"“Posso Pegar Seu Cachorro Emprestado?” A Filha da Empregada Revelou o Segredo do Chefe da Máfia" Capítulo 5

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O QUE FICOU GUARDADO

Às oito da manhã, Sofia tentava convencer Bruno a aceitar um pedaço de mamão.

"Ele não quer", Helena disse.

"Mas faz bem."

"Mesmo assim."

Sofia virou o garfo na direção de Dante, que acabara de entrar na copa.

"O senhor gosta?"

"Gosto."

Ela examinou o cachorro.

"Então ele não aprendeu tudo com o senhor."

Dante pegou uma xícara no armário. Dona Célia observou o gesto como se fosse uma novidade digna de registro.

Ele percebeu.

"O café está aqui, não está?"

"Está. Eu só ia levar ao escritório."

"Não precisa."

Sentou-se na outra ponta da pequena mesa. Helena tinha uma torrada intocada no prato.

"Você contou a ela?", Dante perguntou baixo.

Helena negou com a cabeça.

Sofia, que não estava tão distraída quanto parecia, interrompeu o exame do mamão.

"Contou o quê?"

A mãe estendeu a mão sobre a mesa.

"Seu irmão ligou ontem."

"O Gabriel?"

"Ele mesmo."

"Ele vai vir?"

Helena olhou para Dante antes de responder.

"A gente está combinando."

Sofia se ajeitou na cadeira.

"Eu posso mostrar o Bruno pra ele."

Dante tomou um gole de café. Era forte, quente e vinha numa xícara sem o brasão da família.

Fazia anos que não tomava café ali.

Marcos apareceu na porta pouco depois. Esperou que Sofia se concentrasse em separar as sementes restantes da fruta antes de falar.

"Samuel nos recebe às dez. E a manutenção encontrou uma válvula antiga atrás da parede do quarto. O sistema de água quente liga por volta das dez e meia. Vão testar hoje à noite."

Dante assentiu.

"Não concluam antes de ouvir."

"Não vão concluir."

Helena soltou um pouco os ombros, mas continuou sem comer.

Dante apontou a torrada.

"Seu filho respondeu que estava se alimentando. Você ainda não respondeu."

Ela o encarou, surpreendida pela observação, e pegou o pão.

No carro, a luz da manhã mostrou o cansaço que a iluminação do escritório escondera. Helena tinha olheiras profundas e um pequeno corte na lateral do polegar.

Dante reconheceu a marca de uma taça lascada. Já vira funcionários se cortarem com aquelas bordas finas.

"Minha família continuou mandando ajuda depois que meu pai morreu?"

"Havia uma quantia reservada pras despesas do Gabriel. Samuel administrava por meio de um escritório, mas eu falava com uma assistente. Quando ele se aposentou, perdi contato com ele. O dinheiro ajudou durante a infância. Nunca foi uma vida de luxo."

"E por que não falou comigo quando precisou trabalhar aqui?"

Helena olhou pela janela.

"Porque pedir um emprego parecia mais fácil do que pedir que acreditasse numa história que eu escondia havia tantos anos."

Dante não gostou da resposta. Gostou menos ainda de entendê-la.

Samuel morava numa casa térrea, com vasos de manjericão perto da entrada e livros empilhados numa cadeira do corredor. Abriu a porta antes que Marcos tocasse a campainha pela segunda vez.

"Se você continuar crescendo, Dante, vou ter que trocar esse batente."

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"Tenho a mesma altura há vinte anos."

"E eu estou diminuindo. Entre."

O advogado cumprimentou Helena pelo nome, com um aperto de mão demorado. Não tentou abraçá-la. Ela parecia grata por isso.

Na sala, havia uma pasta de couro sobre a mesa.

Samuel serviu café e foi direto ao assunto.

"Gabriel me procurou há três semanas. Encontrou meu nome nos documentos que a tia havia separado. Queria saber quem era o pai. Eu disse o que sabia e procurei os registros antigos."

Helena apertou a alça da bolsa.

"Ele estava muito mal?"

"Estava com raiva. Também estava preocupado com você. Perguntou se eu achava que você tinha passado necessidade por causa dele."

Ela baixou a cabeça.

Dante viu o advogado esperar antes de continuar.

"Eu disse que você tinha feito escolhas difíceis, e algumas escolhas erradas. Ele não gostou de eu falar das difíceis. Precisava que eu admitisse as erradas primeiro."

"E o senhor admitiu?", Dante perguntou.

"Eu participei de algumas. Seria conveniente demais fingir que não."

Samuel abriu a pasta.

Havia cópias de certidões, uma lista de objetos e um envelope menor, amarelado. Sobre ele estava escrito o nome de Gabriel.

"Seu pai deixou isso comigo. Pediu que entregasse quando o menino começasse a fazer perguntas. Não imaginei que demoraria tanto."

Dante recebeu a folha.

A letra inclinada era de Vittorio.

Gabriel,

Seu pai não esqueceu você. Ele falava de um filho que ainda não tinha visto como quem já sentia falta dele. Gostaria que você pudesse conhecê-lo por outras vozes além da minha. Se decidir procurar Dante, confie nele o suficiente para começar uma conversa.

Dante leu de novo, mais devagar.

"Foi disso que o senhor falou na mensagem?"

Samuel assentiu.

"Eu disse a Helena que os Moretti não tinham esquecido Gabriel. Foi uma maneira infeliz de resumir algo que devia ter contado pessoalmente."

Helena passou os dedos pela boca.

"Quando ouvi o sobrenome e o nome dele, achei que tinha acontecido alguma coisa."

"Eu devia ter sido mais claro. Sinto muito."

Dante colocou a folha ao lado da fotografia que levara.

O velho não desviou do seu olhar.

"Seu pai não sabia fazer nada simples. Queria respeitar a vontade de Luca e, ao mesmo tempo, garantir que o neto tivesse ajuda. Criou camadas de silêncio onde bastava uma conversa."

Dante pensou na ligação da noite anterior.

"A carta está aqui?"

"Não. O original de Luca foi colocado num estojo junto com alguns documentos e um relógio. O escritório ainda guarda esse estojo. Tenho a relação dos objetos e a identificação, mas Vittorio deixou uma orientação pessoal numa caixa da casa do lago."

Marcos cruzou os braços.

"Por que não entregar logo o estojo?"

"Podemos fazer isso. Não há impedimento. A caixa não é uma condição legal, Marcos. É só uma coisa que Vittorio esperava que os dois encontrassem juntos."

Dante apreciou a clareza, embora o pai já lhe parecesse complicado o bastante sem novas instruções.

Samuel mostrou uma anotação do inventário: caixa dos meninos, quarto dos fundos, casa do lago.

Dante reconheceu imediatamente.

Uma caixa de madeira com fecho de latão. Luca pintara uma caveira na tampa. Depois, a mãe dos dois exigira que pintasse uma flor por cima.

O resultado parecera uma flor ameaçando morrer.

Dante sentiu o canto da boca se mover.

"Eu sei qual é."

Helena o observou, mas não perguntou.

Samuel retirou outro papel da pasta.

"Há também uma reserva patrimonial para Gabriel. Vou explicar pessoalmente a ele. Não depende de mudar de sobrenome, trabalhar pra família ou ler carta alguma."

Dante assentiu.

"Ele vai precisar ouvir exatamente isso."

Ao se levantarem, Samuel tocou a borda da fotografia.

"Luca me mostrou a primeira imagem do exame da gravidez. Ficou irritado porque eu não conseguia enxergar nada."

Helena soltou uma risada pequena, surpreendida.

"Ele mostrou pro senhor?"

"Mostrou. Disse que o filho parecia um grão de feijão muito promissor."

Dante ouviu Helena rir outra vez, agora com os olhos cheios de lágrimas.

Era um detalhe ridículo.

Justamente por isso, ele acreditou conseguir ver o irmão naquela sala.

Antes de entrar no carro, fotografou a anotação sobre a casa e mandou a Gabriel.

Vou até lá hoje. Se encontrar alguma coisa sua, guardo pra você abrir.

A resposta chegou quando Marcos ligou o motor.

Quero ver o que ele deixou.

Dante olhou pela janela, para a estrada que levava ao norte.

Pela primeira vez em muitos anos, queria voltar à casa do lago.

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