"“Posso Pegar Seu Cachorro Emprestado?” A Filha da Empregada Revelou o Segredo do Chefe da Máfia" Capítulo 8
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ANTES DE VOCÊ NASCER
A primeira folha estava dobrada em três.
Gabriel a abriu com as duas mãos, como se o papel pudesse rasgar sob os dedos.
Dante ficou ao lado dele, sem tentar ler por cima do seu ombro.
O rapaz olhou a primeira linha durante um longo tempo.
"Ele começou três vezes."
Dante inclinou um pouco o rosto.
Havia duas saudações riscadas antes da terceira.
Meu filho,
Ainda não sei seu nome. Sua mãe tem uma lista enorme, e eu estou tentando convencer ela de que nenhum nome de jogador de futebol precisa ser descartado antes de uma discussão séria.
Gabriel riu, mas a respiração falhou no meio.
"Ele escreveu isso mesmo."
"Seu pai tinha prioridades questionáveis."
O rapaz passou o polegar por uma das palavras.
"Posso ler em voz alta?"
Dante assentiu.
"Quero ouvir."
Gabriel começou devagar.
"Estou escrevendo porque hoje fiquei parado na frente de uma loja olhando um par de sapatos que cabia na palma da minha mão. O vendedor perguntou se eu queria levar. Eu disse que precisava falar com sua mãe. Na verdade, fiquei com medo de comprar o tamanho errado para uma pessoa que ainda nem nasceu."
Dante baixou os olhos para as próprias mãos.
Luca comprava motocicletas por impulso, fazia viagens sem reservar hotel e nunca parecia duvidar do próprio corpo quando havia alguma coisa alta demais para alcançar.
Medo de um sapatinho.
Gabriel respirou e continuou.
"Talvez um dia você leia isso e ache engraçado. Espero que ache. Eu também gostaria de saber o que estou fazendo antes de começar a ensinar alguém a viver."
Na página seguinte, Luca falava de Helena.
Da livraria, dos cafés e de uma sessão de cinema em que os dois discutiram tão alto sobre o final que foram convidados a terminar a conversa na calçada.
Gabriel ergueu a cabeça.
"Ela ainda faz isso."
"Imagino."
"Fica muito brava quando alguém morre no final sem precisar."
Dante olhou para a letra do irmão.
"Ela tinha razão em algumas coisas."
Gabriel voltou a ler.
"Sua mãe me olha como se eu pudesse ser uma pessoa melhor sem precisar virar outra pessoa. Não sei explicar isso direito. Talvez você entenda quando encontrar alguém que perceba suas desculpas antes de você terminar de contar."
Dante ouviu uma porta se fechar no andar de baixo. A vida da casa continuava ao redor deles, estranhamente comum para o que acontecia naquela mesa.
Luca escrevera sobre o dia em que soubera da gravidez.
Comprara flores e as esquecera no carro. Perguntara três vezes se Helena tinha certeza. Ela chorara, julgando que ele não queria o bebê.
"Eu queria", Gabriel leu, com a voz mais baixa. "Queria tanto que comecei a pensar em tudo que podia dar errado. A primeira coisa que consegui dizer foi uma pergunta idiota. Depois passei a noite tentando consertar."
O rapaz parou.
Ficou com os olhos presos naquela frase.
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Dante esperou.
"Ela me contou dessa noite", Gabriel disse. "Mas eu achei que estivesse deixando a história mais bonita."
"Você pode perguntar de novo. Agora sabe o que ele escreveu."
Gabriel assentiu e virou a página.
A letra ficava menor quando Luca começava a falar do sobrenome.
Não havia crimes detalhados, nomes de inimigos ou promessas grandiosas. Havia um homem jovem tentando entender como oferecer proteção sem entregar ao filho a mesma vida que o assustava.
"Meu pai acredita que consegue prever o perigo se souber o nome de todas as pessoas numa sala. Meu irmão acha que, se trabalhar o suficiente, ninguém vai precisar se preocupar com nada. Eu amo os dois. Também sei que os dois podem fazer uma pessoa perder o ar de tanto tentar cuidar dela."
Gabriel olhou para Dante.
Ele sustentou o olhar.
"Seu pai também era capaz disso."
"Aqui ele admite."
Dante soltou uma risada curta.
"Então essa carta tem valor histórico."
Gabriel sorriu antes de ler o parágrafo seguinte.
"Estou tentando não decidir tudo por você antes de te conhecer. Hoje me peguei pensando na escola onde você vai estudar. Depois percebi que nem sei se você vai gostar de desenhar ou passar o dia correndo atrás de uma bola. Preciso aprender a esperar. Sua mãe diz que seria uma novidade para mim."
Na quarta página, apareceu o nome de Dante.
"Vou conversar com meu irmão primeiro. Ele vai fazer perguntas que eu estou evitando e provavelmente vai me chamar de irresponsável. Depois vai resolver um problema que nem percebi que existia. Não diga isso a ele cedo demais, mas é a pessoa em quem mais confio quando as coisas ficam difíceis."
Dante deixou de respirar por um instante.
Gabriel baixou o papel.
"Ele chegou a falar com você?"
"Não."
"Nem tentou?"
Dante procurou a lembrança.
A última semana. O irmão entrando e saindo. Um telefonema atendido com pressa.
De repente, ouviu a voz dele com uma nitidez cruel.
Preciso te contar uma coisa. Quando você voltar, a gente janta.
Dante fechou os olhos.
"Tentou. Eu estava viajando. Disse que a gente conversava quando eu voltasse."
Gabriel permaneceu em silêncio.
Dante olhou para a mesa, para a fotografia do bebê, para o telefone que agora podia tocar quando um dos seus estivesse tentando dizer alguma coisa importante.
"Não sabia que não ia dar tempo."
O rapaz pousou a mão perto da dele. Não chegou a tocar.
Não precisava.
Continuaram depois de alguns minutos.
Luca contava que pretendia pedir Helena em casamento. Estava escolhendo um anel e tinha medo de escolher errado, outra vez. Queria que o filho crescesse sabendo quem eram todos, mas sem ser obrigado a se tornar igual a eles.
Na última página, a letra ocupava linhas mais espaçadas.
"Se um dia você decidir conhecer minha família, espero que encontre afeto antes de encontrar expectativas. Não deve nada a um sobrenome. Não precisa continuar meus planos só porque eu comecei a fazê-los. Tenho esperança de estar aqui para ouvir você dizer que estou errado."
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Gabriel precisou parar novamente.
Dante levantou-se para buscar água. Quando voltou, o rapaz havia enxugado o rosto com a manga.
Ele colocou o copo sobre a mesa, sem comentar.
Gabriel leu o fim quase num sussurro.
"Quero te ensinar a andar de bicicleta. Quero levar bronca porque deixei você comer sobremesa antes do almoço. Quero descobrir como fica a nossa casa com suas coisas espalhadas. Ainda nem conheço seu rosto, mas já estou guardando lugar para você em tudo."
"Se alguma coisa impedir que eu te diga isso pessoalmente, não deixe ninguém transformar meu silêncio em falta de amor."
"Você foi querido antes de nascer."
"Seu pai, Luca."
Gabriel baixou as folhas no colo.
Não houve frase capaz de preencher o que veio depois.
Dante ficou sentado ao lado dele, ouvindo a respiração que o rapaz tentava controlar. Pela janela, a luz da tarde desaparecia do jardim.
"Eu achei que era vergonha", Gabriel disse por fim.
Dante virou o rosto.
"O quê?"
"De mim. De ela ter ficado grávida. De eu não ter sido planejado. Todo mundo escondia tanto... Eu pensei que, se alguém me quisesse mesmo, não seria um segredo."
Dante sentiu a garganta fechar.
"Não havia nada de errado com você."
Gabriel olhou para a assinatura.
"Eu precisava ouvir isso dele."
"Eu sei."
O rapaz juntou as folhas com cuidado, mas não conseguiu encaixá-las no envelope. As mãos tremiam demais.
Dante estendeu a palma.
Gabriel entregou o papel.
Enquanto o tio dobrava a carta, inclinou o corpo um pouco na direção dele. Foi um movimento pequeno, hesitante.
Dante colocou a mão na nuca do sobrinho.
Gabriel cedeu.
O abraço veio desajeitado, com a cadeira atrapalhando e o envelope preso entre os dois.
Dante segurou-o assim mesmo.
Por cima do ombro do rapaz, viu a fotografia de Luca sorrindo com o peixe minúsculo.
Durante vinte anos, sentira falta do irmão sozinho.
Naquela noite, havia alguém ao seu lado que também precisava dele.
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