"“Posso Pegar Seu Cachorro Emprestado?” A Filha da Empregada Revelou o Segredo do Chefe da Máfia" Capítulo 9
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O TEMPO QUE NÃO VOLTA
Helena estava na sala pequena ao lado da biblioteca.
Sofia dormia com a cabeça em seu colo. Bruno havia deitado atravessado diante do sofá, tornando qualquer aproximação uma pequena operação.
Gabriel entrou primeiro. Dante ficou perto da porta, com o estojo vazio sob o braço.
Helena olhou para o envelope na mão do filho.
"Você conseguiu ler?"
Ele assentiu.
Ela tentou encontrar alguma coisa no rosto dele. Dante viu a pergunta se formar e desaparecer duas vezes antes de sair.
"Ele falou de mim?"
Gabriel sentou na poltrona em frente.
"Falou."
Helena esperou.
"Ele queria casar com você. Estava procurando um anel."
Uma lágrima desceu pelo rosto dela antes que conseguisse virar a cabeça.
"Ele chegou a perguntar meu tamanho. Eu achei que fosse brincadeira."
Sofia se mexeu. Helena ajeitou a menina sem deixar de olhar para o filho.
Dante colocou o estojo sobre uma mesa lateral.
"Vou pedir que tragam alguma coisa pra vocês comerem."
Gabriel olhou para ele, e Dante reconheceu o agradecimento silencioso pela saída.
Na copa, dona Célia preparava uma sopa que não precisava da sua supervisão. Ele permaneceu ali mesmo assim, cortando pão de um jeito que a governanta desaprovou sem dizer nada.
Vinte minutos depois, retornou com uma bandeja.
A porta estava aberta. Helena e Gabriel continuavam nos mesmos lugares, mas a carta agora repousava sobre a mesinha entre os dois.
"Eu não estou pedindo que esqueça", ela dizia.
Dante parou antes de entrar.
"Você fala isso agora", Gabriel respondeu. "Mas, quando eu perguntava, dizia que era melhor não mexer. Que eu ia entender depois. Sempre tinha um depois."
"Eu tinha medo."
"Eu também tinha, mãe. Só que eu não sabia nem do quê."
Helena olhou para a filha adormecida.
"Quando o Gabriel tinha quatro anos", começou, mas interrompeu a própria frase.
Dante viu a correção acontecer.
Ela voltou a encarar o filho.
"Quando você tinha quatro anos, eu achei que devia esperar. Depois foram seis, oito... Eu já tinha contado a história tantas vezes que não sabia como admitir a parte que faltava."
Gabriel se inclinou para a frente.
"Você podia ter dito que errou. Eu não precisava de uma história perfeita."
Helena chorou sem tentar esconder.
"Eu sei disso agora."
"Eu perdi tempo com ele."
Dante sentiu os dedos apertarem a bandeja.
Helena balançou a cabeça, confusa.
"Com seu pai?"
Gabriel apontou para a porta, onde Dante estava.
"Com ele também."
Os dois se viraram.
Dante entrou devagar e colocou a bandeja na mesa. Não havia como fingir que não escutara.
Helena olhou para as próprias mãos.
"Eu não consigo devolver esse tempo."
"Eu sei", Gabriel respondeu.
A frase não soou como perdão. Soou como o reconhecimento de uma coisa que nenhum dos três podia mudar.
Dante serviu a sopa, colocou uma tigela diante de cada um e sentou-se no braço da poltrona vazia.
"Você pode continuar com raiva e jantar", disse ao sobrinho.
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Gabriel olhou para a tigela.
"Isso é uma ordem?"
"É uma recomendação excelente."
O rapaz soltou uma risada cansada.
Helena aceitou a colher que ele lhe entregou.
Mais tarde, quando Sofia foi levada para a cama, Gabriel pediu que a mãe lesse a carta com ele na manhã seguinte.
"Eu quero contar onde você fazia cara feia no meio", acrescentou.
Helena sorriu entre lágrimas.
"Provavelmente em muitas partes."
"Algumas."
Ele se levantou para ajudá-la a recolher as tigelas.
Não resolveram dezenove anos naquela noite.
Mas Dante os ouviu discutir, já na copa, sobre a quantidade de pão que Gabriel havia comido. O som comum daquela conversa o acompanhou até o escritório.
Nas semanas seguintes, Gabriel voltou aos domingos.
Continuou morando em Campinas, no pequeno apartamento que dividia com um colega de trabalho. Aceitou conversar com Samuel sobre o que o avô deixara e fez perguntas que Dante não respondeu por ele.
Helena aprendeu a esperar os telefonemas combinados sem ligar dez vezes antes.
Nem sempre conseguiu.
Numa tarde, Gabriel deixou o celular vibrar sobre a mesa da garagem e olhou para Dante.
"Terceira vez."
"Atenda antes da quarta. Na quarta ela liga pra mim."
Gabriel riu e respondeu.
"Estou na garagem, mãe. Não saí de moto. Nem encostei na chave."
Dante olhou para a motocicleta de Luca, restaurada e coberta até poucos minutos antes.
Quando o rapaz desligou, ficou diante dela em silêncio.
"Ele usava muito?"
"Mais do que devia."
"Foi nela que ele..."
"Não. Foi de carro. Chovia muito."
Gabriel assentiu.
Dante não acrescentou detalhes que o rapaz não pedira. Haveria outras conversas. Pela primeira vez, podia acreditar nisso.
O sobrinho aproximou a mão do guidão, mas parou antes de tocar.
"Pode", Dante disse.
Gabriel passou os dedos pelo couro.
"Eu sei pilotar um pouco."
"Quanto é um pouco?"
"Um amigo me ensinou num estacionamento."
"Então você sabe ficar em cima de uma moto num estacionamento."
Gabriel o encarou, ofendido por meio segundo.
Depois riu.
"Minha mãe falou que você ia dizer alguma coisa assim."
Dante foi até o armário e pegou um capacete antigo.
"Vou marcar aulas com um instrutor. Se continuar querendo depois disso, a gente conversa."
O rapaz recebeu o capacete, examinando a viseira riscada.
"Você faria isso?"
"Acabei de oferecer."
Gabriel ficou quieto, segurando o objeto contra o corpo.
Dante começou a guardar as ferramentas para lhe dar tempo.
A faculdade voltou à conversa algumas semanas depois.
Estavam na casa do lago, observando um pedaço da varanda que precisava ser reformado. Gabriel fazia um desenho num caderno, sentado no degrau rachado da fotografia.
"Você gosta disso", Dante comentou.
O rapaz olhou a página.
"Eu gostava do curso. Parei de gostar de qualquer pergunta sobre o futuro."
"As duas coisas se misturaram."
"É."
Dante se sentou ao lado dele.
Gabriel continuou desenhando uma das colunas.
"Se eu voltar, não quero que todo mundo trate como se estivesse resolvido. Posso mudar de ideia."
"Pode."
"E talvez eu demore pra terminar. Vou continuar trabalhando."
"Então organize os horários."
Gabriel largou o lápis no caderno.
"Você não vai dizer que é desperdício, com o dinheiro que eu tenho?"
Dante observou as marcas de grafite no dedo do sobrinho.
"Você sabe quanto custa morar sozinho. Parece útil."
O rapaz sorriu.
Ficaram ali até Helena chamá-los para almoçar. Sofia estava no jardim, tentando explicar a Bruno que gravetos maiores valiam mais pontos numa brincadeira cujas regras só ela conhecia.
Gabriel fechou o caderno e se levantou.
Dante também se ergueu, mais devagar.
"Tio Dante?"
A palavra o fez parar.
Gabriel segurava o portãozinho da varanda aberto.
"Você vem?"
Dante olhou para ele, depois para a mesa sendo posta lá dentro.
"Vou."
Ao passar, tocou uma vez o ombro do sobrinho.
Gabriel não pareceu achar necessário dizer mais nada.
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