"MILIONÁRIO CHEGA MAIS CEDO À CASA DE CAMPO... E QUASE DESMAIA COM O QUE VÊ" Capítulo 4
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Henrique chegou à sede do Grupo Montenegro, na Avenida Faria Lima, antes das sete da manhã.
O prédio ainda estava quase vazio.
Ele passou pela recepção sem parar, entrou no elevador privativo e subiu direto para o último andar.
Bruno já o esperava no escritório.
Sobre a mesa havia uma pasta grossa, três planilhas impressas e uma relação de pagamentos dos últimos vinte e quatro meses.
Henrique tirou o paletó.
"Quero ver tudo."
Bruno abriu a primeira planilha.
"Os pagamentos ligados ao tratamento do Léo foram divididos em vários centros de custo."
Henrique franziu a testa.
"Por quê?"
"Para não chamar atenção."
Bruno apontou para os registros.
Parte das despesas aparecia como assistência médica familiar.
Outra parte estava lançada como consultoria.
E uma terceira vinha de um setor que não tinha qualquer relação com saúde.
Henrique aproximou a cadeira.
"Quanto?"
Bruno virou a folha.
"Somando tudo, mais de quatrocentos mil reais em dois anos."
Henrique ficou imóvel.
"Quatrocentos mil?"
"Isso sem contar farmácia e exames."
Henrique sentiu o sangue ferver.
Dr. Rafael não era apenas o médico particular de uma criança.
Ele estava sendo remunerado como se prestasse serviços estratégicos ao grupo.
"Consultoria de quê?"
"Ninguém especificou."
Henrique pegou uma das notas.
"Consultoria médica institucional."
Ele soltou uma risada sem humor.
"Institucional para quem?"
Bruno não respondeu.
Henrique abriu outra página.
Havia pagamentos mensais.
Alguns valores eram redondos demais.
Outros apareciam poucos dias depois de episódios registrados na casa.
Henrique percebeu uma sequência.
"Olha essas datas."
Bruno se inclinou.
"Dia três. Dia vinte e um. Dia nove."
Henrique pegou o celular.
Abriu antigas mensagens de Vitória.
Em cada uma daquelas datas, ela havia relatado algum tipo de crise de Léo.
"Ele recebia depois."
Bruno assentiu lentamente.
"Em vários casos, sim."
Henrique empurrou a cadeira para trás.
"Então cada vez que meu filho piorava, Rafael ganhava mais dinheiro."
"Pode ser coincidência."
Henrique o encarou.
"Você acredita nisso?"
"Não."
O silêncio ficou pesado.
Henrique caminhou até a janela.
Lá embaixo, São Paulo começava a acordar.
Carros enchiam a Faria Lima.
Pessoas entravam nos prédios.
Para todo mundo, o Grupo Montenegro continuava sendo uma empresa sólida.
Mas, dentro daquela sala, Henrique começava a perceber que alguma coisa podre talvez estivesse escondida na própria estrutura que ele comandava.
"Quem aprovou?"
Bruno ficou em silêncio.
Henrique virou-se.
"Eu perguntei quem aprovou."
Bruno abriu outra tela.
"Não foi Vitória."
"Eu sei que não."
"Também não foi Rafael."
Henrique se aproximou.
"Nome."
"Os pagamentos passaram por autorizações internas de diretoria."
Henrique sentiu o corpo endurecer.
"Qual diretoria?"
"Financeira e patrimonial."
"Quem assinou?"
Bruno apontou.
Henrique leu.
Depois ficou parado por vários segundos.
Não era um funcionário comum.
Não era alguém que Vitória pudesse manipular facilmente.
Era alguém dentro do alto escalão do grupo.
Alguém com acesso a contas protegidas.
"Isso não saiu de casa."
Bruno entendeu imediatamente.
"Você acha que tem alguém da família envolvido?"
Henrique fechou a pasta.
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"Eu acho que Vitória não conseguiria fazer isso sozinha."
Naquele mesmo dia, ele mandou bloquear qualquer pagamento futuro ao Dr. Rafael sem sua aprovação pessoal.
Mas não anunciou investigação.
Não confrontou ninguém.
Ainda não.
Antes de sair da empresa, ligou para a Dra. Marina.
"Quero manter o Léo sem aquela medicação até termos resultado completo."
"Sem acompanhamento, não."
"Então acompanha."
"Henrique, eu preciso saber exatamente o que ele vinha tomando."
"Estou levantando tudo."
Marina respirou fundo.
"Observe sono, apetite, irritação, tremores e qualquer mudança brusca."
"Ele está mais desperto."
"Isso pode acontecer."
"Está falando mais."
Marina fez uma pausa.
"Anote tudo."
Henrique desligou.
Voltou para Campos do Jordão no início da tarde.
Assim que entrou na casa, ouviu passos correndo.
Léo apareceu no alto da escada.
"Papai!"
Henrique parou.
O menino desceu rápido demais.
"Devagar."
Léo ignorou.
Chegou ao último degrau e correu até ele.
Henrique abriu os braços.
O filho se jogou contra seu peito.
A força do abraço o surpreendeu.
"Você voltou."
"Eu disse que voltaria."
"Mas voltou cedo."
Henrique fechou os olhos por um instante.
"Voltei."
Léo segurou sua mão.
"Vem."
"Para onde?"
"Quero mostrar."
Henrique deixou a pasta sobre uma mesa.
O menino o puxou pelo corredor.
Na sala menor, perto do jardim, Isabela estava ajoelhada no chão recolhendo lápis de cor.
Ao vê-los, sorriu.
"Ele ficou esperando o senhor."
Henrique olhou para ela.
"Ficou?"
Léo respondeu.
"Eu fiz três desenhos."
"Três?"
"Um ficou feio."
Isabela riu.
"Ele decidiu isso sozinho."
Henrique sentou-se no chão.
Léo colocou uma folha sobre suas pernas.
Era um carro azul enorme.
Na segunda, havia uma montanha.
Na terceira, um cachorro.
"O Thor?"
Léo sorriu.
"É."
Henrique riu.
"Você não desiste desse cachorro."
"Você prometeu."
"Eu disse que ia pensar."
"Pensar demora muito?"
Isabela abaixou o rosto para esconder o sorriso.
Henrique percebeu.
"Você está rindo de mim?"
"Jamais, senhor Henrique."
"Está sim."
Léo olhou para os dois.
"Isa disse que adulto complica tudo."
Isabela arregalou os olhos.
"Léo!"
Henrique riu de verdade.
Fazia muito tempo que não se sentava no chão de uma sala sem pensar em números, reuniões ou contratos.
Muito tempo também que não conversava com o próprio filho sem alguém mencionar diagnóstico, rotina ou medicação.
Léo pegou outro lápis.
"Faz você."
"Eu não sei desenhar."
"Todo mundo sabe."
"Seu pai não."
Isabela se aproximou.
"Começa por uma casa."
Henrique pegou o lápis.
"Assim?"
"Isso parece uma caixa."
"Uma casa é quase uma caixa."
Léo começou a rir.
Henrique olhou para ele.
Ainda doía.
Cada risada parecia trazer alegria e culpa ao mesmo tempo.
Quantas daquela ele não ouvira?
Quantas vezes o filho havia tentado ser uma criança normal enquanto ele estava em outro estado, outra reunião, outro jantar de negócios?
Henrique baixou o olhar.
Isabela percebeu.
"Ele está bem."
Henrique respondeu baixo.
"Eu sei."
"Então aproveita."
Henrique ergueu os olhos para ela.
Isabela ficou constrangida.
"Desculpe."
"Por quê?"
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"Não devia ter falado assim."
"Talvez devesse."
Por alguns segundos, os dois ficaram em silêncio.
Léo quebrou o momento.
"Vocês podem parar de falar?"
Henrique sorriu.
"Desculpa."
Isabela se levantou.
"Vou buscar água."
Léo segurou a mão dela.
"Fica."
"Eu volto."
"Promete?"
Isabela se abaixou.
"Prometo."
Henrique observou o jeito como o filho olhava para ela.
Não era dependência.
Era confiança.
Aquilo incomodava e confortava ao mesmo tempo.
Quando Isabela saiu, Léo se aproximou mais do pai.
"Papai?"
"Hum?"
"Você vai trabalhar amanhã?"
Henrique hesitou.
"Um pouco."
O rosto do menino mudou.
Henrique percebeu imediatamente.
"Mas daqui."
Léo levantou os olhos.
"Daqui?"
"Daqui."
O menino sorriu.
Henrique sentiu algo se desfazer dentro dele.
Naquela noite, Vitória tentou discutir novamente a rotina médica.
Henrique não deixou.
"Marina vai acompanhar daqui para frente."
Vitória ficou pálida.
"Marina quem?"
"Dra. Marina Salles."
"Você trocou de médico sem falar comigo?"
"Ele é meu filho."
"Eu cuido dele há dois anos."
Henrique respondeu sem elevar a voz.
"E talvez esse seja exatamente o problema."
Vitória ficou em silêncio.
"Você está me acusando?"
"Eu não acusei ninguém."
"Mas está pensando."
Henrique se aproximou.
"Você parece preocupada demais com isso."
Vitória cruzou os braços.
"Porque alguém precisa se preocupar com a saúde dele."
Henrique sustentou o olhar.
"Eu também."
Ela desviou o rosto.
No dia seguinte, Léo acordou antes das oito.
Comeu quase todo o café.
Falou sobre o cachorro.
Perguntou se podia ir ao jardim.
Depois pediu para desenhar.
As mudanças continuaram.
Pequenas.
Mas constantes.
Dois dias depois, Henrique encontrou o filho sentado à mesa da copa com Isabela.
Havia folhas espalhadas por toda parte.
"Mais desenhos?"
Léo levantou um.
"Esse é novo."
Henrique pegou.
Havia três figuras de mãos dadas.
Um homem alto.
Uma mulher com cabelos compridos.
E uma criança no meio.
"Quem somos?"
Léo apontou.
"Você."
Depois para a figura menor.
"Eu."
Henrique tocou a mulher.
"E ela?"
"Isa."
Isabela ficou sem jeito.
Henrique não comentou.
Mas havia uma quarta figura.
Longe das outras.
Era Vitória.
Ela não estava ao lado da família.
Estava atrás de um retângulo preto.
Henrique sentiu um desconforto imediato.
"Por que a Vitória está aqui?"
Léo continuou desenhando.
Henrique apontou para o retângulo.
"E isso?"
O menino parou.
Isabela também ficou séria.
Henrique se abaixou ao lado do filho.
"Léo, o que é essa parte preta?"
O garoto olhou para a folha.
Depois olhou para a porta da sala.
Como se quisesse ter certeza de que ninguém estava ouvindo.
Henrique percebeu.
"Pode falar."
Léo apertou o lápis entre os dedos.
"É a porta."
"Que porta?"
O menino demorou alguns segundos.
Quando respondeu, a voz saiu baixa.
"O quarto onde ela me deixava."
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