funcionários aguardassem na escada com água e cobertores.

"Helena, estamos abrindo. Você consegue se afastar da porta?"

Um arrastar de passos chegou do outro lado.

"Sofia?"

A voz dela quase não parecia uma voz.

"Estou aqui, mamãe!"

"Meu amor, fica com o Mateus. Não chega perto ainda."

"Ela comeu alguma coisa?", Helena perguntou do outro lado. "A Sofia fica enjoada quando passa muito tempo sem comer."

"Comeu pão e bebeu água. Estamos cuidando dela."

Sofia começou a chorar com a boca aberta, sem conseguir falar. Acariciei suas costas do jeito desajeitado de quem nunca precisara segurar uma criança naquele estado.

"Ela ouviu você", murmurei. "Agora ela sabe que você está aqui."

Ronaldo me ofereceu o cantil. Molhei os lábios da menina com um pouco de água.

Marcos se aproximou da porta.

"Eu posso ir buscar a chave."

Olhei para ele.

"Você sabe onde está?"

"Talvez esteja no quadro da manutenção."

"De uma fechadura que você não sabia que existia?"

Ele não respondeu.

Pelo rádio, o segurança avisou que o alicate de corte já estava descendo. Mandei Ronaldo verificar quem se encontrava na casa e impedir a saída dos veículos de serviço até esclarecermos o desaparecimento. Não queria que a pessoa responsável por aquilo simplesmente atravessasse o portão enquanto eu olhava para uma porta.

"Encontre a Celeste", acrescentei. "Quero saber onde ela está."

O nome provocou uma reação imediata do outro lado.

"Ela veio com vocês?"

Helena falara mais alto. Havia pavor na pergunta.

"Não. Está lá em cima."

"Não deixa ela descer."

Marcos passou a língua nos lábios.

Senti a mão de Sofia apertar minha nuca.

"O que aconteceu, Helena?"

"Primeiro me diz quem está aí."

Falei os nomes. Ao ouvir o de Marcos, ela ficou em silêncio.

Esse silêncio mudou o modo como eu olhava para ele.

O segurança voltou com o alicate. Ronaldo abriu os braços da ferramenta e se ajoelhou diante do cadeado. Sofia se encolheu, esperando o ruído.

Então um objeto pesado raspou no chão da sala.

Helena gritou.

"Espera! Não abre ainda!"

Ronaldo imobilizou a ferramenta.

"Você está machucada?", perguntei.

"Estou tentando afastar uma coisa da passagem. Não empurrem."

Houve outro ruído, seguido por uma tosse funda.

Uma tosse de homem.

Meu braço apertou Sofia involuntariamente.

"Helena, tem alguém aí com você?"

A resposta veio entre respirações cansadas.

"Tem. Não era só a mim que eles queriam esconder."

Marcos fechou os olhos.

Eu o observei por um instante, tentando conciliar o homem que acompanhara meu pai ao hospital com aquele que reconhecia sons atrás de uma porta onde uma mulher estava presa.

"Ronaldo", falei, "fique de olho nele."

Marcos levou a mão para dentro do paletó.

O segurança do patamar já tinha sacado a arma quando dei um passo à frente, protegendo Sofia com o corpo.

"Tire a mão devagar, Marcos. E não tente me obrigar a repetir."

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