"MENINA DÁ METADE DO LANCHE A UM MENINO SEM-TETO... 25 ANOS DEPOIS, ELE VOLTA MILIONÁRIO" Capítulo 2
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Nos dias seguintes, Gabriel voltou a dormir perto do Mercado Municipal.
O portão do Colégio São Bento já não fazia parte do caminho dele.
Pela primeira vez em semanas, o meio-dia voltou a ser apenas a hora em que a fome apertava mais.
Sem Valentina, Gabriel tentava conseguir algum trocado carregando caixas no Brás ou ajudando feirantes a empurrar carrinhos.
Nem sempre dava certo.
Em alguns dias, recebia duas moedas.
Em outros, apenas um grito para sair dali.
Numa tarde, depois de passar horas sem comer, ele se sentou perto de uma marquise e encostou a cabeça na parede.
Foi quando uma mulher de colete azul parou diante dele.
"Qual é o seu nome?"
Gabriel não respondeu.
Já tinha aprendido a desconfiar de adultos gentis demais.
A mulher se agachou, mantendo certa distância.
"Eu sou Renata. Trabalho com um projeto de acolhimento."
Gabriel apertou os joelhos contra o peito.
"Eu não roubei nada."
"Eu não disse que roubou."
"Então por que está falando comigo?"
Renata respirou fundo.
"Porque você é uma criança e não deveria estar dormindo na rua."
Gabriel riu sem humor.
"Isso eu já sei."
A resposta surpreendeu a mulher.
Renata voltou no dia seguinte.
Depois no outro.
Não levou policiais.
Não tentou agarrá-lo.
Levou comida, conversou e perguntou se ele gostaria de tomar banho, dormir numa cama e talvez voltar a estudar.
Gabriel recusou duas vezes.
Na terceira, aceitou.
Foi levado para uma casa de acolhimento na zona norte de São Paulo.
Ali havia outras crianças.
Algumas falavam muito.
Outras não falavam quase nada.
Gabriel continuou desconfiado.
Dormia com os tênis ao lado da cama e escondia pedaços de pão debaixo do travesseiro.
Uma cuidadora encontrou a comida certa noite.
"Gabriel, você pode comer quando quiser."
Ele não acreditou.
"Mesmo amanhã?"
"Mesmo amanhã."
Ele ficou olhando para ela.
"Tem certeza?"
"Tenho."
Gabriel demorou semanas para parar de guardar comida.
Foi nesse período que Renata apareceu com uma notícia.
"Uma família quer conhecer você."
Gabriel fechou o rosto.
"Por quê?"
"Porque eles estão habilitados para adoção."
"Eu não quero."
Renata puxou uma cadeira.
"Você nem conhece eles ainda."
"Não importa."
"Por que não?"
Gabriel olhou para a janela.
"Porque depois eles podem desistir."
Renata ficou em silêncio.
"Quem falou isso para você?"
"Ninguém."
Mas alguém já tinha desistido antes.
Ou, pelo menos, era isso que ele acreditava ter acontecido.
Ele ainda pensava em Valentina.
Ainda pensava no portão fechado.
Ainda pensava que talvez tivesse feito alguma coisa errada.
Dois dias depois, Eduardo e Lúcia Ferraz chegaram de Curitiba.
Eduardo tinha pouco mais de quarenta anos, trabalhava no setor de distribuição de alimentos e falava de maneira direta.
Lúcia era professora e tinha um jeito calmo que deixava Gabriel ainda mais desconfiado.
Eles não chegaram com presentes caros.
Não fizeram perguntas sobre as notas que ele nunca teve.
Não perguntaram se ele era obediente.
Lúcia apenas colocou um livro infantil sobre a mesa.
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"Você gosta de histórias?"
Gabriel respondeu:
"Não sei ler direito."
Ela sorriu.
"Então a gente lê junto."
Gabriel olhou para Eduardo.
"E você?"
"Eu faço café muito ruim."
Gabriel franziu a testa.
Eduardo completou:
"Mas dizem que meu pão na chapa é aceitável."
Gabriel quase sorriu.
Nos encontros seguintes, eles voltaram.
E voltaram de novo.
Eduardo falou sobre Curitiba, sobre o frio, sobre parques e sobre a casa onde moravam no bairro do Batel.
Lúcia explicou que Gabriel teria um quarto.
"Um quarto só meu?"
"Seu."
"Com porta?"
"Com porta."
"Eu posso fechar?"
"Pode."
Gabriel olhou para Renata.
"É verdade?"
Renata assentiu.
Pela primeira vez, ele pareceu considerar a ideia.
O processo avançou.
Houve entrevistas.
Documentos.
Visitas técnicas.
Gabriel não entendia metade daquilo.
Só sabia que um dia Renata entrou na sala com um sorriso diferente.
"Deu certo."
Ele ficou parado.
"O quê?"
"Você vai para Curitiba com Eduardo e Lúcia."
Gabriel não respondeu.
Renata esperou uma reação.
"Gabriel?"
"Quando?"
"Na sexta-feira."
Ele levantou de repente.
"Eu não posso."
Renata se assustou.
"Por quê?"
"Eu preciso fazer uma coisa antes."
"Que coisa?"
Gabriel apertou a fita azul ainda presa ao pulso.
"Eu preciso encontrar uma pessoa."
Renata percebeu na mesma hora.
"A menina?"
Gabriel assentiu.
"Valentina."
Ele tinha tentado descobrir onde ela estudava.
Perguntou a antigos funcionários.
Perguntou a um vendedor perto do colégio.
Ninguém sabia.
Foi Renata quem conseguiu a informação.
Valentina havia sido transferida para um colégio particular em Higienópolis.
Gabriel memorizou o endereço.
Na sexta-feira de manhã, antes da viagem, Eduardo perguntou:
"Você tem certeza que precisa ir?"
Gabriel respondeu sem hesitar.
"Tenho."
Eduardo olhou para Lúcia.
Ela apenas disse:
"Então vamos."
O carro parou duas ruas antes da escola.
Gabriel pediu para esperar sozinho.
Às onze e meia, ficou diante do portão.
Ao meio-dia, alguns alunos saíram.
Valentina não apareceu.
À uma da tarde, nada.
Às duas, Eduardo se aproximou.
"Gabriel, precisamos pegar a estrada."
"Mais um pouco."
Eduardo observou o menino.
"Quanto?"
Gabriel olhou para a escola.
"Até ela sair."
Quase três horas depois, o portão finalmente se abriu para a saída de algumas turmas.
Gabriel levantou de um salto.
Crianças passaram por ele.
Uniformes impecáveis.
Mochilas.
Pais.
Motoristas.
Então ele viu uma fita branca presa nos cabelos de uma menina.
"Valentina!"
Ela parou.
Virou-se.
Os olhos se arregalaram.
"Gabriel?"
Ela correu.
Gabriel correu também.
Pararam um diante do outro, ofegantes.
Valentina olhou para o rosto dele como se quisesse ter certeza de que era real.
"Você sumiu."
Gabriel franziu a testa.
"Eu?"
"Eu fui procurar você."
"Eu também procurei você."
Os dois ficaram em silêncio.
Valentina foi a primeira a entender.
"Meu pai me tirou de lá."
"Eu sei."
"Como você achou minha escola?"
"Uma moça me ajudou."
Valentina percebeu o carro parado mais atrás.
"Quem são eles?"
Gabriel olhou por cima do ombro.
"Eu preciso ir embora."
O sorriso dela desapareceu.
"Para onde?"
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"Curitiba."
"Por quê?"
Gabriel respirou fundo.
"Uma família vai me adotar."
Valentina não disse nada.
"Adotar?"
"Eu vou morar com eles."
"Para sempre?"
Gabriel hesitou.
"Acho que sim."
Os olhos de Valentina se encheram de lágrimas.
"Mas você vai voltar?"
Gabriel não sabia.
Nunca tinha ido a Curitiba.
Nem sabia como era ficar dentro de uma família.
Não sabia se teria dinheiro para uma passagem.
Não sabia se conseguiria escolher para onde ir.
Mas não queria partir deixando aquela tristeza no rosto dela.
"Eu volto."
"Quando?"
Gabriel olhou para os próprios tênis velhos.
Depois para o uniforme perfeito de Valentina.
Sentiu vergonha pela primeira vez desde que a encontrara.
Não da fome.
Mas da distância enorme entre os mundos dos dois.
"Quando eu crescer… eu volto para te buscar."
Valentina começou a chorar.
"Você promete?"
Gabriel assentiu.
"Eu prometo."
"Mesmo se ficar rico?"
Ele deu uma risada curta.
"Principalmente se eu ficar rico."
Valentina enxugou o rosto.
Gabriel continuou:
"Quando eu puder ficar na sua frente e não for mais aquele menino faminto do portão… eu volto."
Ela olhou para o pulso dele.
A fita azul ainda estava ali.
"Você guardou."
"Era sua."
"Agora é sua."
Valentina então levou a mão ao próprio pulso.
Usava uma pulseira fina de prata, presente que tinha recebido da mãe no aniversário.
Ela abriu o fecho.
Gabriel percebeu.
"O que você está fazendo?"
Valentina colocou a pulseira na mão dele.
"Fica com isso."
"Eu não posso."
"Pode."
"Deve ser caro."
"Não importa."
Gabriel tentou devolver.
Valentina fechou os dedos dele sobre a pulseira.
"Para você não me esquecer."
Gabriel olhou para o objeto brilhando na palma suja.
"Nunca vou esquecer."
Valentina respirou fundo.
"Então eu vou esperar."
Gabriel tentou sorrir.
"Talvez demore."
"Quanto?"
"Não sei."
Ela apertou os lábios.
"Eu espero."
Uma buzina soou ao longe.
Eduardo precisava sair.
Gabriel olhou para trás.
Depois voltou os olhos para Valentina.
"Eu tenho que ir."
Ela balançou a cabeça.
"Não."
"Eu preciso."
"Fica só mais cinco minutos."
"Se eu ficar, talvez eu não consiga ir."
Valentina chorou de novo.
Então abraçou Gabriel.
Ele ficou imóvel por um segundo.
Depois passou os braços ao redor dela.
Era a primeira vez que alguém da idade dele o abraçava sem medo.
A primeira vez que uma despedida doía mais do que a fome.
"Não esquece."
"Não vou esquecer."
"Promete de novo."
Gabriel fechou os olhos.
"Eu volto."
Eles se soltaram devagar.
Gabriel caminhou até o carro.
Abriu a porta.
Antes de entrar, virou-se.
Valentina ainda estava parada na calçada.
Ele levantou a mão.
Ela levantou a dela.
O carro partiu.
Gabriel continuou olhando pela janela traseira até Valentina desaparecer entre os carros.
Horas depois, a paisagem de São Paulo ficou para trás.
Eduardo dirigia em silêncio.
Lúcia estava ao lado dele.
Gabriel permanecia no banco traseiro.
Na mão direita, apertava a pulseira de prata.
No pulso esquerdo, a fita azul já estava gasta.
Ele olhava a cidade ficando menor e repetia para si mesmo:
"Eu vou voltar."
Naquela mesma tarde, porém, outro carro cruzava as ruas de São Paulo.
Henrique Almeida acabara de receber uma ligação da escola.
O diretor informou que Valentina havia conversado com um menino do lado de fora do portão.
Henrique virou o rosto para a filha.
"Era ele?"
Valentina não respondeu.
Henrique apertou o maxilar.
"Era aquele menino?"
Ela olhou pela janela.
"Ele tem nome."
Henrique ficou alguns segundos em silêncio.
Depois falou, com uma frieza que fez Helena se virar no banco da frente.
"Esse menino nunca mais vai chegar perto da minha filha."
Valentina apertou as mãos sobre o colo.
Do outro lado da estrada, sem saber daquela promessa feita contra ele, Gabriel Costa seguia rumo a Curitiba.
E ninguém dentro daquele carro imaginava que aquele menino ainda voltaria para São Paulo.
Nem que, quando voltasse, seu nome estaria estampado nas páginas de negócios do país.
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