"“Posso Pegar Seu Cachorro Emprestado?” A Filha da Empregada Revelou o Segredo do Chefe da Máfia" Capítulo 4
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A CONVERSA QUE ELE ENSAIOU
"Pode", Dante respondeu.
Houve um clique. Depois, uma respiração curta.
"Eu não quero o seu dinheiro."
A voz era jovem. O jeito de entrar numa conversa atacando antes de ser contrariado era tão parecido com o de Luca que Dante precisou apoiar a mão na mesa.
"Boa noite pra você também, Gabriel."
"Eu não quero emprego nas suas empresas e não vou trocar meu sobrenome. Só preciso deixar isso claro."
Dante olhou para Helena. Ela estava imóvel, com os olhos presos no telefone.
"Eu não ofereci nada disso."
O silêncio do outro lado durou alguns segundos.
"Ainda não."
"Nem pretendo oferecer enquanto você não pedir. Sua mãe está aqui. Samuel disse que você está bem. Está mesmo?"
"Estou. E eu não liguei pra discutir com ela."
Dante encostou na cadeira.
"Então fale comigo."
Gabriel pareceu se afastar de algum barulho. Dante ouviu uma porta fechar.
"O advogado disse que meu pai deixou uma carta. Disse que seu pai sabia de mim. Eu não sei até onde você participou disso."
"Até vinte minutos atrás, eu nem sabia que você existia."
Não houve resposta imediata.
Dante deixou que a frase encontrasse seu lugar.
"Minha mãe nunca contou?"
"Não."
"Você nunca desconfiou?"
"Não."
O rapaz soltou o ar.
"Eu pensei que talvez não quisesse me conhecer."
Dante olhou a fotografia outra vez. De repente, sua própria raiva encontrou um destino diferente.
"Quem disse isso?"
"Ninguém disse exatamente. Mas vocês moravam na mesma cidade. Ela trabalha na sua casa. Eu fiz as contas."
Dante fechou os olhos por um instante.
Entendia aquela conta. Também a teria feito.
"Gabriel, eu teria ido procurar você."
Helena virou o rosto. Ele a viu enxugar uma lágrima com a ponta dos dedos.
"Não sei se teria gostado de me conhecer", Gabriel respondeu.
"Você ainda pode descobrir que não gosta. Até agora só discutiu com um desconhecido pelo telefone."
O rapaz soltou um som breve, quase uma risada.
"Samuel falou que você era difícil."
"Ele tem quase oitenta anos. Acha difícil qualquer pessoa que não aceite uma segunda xícara de café."
Dessa vez Gabriel riu de verdade, mas parou depressa.
Dante não tentou prolongar a brecha.
"Você sabe onde está a carta?"
"Não. Samuel falou de documentos antigos, de uma casa. Eu não entendi direito."
"Vou vê-lo amanhã. Posso descobrir."
"E depois?"
"Depois nós lemos a carta. Se você quiser."
Gabriel demorou.
"Nós?"
"Não conheci seu pai como você vai conhecê-lo. Mas conheci ele. Talvez consiga responder alguma coisa."
Dante percebeu que escolhera as palavras com mais cuidado do que escolhia numa negociação milionária.
Do outro lado, Gabriel respirou fundo.
"Ele sabia que eu ia nascer?"
"Sua mãe disse que sabia."
"É. Ela diz isso."
Helena se levantou, impulsivamente.
"Gabriel, eu nunca menti sobre ele querer você."
O telefone ficou mudo.
Dante olhou para ela. Helena permaneceu de pé, com as mãos abertas junto ao corpo.
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"Eu sei que você está aí", Gabriel falou, mais baixo. "Eu só não consigo conversar sobre tudo agora."
"Eu quero saber se você está se alimentando direito."
A pergunta surpreendeu Dante pela simplicidade.
Gabriel pareceu igualmente desarmado.
"Estou, mãe."
"A Teresa disse que você trabalha até tarde."
"Trabalho num café. Tem comida."
"Você está dormindo?"
"Estou."
Helena sentou-se devagar.
"Está bem."
Ela não voltou a perguntar onde ele morava. Dante viu o esforço que aquilo custou.
Gabriel limpou a garganta.
"Como está a Sofia?"
"Dormindo com um cachorro maior que a cama dela", Dante respondeu.
"O quê?"
"É uma história comprida. Ela está bem. Sua mãe também."
Houve outro silêncio, dessa vez menos hostil.
"Não desconta nela por causa disso", Gabriel disse.
Dante endireitou-se.
"Por causa de quê?"
"Por ela ter escondido. Pelo meu telefonema. Não quero que perca o emprego."
A preocupação, colocada no meio de tanta raiva, atingiu Dante de uma maneira precisa.
Gabriel podia evitar a mãe. Continuava tentando protegê-la.
"Ela não vai perder o emprego."
Helena ergueu os olhos.
"Você garante?"
"Garanto."
O rapaz soltou a respiração.
"Tá."
Dante pegou uma folha e escreveu o próprio número.
"Salve o contato deste telefone. É o meu pessoal. Amanhã eu te digo o que descobri."
"Eu ainda não prometi ir aí."
"Eu ouvi."
"Só quero entender o que aconteceu."
"Eu também."
Depois que desligaram, Helena ficou olhando para a tela apagada.
Dante não se moveu até ela conseguir falar.
"Fazia quatro meses que eu não ouvia ele me chamar de mãe."
Ele recolheu a fotografia e as outras lembranças, juntando tudo com cuidado.
"Vamos devolver isso antes que Sofia ache que eu roubei."
Helena tentou rir, mas o som se desfez.
No corredor da ala de hóspedes, a iluminação era suave. Dona Célia deixou a porta entreaberta quando os viu.
Sofia dormia de lado na cama grande. A almofada estava apertada contra o rosto. Bruno ocupava o tapete ao lado, sobre uma manta dobrada.
"Ela tentou pôr uma fronha nele", a governanta sussurrou. "Disse que faltava cobertor."
Dante olhou para o cachorro.
Bruno ergueu as sobrancelhas, mas não se levantou.
Helena encostou a mão na testa da filha, conferindo uma temperatura que parecia conferir por hábito. Depois puxou o lençol até o ombro pequeno.
Dante colocou as fotos sobre a cômoda, viradas para baixo.
"Amanhã você vem comigo ao advogado."
"Eu preciso avisar a dona Célia sobre o serviço."
A governanta fez um gesto impaciente.
"Helena, eu consigo organizar uma casa por uma manhã sem você."
Dante acrescentou:
"E o jantar foi cancelado."
Dona Célia olhou para ele.
"Os convidados já sabem?"
"Vão saber."
Ela assentiu, recuperando a eficiência habitual.
"Então vou avisar a cozinha antes que descongelem mais alguma coisa."
Quando ficaram sozinhos à porta, Helena segurou o batente.
"Você ficou com muita raiva de mim."
Dante não negou.
"Ainda estou tentando entender."
Ela baixou a cabeça.
Ele observou a menina adormecida, os cachos espalhados pelo travesseiro enorme, a mão ainda próxima do cachorro.
"Mas Gabriel não precisa pagar por isso. Nem Sofia."
Helena o olhou por alguns segundos.
"Obrigada."
Dante deu um passo para sair.
Uma voz sonolenta veio da cama.
"Seu Dante?"
Ele voltou.
Sofia tinha aberto um olho.
"O Bruno pode ficar amanhã também?"
Helena levou a mão à boca, escondendo o sorriso cansado.
Dante olhou o cachorro, que já tornara a deitar a cabeça sobre as patas.
"Amanhã a gente conversa."
Sofia fechou os olhos, satisfeita com o que aparentemente considerava uma vitória.
Mais tarde, de volta ao escritório, o telefone de Dante recebeu uma mensagem de um número novo.
Era uma fotografia de Gabriel diante de uma vitrine de café. Usava um avental cinza e tinha farinha perto do cotovelo.
Embaixo, havia uma frase:
Pra você saber quem está procurando.
Dante ampliou a imagem.
O sorriso torto era do irmão.
Ele ficou olhando até a tela escurecer.
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