"MENINA DÁ METADE DO LANCHE A UM MENINO SEM-TETO... 25 ANOS DEPOIS, ELE VOLTA MILIONÁRIO" Capítulo 3
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Vinte e cinco anos depois, Gabriel Costa Ferraz desceu de um carro preto diante de um edifício de vidro na Avenida Faria Lima.
Não havia mais tênis rasgados.
Não havia mais fome.
Não havia mais ninguém mandando que ele saísse da calçada.
Gabriel tinha trinta e quatro anos.
Usava um terno escuro sob medida, um relógio discreto e carregava no rosto a expressão de quem aprendera cedo demais a não depender da boa vontade de ninguém.
Na portaria, os funcionários se levantaram quando ele entrou.
"Bom dia, senhor Ferraz."
Gabriel apenas assentiu.
No elevador privativo, Bruno Tavares apertou o botão do último andar e olhou para o chefe.
"Você ainda pode mudar de ideia."
Gabriel arqueou uma sobrancelha.
"Sobre o quê?"
"Sobre transferir metade da operação para São Paulo."
"As equipes já começaram a mudança."
"Eu sei. É justamente por isso que estou perguntando."
Gabriel ficou em silêncio.
Bruno trabalhava com ele havia mais de dez anos.
Conhecia suas decisões rápidas.
Conhecia seu jeito de analisar contratos.
Conhecia até o silêncio que antecedia uma compra milionária.
Mas havia algo naquela mudança que não parecia comercial.
"Curitiba sempre funcionou", continuou Bruno. "A holding está organizada lá. O custo é menor. E você passou anos dizendo que não queria transformar a empresa num circo da Faria Lima."
Gabriel olhou para o painel do elevador.
"Eu mudei de ideia."
"Você nunca muda de ideia sem motivo."
A porta se abriu.
Gabriel saiu.
"Então tente aproveitar a novidade."
Bruno soltou uma risada curta.
"Você continua péssimo em responder perguntas."
O novo escritório ocupava quase todo o último andar.
De um lado, era possível ver parte da Marginal Pinheiros.
Do outro, os prédios se espalhavam pelo horizonte de São Paulo.
Gabriel caminhou até a janela.
Por alguns segundos, não enxergou prédios.
Enxergou grades de ferro.
Uma lancheira.
Uma fita azul.
E uma menina de nove anos partindo um sanduíche ao meio.
A lembrança desapareceu quando Bruno colocou uma pasta sobre a mesa.
"Temos três oportunidades de aquisição."
Gabriel voltou ao presente.
"Quais?"
"Uma rede pequena de hotéis executivos, dois terrenos em expansão na zona oeste e um hotel de luxo nos Jardins."
"Começamos pelo hotel."
Bruno abriu um sorriso.
"Imaginei."
Gabriel sentou-se.
A mesa diante dele valia mais do que tudo o que conhecera na infância.
Mas o caminho até ali não tinha sido simples.
Eduardo e Lúcia Ferraz lhe deram uma casa.
Deram escola.
Deram segurança.
Deram a ele algo que, durante anos, pareceu impossível: a certeza de que haveria comida no dia seguinte.
Mas não lhe deram uma fortuna pronta.
Eduardo tinha uma empresa média de distribuição em Curitiba.
Trabalhava muito.
Vivia bem.
Nunca foi bilionário.
Gabriel começou ajudando no estoque durante as férias da escola.
Aos dezessete, conhecia rotas de entrega, margens de transporte e custos de armazenagem melhor do que muitos funcionários antigos.
Aos vinte, percebeu que hotéis pagavam caro por fornecedores mal organizados.
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Criou uma pequena operação de abastecimento para pousadas e hotéis do Paraná.
No começo, tinha três funcionários.
Depois vinte.
Depois mais de cem.
Expandiu para Santa Catarina.
Entrou em São Paulo.
Comprou um centro de distribuição.
Depois outro.
Aos vinte e oito anos, vendeu parte da operação logística e usou o dinheiro para comprar imóveis comerciais desvalorizados.
Dois anos depois, entrou no setor hoteleiro.
A Ferraz Participações cresceu rápido.
Muito rápido.
Uma revista de negócios havia estimado, poucos meses antes, que o patrimônio pessoal de Gabriel ultrapassava novecentos e cinquenta milhões de reais.
Ele odiou a matéria.
Bruno adorou.
"Você ficou bonito na capa."
Gabriel nem levantou os olhos do relatório.
"Apaga essa frase da sua memória."
"Impossível."
Bruno sentou-se diante dele.
"Falando sério. São Paulo significa o quê para você?"
Gabriel fechou a pasta.
"Negócios."
"Você pode mentir para jornalista."
Bruno apontou para si mesmo.
"Para mim dá mais trabalho."
Gabriel olhou para ele.
"Então não pergunte."
Bruno ergueu as mãos.
"Entendido."
Depois que ele saiu, Gabriel ficou sozinho.
Abriu a gaveta inferior da mesa.
Dentro havia uma pequena caixa de madeira.
Ele a abriu.
A pulseira de prata continuava ali.
O metal já não brilhava como antes.
Gabriel passou o polegar sobre ela.
Vinte e cinco anos.
Nunca a vendera.
Nunca a perdera.
Nunca a mostrara a ninguém.
Nem mesmo Lúcia sabia que ele ainda guardava aquele objeto.
Gabriel fechou a caixa e tornou a guardar tudo.
Naquele mesmo dia, a poucos quilômetros dali, Valentina Almeida estava diante de uma mesa coberta por contas atrasadas.
A vida havia seguido na direção oposta.
O Hotel Almeida Jardins ainda mantinha os lustres impecáveis, os mármores polidos e os funcionários uniformizados.
Mas, por trás da recepção elegante, a situação era quase insustentável.
Valentina passou os olhos por uma planilha.
"Isso está errado."
Mariana Ribeiro, sua amiga e advogada, puxou outra cadeira.
"Eu já conferi três vezes."
"Não pode estar certo."
"Está."
Valentina empurrou os documentos.
"Se pagarmos os fornecedores, atrasamos a folha."
"Se pagarmos a folha, o banco bloqueia a próxima parcela."
"Então renegociamos."
Mariana respirou fundo.
"Já renegociamos."
Valentina fechou os olhos.
Durante décadas, Grupo Almeida havia sido sinônimo de estabilidade.
Henrique Almeida construíra a rede com obsessão.
Hotéis em São Paulo.
Restaurantes em Campinas.
Uma unidade de luxo no Rio de Janeiro.
Outra em Belo Horizonte.
Mas nos últimos três anos, tudo começou a desandar.
Custos aumentaram.
Dívidas apareceram.
Contratos ruins foram assinados.
Fornecedores passaram a cobrar valores que ninguém conseguia explicar.
Henrique insistia que era apenas uma fase.
Até desmaiar no escritório durante uma reunião.
Desde então, Valentina tentava impedir que o império do pai desmoronasse.
O celular tocou.
Ela olhou para a tela.
Augusto Montenegro.
Mariana viu o nome.
"Vai atender?"
"Tenho escolha?"
Valentina aceitou.
"Oi."
A voz de Augusto veio calma.
"Você almoçou?"
"Augusto, não agora."
"Estou preocupado com você."
"Então me deixe trabalhar."
"Eu posso resolver esse problema."
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Valentina apertou a caneta.
"Já falamos sobre isso."
"Não. Você falou. Eu tentei apresentar uma solução."
"Sua solução exige que minha família entregue quarenta por cento do grupo para sua holding."
"Trinta e cinco."
"Que diferença generosa."
Augusto soltou um suspiro.
"Valentina, você está emocional."
"Estou vendo a empresa do meu pai desaparecer. Desculpa se não consigo tratar isso como uma partida de golfe."
"É exatamente por isso que você precisa de alguém pensando com frieza."
Valentina ficou em silêncio.
Augusto continuou:
"Eu entro com capital. Reestruturo a dívida. Seguro os bancos. Seu pai mantém o nome."
"E você fica com o controle."
"Eu fico com poder suficiente para impedir novos erros."
Valentina apertou os dentes.
"Erros de quem?"
"Não comece."
"Foi você quem trouxe dois desses fundos."
"Na época eram boas opções."
"Na época você disse que eram excelentes."
Augusto mudou o tom.
"Valentina."
"Preciso desligar."
"Hoje à noite vou passar aí."
"Não precisa."
"Sou seu noivo."
"Justamente por isso deveria ouvir quando eu digo que não preciso."
Ela desligou.
Mariana permaneceu calada por alguns segundos.
"Vocês vão mesmo casar?"
Valentina soltou uma risada amarga.
"Ótima hora para perguntar."
"É uma ótima hora porque ele está usando o caos para entrar na empresa."
Valentina levantou.
"Augusto ajudou quando meu pai ficou doente."
"Ele ajudou ou se posicionou?"
Valentina virou-se.
"Mariana."
"Eu só estou dizendo para você prestar atenção."
Antes que Valentina respondesse, a porta abriu.
Henrique entrou devagar, apoiado numa bengala.
O rosto estava mais magro.
"Pai, você devia estar em casa."
"Minha empresa está quebrando e você quer que eu fique vendo televisão?"
Valentina se aproximou.
"Você quase teve outro pico de pressão ontem."
Henrique ignorou.
"Conseguiu falar com o banco?"
"Sim."
"E?"
Valentina não respondeu.
Henrique entendeu.
Sentou-se.
Por alguns segundos, o homem que sempre parecera impossível de derrubar ficou pequeno diante dela.
"Quantos dias?"
Mariana respondeu:
"Se nada mudar, menos de trinta."
Henrique abaixou a cabeça.
Valentina nunca o tinha visto daquele jeito.
"Vamos encontrar uma saída."
Henrique riu sem humor.
"Eu passei quarenta anos construindo isso."
"Então não vai acabar agora."
"Você não sabe."
"Eu vou impedir."
Ele levantou os olhos para a filha.
"Como?"
Valentina não tinha resposta.
Naquela noite, Augusto apareceu mesmo assim.
Entrou no apartamento de Valentina nos Jardins com uma garrafa de vinho e uma nova proposta impressa.
Ela nem tocou na taça.
"Você disse que vinha conversar."
"É o que estou fazendo."
"Isso é um contrato."
"Uma solução."
Valentina leu as primeiras páginas.
Seu rosto mudou.
"Você aumentou a participação."
Augusto encostou-se no sofá.
"O risco aumentou."
"Quarenta e cinco por cento?"
"É temporário."
"Você quer direito de veto sobre vendas, investimentos e nomeações."
"Quero garantir que o dinheiro não seja desperdiçado."
Valentina fechou a pasta com força.
"Não."
Augusto a encarou.
"Não?"
"Não vou entregar minha família para você."
Ele sorriu de leve.
"Então entregue para os bancos."
Valentina ficou imóvel.
Augusto se aproximou.
"Você ainda não entendeu a situação."
"Entendo melhor do que você imagina."
"Não. Você está tentando salvar um prédio pegando fogo com um copo d'água."
"Saia."
"Valentina."
"Saia da minha casa."
Augusto a observou por alguns segundos.
Depois pegou a pasta.
"Quando tiver que vender o primeiro hotel, você vai lembrar dessa conversa."
Ele caminhou até a porta.
Antes de sair, virou-se.
"E quando isso acontecer, minha proposta não será a mesma."
Valentina permaneceu parada até ouvir a porta fechar.
Só então percebeu que suas mãos tremiam.
Na manhã seguinte, Bruno entrou na sala de Gabriel com uma pasta marcada como confidencial.
"Temos um ativo interessante."
Gabriel continuou assinando um documento.
"Quanto?"
"Depende de quanto você considera interessante perder antes de recuperar."
Gabriel levantou os olhos.
Bruno colocou a pasta diante dele.
"Hotel de luxo. Localização excelente. Marca tradicional. Dívida alta. Gestão familiar."
Gabriel abriu.
"Preço?"
"Se entrar agora, conseguimos assumir parte da dívida e negociar participação relevante."
Gabriel passou as páginas.
Fotografias.
Avaliações.
Contratos.
Relatórios financeiros.
Então parou.
Na última folha havia a identificação da controladora.
Grupo Almeida de Hotéis e Restaurantes S.A.
Gabriel sentiu o corpo inteiro ficar imóvel.
Bruno percebeu.
"Você conhece?"
Gabriel não respondeu.
Virou a página.
Ali estava o nome da responsável atual pelas negociações.
Valentina Helena Almeida.
Vinte e cinco anos depois, Gabriel leu aquele nome outra vez.
A mão que segurava a caneta parou sobre o papel.
Bruno franziu a testa.
"Gabriel?"
Ele continuou olhando para o nome.
Então fechou a pasta devagar.
"Marque uma reunião."
"Com quem?"
Gabriel ergueu os olhos.
"Com Valentina Almeida."
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