"MENINA DÁ METADE DO LANCHE A UM MENINO SEM-TETO... 25 ANOS DEPOIS, ELE VOLTA MILIONÁRIO" Capítulo 4
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Gabriel chegou ao Hotel Almeida Jardins quinze minutos antes do horário marcado.
Não costumava fazer isso.
Mas naquela manhã, pela primeira vez em anos, ele precisava de alguns minutos para controlar o que sentia antes de entrar numa reunião.
Do lado de fora, a fachada do hotel ainda transmitia a imagem de luxo que fizera o nome da família Almeida.
Portas de vidro altas.
Arranjos de flores naturais.
Manobristas de terno escuro.
Tudo parecia impecável.
Só quem conhecia os números sabia que o prédio estava afundando.
Bruno caminhava ao lado dele.
"Você está estranho."
Gabriel não olhou.
"Estou trabalhando."
"Você leu o mesmo relatório quatro vezes no carro."
Gabriel apertou o botão do elevador.
"Talvez o relatório fosse ruim."
"Ou talvez o sobrenome Almeida esteja te incomodando."
A porta abriu.
Gabriel entrou.
"Bruno."
"Entendi."
Bruno ergueu as mãos.
"Assunto proibido."
No décimo segundo andar, uma assistente os conduziu até a sala de reuniões.
Gabriel escolheu a cadeira de frente para a porta.
Colocou a pasta sobre a mesa.
Tentou se concentrar nos números.
Dívida bancária.
Contratos.
Ocupação.
Margem operacional.
Nada funcionou.
Porque, atrás de cada linha, havia um nome.
Valentina Almeida.
Ele não sabia como ela estaria.
Não sabia se ainda teria o mesmo jeito de franzir a testa quando discordava de alguém.
Não sabia se lembrava dele.
Não sabia sequer se a memória daquele menino existia na vida dela.
A maçaneta girou.
Gabriel levantou os olhos.
E o tempo pareceu recuar vinte e cinco anos.
Valentina entrou na sala carregando uma pasta de documentos.
Os cabelos agora caíam abaixo dos ombros.
Ela usava um conjunto claro, discreto, muito diferente da ostentação que Gabriel associava a certas famílias tradicionais de São Paulo.
O rosto estava mais maduro.
Mais cansado.
Mas os olhos eram os mesmos.
Gabriel reconheceu aqueles olhos antes de qualquer outra coisa.
Valentina se aproximou.
"Senhor Ferraz?"
Ele demorou um segundo a mais do que deveria.
"Sim."
Ela estendeu a mão.
"Valentina Almeida. Obrigada por ter vindo."
Gabriel olhou para a mão dela.
Aquela mesma mão, um dia, atravessara barras de ferro para lhe entregar comida.
Ele apertou seus dedos.
"Prazer."
Valentina sorriu de maneira profissional.
"Prazer é meu."
Só isso.
Nenhum susto.
Nenhuma hesitação.
Nenhum reconhecimento.
Gabriel soltou a mão dela.
Algo pesado se acomodou dentro do peito.
Vinte e cinco anos carregando uma pulseira.
E, diante dela, ele era apenas um investidor.
Bruno percebeu a mudança no rosto do chefe.
Não disse nada.
Poucos minutos depois, Augusto Montenegro entrou na sala.
Sem pedir licença, beijou Valentina no rosto.
"Desculpa o atraso."
Ela recuou discretamente.
"Já íamos começar."
Augusto olhou para Gabriel.
"Gabriel Ferraz."
"Augusto Montenegro."
Os dois apertaram as mãos.
O aperto durou tempo demais.
Augusto sorriu primeiro.
"Ouvi bastante sobre você."
Gabriel sentou-se.
"Espero que nem tudo."
Augusto riu.
"Gostei."
Valentina abriu a apresentação.
"Se todos concordarem, eu gostaria de começar pela situação atual do hotel."
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Ela projetou os dados financeiros.
Falou sobre ocupação.
Sobre o reposicionamento da marca.
Sobre contratos que poderiam ser renegociados.
Sobre a possibilidade de vender ativos secundários sem comprometer a operação principal.
Gabriel prestava atenção.
Valentina sabia do que estava falando.
Não parecia uma herdeira tentando repetir palavras de consultores.
Ela conhecia os detalhes.
Sabia quais suítes davam mais margem.
Sabia quais restaurantes internos estavam gerando prejuízo.
Sabia quais contratos eram perigosos.
Augusto interrompeu pela primeira vez.
"Essa parte pode pular."
Valentina olhou para ele.
"Por quê?"
"Porque não é relevante para o investidor."
Gabriel apoiou os dedos sobre a mesa.
"Eu considero relevante."
Augusto se virou.
"Claro. Eu só quis dizer que esses detalhes operacionais podem ser cansativos."
Valentina fechou a expressão.
"São justamente os detalhes que explicam por que o hotel ainda tem valor."
Augusto sorriu como quem tolerava uma criança teimosa.
"Valentina gosta de entrar muito fundo na operação."
Ela respirou fundo.
Gabriel percebeu.
Não era a primeira vez que ele falava com ela daquele jeito.
Valentina continuou.
"Nos últimos dezoito meses, reduzimos despesas em doze por cento sem cortar equipe fixa."
Augusto mexeu no celular.
"Porque eu recomendei."
Ela parou.
"Você recomendou demissões."
"Que teriam reduzido ainda mais."
"E destruído o serviço."
Augusto olhou para Gabriel.
"Ela tem dificuldade de tomar decisões impopulares."
Gabriel não gostou do tom.
"Ou talvez ela apenas entenda o produto melhor do que você."
A sala ficou em silêncio.
Augusto soltou uma risada curta.
"Talvez."
Valentina evitou olhar para Gabriel.
Mas um pequeno movimento no canto da boca denunciou surpresa.
A reunião prosseguiu.
Quanto mais Valentina falava, mais Gabriel percebia que o problema do grupo não parecia nascer apenas de incompetência.
Havia contratos ruins demais.
Taxas altas demais.
Fornecedores caros demais.
E decisões aprovadas em momentos estranhamente convenientes.
Gabriel fez uma pergunta.
"Quem trouxe o fundo que refinanciou a dívida há dois anos?"
Valentina abriu um arquivo.
"Montenegro Capital."
Augusto respondeu antes dela.
"Uma operação de mercado."
Gabriel folheou o relatório.
"Com juros acima da média."
"Risco alto."
"Com garantia sobre dois hotéis."
"É padrão."
Gabriel levantou os olhos.
"Não é."
Augusto se inclinou para trás.
"Você discorda?"
"Eu conheço o mercado."
"Eu também."
Gabriel fechou o documento.
"Então você sabia exatamente o que estava oferecendo."
Valentina olhou de um para o outro.
Augusto sorriu.
"Estamos aqui para falar do futuro, não do passado."
Gabriel respondeu:
"Às vezes o passado explica melhor o futuro."
Valentina ficou imóvel por um segundo.
A frase atingiu alguma coisa nela.
Mas passou rápido.
A reunião terminou perto do meio-dia.
Uma assistente entrou para perguntar se deveriam servir o almoço.
Valentina respondeu:
"Pode trazer."
Augusto levantou.
"Tenho uma ligação."
Ele saiu da sala.
Bruno fez o mesmo poucos minutos depois, alegando precisar conferir uma projeção com a equipe.
Gabriel percebeu tarde demais que estava sozinho com Valentina.
Ela parecia cansada.
Soltou os ombros e fechou o notebook.
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"Desculpe pelo clima."
Gabriel a observou.
"Você não precisa pedir desculpas pelo comportamento dos outros."
Valentina sorriu sem humor.
"Em empresa familiar, a gente acaba se acostumando."
"Ele faz isso sempre?"
Ela entendeu de quem Gabriel falava.
"Augusto tem um jeito difícil."
"Chamar você de incapaz na frente de um investidor é só um jeito difícil?"
Valentina ergueu os olhos.
"Ele não me chamou de incapaz."
"Não com essa palavra."
Ela ficou em silêncio.
A assistente entrou com uma bandeja.
Sanduíches.
Salada.
Café.
Sucos.
Gabriel sentiu o estômago apertar ao ver aquilo.
Valentina agradeceu.
Pegou um sanduíche de peito de peru.
Gabriel não tocou no próprio prato.
Ela percebeu.
"Não está com fome?"
"Não muito."
"Eu gostaria de ter esse problema."
Ela tentou brincar.
Gabriel quase sorriu.
Valentina deu duas mordidas no sanduíche.
Depois recebeu uma mensagem no celular.
Seu rosto mudou.
Gabriel notou.
"Problema?"
"Meu pai."
"O que aconteceu?"
"Pressão alta de novo."
Ela digitou uma resposta rápida.
"Ele insiste em acompanhar tudo de casa."
"Você deveria ir."
"Se eu sair toda vez que alguma coisa acontecer, não vou conseguir salvar esta empresa."
A voz dela falhou no final.
Valentina abaixou os olhos.
Parecia irritada consigo mesma por demonstrar fragilidade.
Gabriel queria dizer que ela não precisava provar nada para ele.
Queria dizer que já a tinha visto forte muito antes de qualquer hotel existir na vida dele.
Mas permaneceu calado.
Valentina largou o sanduíche.
Depois, sem perceber, puxou uma faca de mesa.
Cortou o restante exatamente ao meio.
Gabriel parou de respirar por um segundo.
Ela colocou uma metade de lado.
A outra ficou no prato.
Um gesto pequeno.
Automático.
Antigo.
Gabriel olhou para aquilo como se estivesse diante de uma lembrança materializada.
A grade.
O jardim.
A voz de uma menina.
"Come rápido… antes que o segurança veja."
Valentina percebeu o olhar.
"Algum problema?"
Gabriel não respondeu.
Ela tocou o próprio rosto.
"Estou com alguma coisa aqui?"
Ele continuava olhando para o sanduíche.
Valentina baixou os olhos.
Depois tornou a encará-lo.
"Senhor Ferraz… está tudo bem?"
Gabriel finalmente levantou o rosto.
Por alguns segundos, não viu a mulher diante dele.
Viu a menina de nove anos parada atrás de um portão de ferro.
A única pessoa que, naquela época, olhava para ele sem nojo.
Sem medo.
Sem pena.
Gabriel falou baixo.
"Você ainda divide o sanduíche ao meio."
O sorriso de Valentina desapareceu.
A mão dela parou sobre a mesa.
E, pela primeira vez desde que entrara naquela sala, ela realmente olhou para ele.
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