"“Posso Pegar Seu Cachorro Emprestado?” A Filha da Empregada Revelou o Segredo do Chefe da Máfia" Capítulo 3
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O FILHO DO MEU IRMÃO
Dante se inclinou sobre a mesa.
"De quem é o filho, Helena?"
Ela não desviou os olhos.
"Do Luca."
A sala pareceu perder o ar.
Dante ouviu a chuva, o mecanismo discreto do relógio e a própria respiração. Por um instante, os sons ficaram muito distantes.
Seu irmão tinha vinte e seis anos quando morreu. A última discussão dos dois fora por uma motocicleta emprestada sem autorização. Dante passara anos tentando lembrar se tinha se despedido dele depois.
Não lembrava.
Agora havia um filho.
"Meu irmão morreu há quase vinte anos."
"Eu estava grávida. Soube antes do acidente. Ele também sabia."
Dante levantou-se tão depressa que a cadeira se afastou da mesa.
Helena recuou os ombros. Ele percebeu, parou e apoiou as mãos no encosto, sem se aproximar dela.
"Vocês estavam juntos?"
"Havia quase dois anos."
"E ninguém me contou?"
"Ele ia contar."
Dante soltou uma risada sem humor.
"É muito conveniente colocar uma explicação na boca de alguém que não está aqui."
Helena empalideceu.
Ele viu o efeito da frase e, mesmo com raiva, soube que havia sido cruel.
Ela levou alguns segundos para responder.
"Eu sei. Por isso trouxe comigo o pouco que ainda tenho dele. Não espero que acredite só porque estou falando."
Abriu a pequena bolsa que carregava e retirou um envelope gasto. Dentro havia duas fotos e um cartão de aniversário.
Luca aparecia numa cozinha estreita, com farinha na camisa. Na outra imagem, ele estava sentado no chão, cercado por livros. Não olhava para a câmera. Ria de alguma coisa fora do enquadramento.
Dante reconheceu aquele riso antes de examinar o cartão.
A letra era do irmão.
Para a mulher que me faz atravessar a cidade por um café ruim. Feliz aniversário. Prometo continuar reclamando.
Dante pousou o cartão.
"Onde vocês se conheceram?"
"Eu trabalhava numa livraria. Ele queria levar um livro estragado só pra não ter que esperar eu procurar outro. Eu disse que ter dinheiro não era motivo pra jogar dinheiro fora."
Uma lembrança se encaixou: Luca entrando em casa com um romance que jamais admitiria ter comprado por vontade própria.
Dante puxou a cadeira de volta.
"Ele te amava?"
Helena o olhou com surpresa.
"Eu acredito que sim."
"Não foi o que perguntei."
"Sim. Ele me amava. E eu amava ele."
Dante baixou os olhos para as fotografias.
Durante anos, imaginara todos os futuros que o irmão perdera. Não imaginara que parte de um deles já existia.
"Por que não me procurou depois do acidente?"
"Eu nem sabia como chegar até você. Quando descobri a gravidez, Luca disse que ia conversar com o pai. Depois ele morreu. Eu estava com medo, sem conseguir dormir, e não sabia se alguém ia acreditar em mim."
"Meu pai acreditou."
"Seu irmão tinha escrito pra ele. Vittorio apareceu na padaria onde eu estava trabalhando depois que a livraria fechou. Perguntou se Luca sabia do bebê. Quando respondi que sim, ele pediu pra sentar."
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Helena olhou para a janela.
"Eu achei que fosse mandar eu sumir. Ele chorou."
Dante ficou em silêncio.
Seu pai não chorara diante dele no enterro. Durante semanas, apenas trancara a porta do escritório por períodos cada vez mais longos.
"Ele me ajudou com um lugar pra morar. Com o parto. Disse que Luca tinha pedido que o filho pudesse escolher uma vida longe das obrigações da família. Eu aceitei."
"Inclusive longe de mim."
"Inclusive."
Não houve tentativa de suavizar aquilo.
Dante esfregou o polegar na quina do cartão.
"E vocês decidiram que eu não seria capaz de amar meu sobrinho sem mandar na vida dele?"
Helena ficou muito quieta.
"Eu tinha vinte e um anos quando fiquei grávida. Seu pai chegou com uma solução pra todos os meus medos. Não estou dizendo que foi certo. Estou dizendo como aconteceu."
Ele queria continuar zangado de uma forma simples. A explicação dela tornava isso mais difícil.
"Onde Gabriel cresceu?"
"Em Curitiba. Primeiro comigo. Quando ele tinha quatro anos, precisei de uma cirurgia e fui ficar com minha irmã, Teresa. Ela me ajudou. Eu acabei voltando a São Paulo pra trabalhar, e ele ficou com ela durante o período escolar. Eu visitava sempre que conseguia."
Dante ergueu os olhos.
"Ele sabia que você era a mãe?"
"Claro que sabia. Nunca escondi isso. Nós conversávamos, passávamos férias juntos. O que eu escondi foi o nome do pai."
"Disse o quê?"
"Que ele tinha morrido antes de Gabriel nascer. Que se chamava Luca. Evitei o sobrenome durante anos."
"Até quando?"
"Até ele encontrar uma fotografia e começar a perguntar coisas que eu não consegui mais contornar. Tinha dezessete anos."
Dante passou a mão pelo rosto.
"Ele ficou com raiva."
"Ficou. Depois pareceu melhorar. Entrou na faculdade de arquitetura, em Campinas. A gente conversava quase toda semana. Há quatro meses, me disse que tinha trancado o curso e precisava ficar longe das minhas explicações por um tempo."
A voz dela falhou.
"Desde então, mandou duas mensagens dizendo que estava bem. Atende minha irmã de vez em quando. Pra mim, não atende."
"E Sofia?"
"Sabe que tem um irmão que mora longe. Ele a viu algumas vezes, mas ela era muito pequena. O pai dela saiu da nossa vida quando ela ainda era bebê. Não tem relação nenhuma com a sua família."
Dante assentiu, absorvendo as peças.
"Por que a mensagem de ontem fez você chorar?"
Helena demorou antes de responder.
"Um homem disse que tinha recebido notícias de Gabriel. Falou que os Moretti não tinham esquecido dele. Pediu que eu ligasse para Samuel de Luca."
Dante conhecia o nome. Um advogado antigo do pai.
"Você ligou?"
"Liguei hoje à tarde. A secretária disse que ele estava fora e retornaria. Eu não consegui esperar no telefone. Precisava terminar as coisas do jantar."
Dante encarou-a.
Ela entendeu antes que ele falasse.
"Eu devia ter procurado você."
"Devia."
O telefone dele vibrou. Era Marcos, avisando que não encontrara sinal de entrada irregular. A manutenção examinaria a tubulação pela manhã. Havia uma ligação registrada na administração no horário citado por Helena.
Dante pediu que localizasse Samuel.
Depois deixou o celular entre os dois.
"Você falou numa carta."
Helena assentiu.
"Vittorio me disse que Luca tinha deixado uma carta para o filho. Eu pedi pra ver uma vez. Ele respondeu que Gabriel devia ser o primeiro a ler. Depois Vittorio morreu, e eu nunca mais soube da carta."
"Por que não perguntou ao advogado antes?"
"Eu só consegui o nome dele recentemente, com documentos antigos que Teresa encontrou. Não sabia se ainda estava vivo."
Dante olhou para a foto do bebê.
Pela primeira vez, tentou imaginar aquele rosto dezenove anos depois.
O celular tocou.
Marcos estava na linha, mas outra voz veio em seguida, rouca e envelhecida.
"Dante? Samuel de Luca. Preciso saber se Helena está com você."
"Está."
"Então diga que o filho está bem. Falei com ele hoje."
Helena cobriu a boca.
Dante apertou o telefone.
"Ele sabe quem eu sou?"
"Sabe. E tem uma coisa que quer dizer pessoalmente a você. Ele está aguardando na outra linha. Posso colocar os dois em contato?"
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