"MILIONÁRIO CHEGA MAIS CEDO À CASA DE CAMPO... E QUASE DESMAIA COM O QUE VÊ" Capítulo 2
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Henrique não confrontou Vitória naquela noite.
Não porque acreditasse nela.
Mas porque aprendera, ao longo de anos comandando o Grupo Montenegro, que suspeita sem prova servia apenas para alertar quem estava tentando esconder alguma coisa.
Durante o jantar, ele agiu como se nada tivesse acontecido.
Vitória falou sobre uma obra na casa, comentou sobre um evento beneficente em São Paulo e reclamou do frio de Campos do Jordão.
Henrique respondeu apenas o necessário.
Léo quase não tocou na comida.
O menino mantinha os olhos baixos e mexia lentamente no arroz com o garfo.
Vitória observou o prato.
"Você precisa comer."
Léo não respondeu.
"Leonardo."
Os dedos do menino pararam.
Henrique percebeu.
"Ele ouviu."
Vitória olhou para ele.
"Estou tentando manter a rotina."
"Hoje não precisa."
"Henrique, o Rafael foi muito claro sobre a importância de horários."
Henrique bebeu um gole de água.
"Hoje ele fica comigo."
Vitória ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois sorriu.
"Claro."
Mas Henrique conhecia aquele sorriso.
Era o mesmo que via em reuniões quando alguém precisava esconder irritação.
Depois do jantar, ele levou Léo até o quarto.
O menino se deitou sem protestar.
Henrique sentou-se ao lado da cama.
"Quer que eu fique aqui um pouco?"
Léo assentiu.
"Quero."
Henrique passou a mão pelos cabelos do filho.
"Você está com medo?"
O menino ficou imóvel.
Henrique não insistiu.
"Você não precisa me contar nada hoje."
Léo olhou para ele.
"Você vai embora amanhã?"
A pergunta atravessou Henrique.
"Não."
"Promete?"
"Prometo."
Só então Léo fechou os olhos.
Henrique permaneceu ali até a respiração do filho ficar lenta.
Quando saiu do quarto, encontrou Vitória no corredor.
Ela segurava uma pequena bandeja com um copo de água e dois comprimidos.
"Ele esqueceu a medicação da noite."
Henrique olhou para os comprimidos.
"Ele já dormiu."
"Então eu acordo."
"Não."
Vitória estreitou os olhos.
"Henrique."
"Eu disse não."
"O Rafael mandou manter os horários."
"Eu resolvo isso amanhã."
Ela segurou a bandeja com mais força.
"Você está agindo de forma estranha desde que chegou."
Henrique sustentou o olhar dela.
"Estou cansado."
Vitória pareceu avaliar a resposta.
Depois virou-se.
"Boa noite."
Henrique esperou que ela desaparecesse pelo corredor.
Só então olhou outra vez para a bandeja em suas mãos.
Dois comprimidos.
Ele tinha certeza de que eram dois.
Mas, segundo os relatórios enviados mensalmente pelo Dr. Rafael, Léo tomava apenas uma medicação à noite.
A dúvida virou um peso no peito.
Pouco depois da meia-noite, Henrique entrou no escritório da propriedade.
Fechou a porta.
Acendeu apenas o abajur da mesa.
A casa estava silenciosa.
Do lado de fora, o vento frio batia contra as janelas.
Henrique abriu o sistema de segurança.
Bruno Almeida, seu chefe de segurança, havia instalado novas câmeras seis meses antes após uma tentativa de invasão na propriedade.
Henrique raramente acessava as gravações.
Naquela noite, começou pelo corredor dos quartos.
Escolheu o dia anterior.
Avançou as imagens.
Vitória aparecia às sete e quinze da manhã.
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Léo saía do quarto.
Assim que a via, parava.
Henrique diminuiu a velocidade.
O menino baixava a cabeça.
Vitória dizia alguma coisa.
As câmeras daquela área não tinham áudio.
Depois ela segurava o braço dele e o conduzia até a escada.
Nada parecia grave.
Ainda assim, Henrique voltou alguns segundos.
Assistiu de novo.
Léo havia levantado os ombros antes mesmo de Vitória tocá-lo.
Henrique abriu outra gravação.
Dois dias antes.
Vitória entrava na sala de brinquedos.
Léo estava desenhando no chão.
Assim que percebeu a presença dela, guardava os lápis imediatamente.
Ela se aproximava.
O menino colocava as mãos sobre as pernas.
Imóvel.
Henrique sentiu um arrepio.
Passou para a câmera da cozinha.
Três dias antes.
Isabela lavava algumas frutas.
Léo entrava.
Não havia ninguém mais no ambiente.
O menino se aproximava dela espontaneamente.
Isabela dizia alguma coisa.
Léo ria.
Henrique parou o vídeo.
Voltou.
Assistiu outra vez.
Não era uma gargalhada como a que ouvira no jardim.
Era um sorriso pequeno.
Mas estava ali.
Henrique abriu outro dia.
E outro.
O padrão se repetia.
Com Isabela, Léo falava.
Comia.
Perguntava.
Às vezes sorria.
Com Vitória, o corpo mudava.
O menino parecia desaparecer dentro de si mesmo.
Henrique ficou horas diante das telas.
Às três da manhã, encontrou uma gravação que o fez levantar da cadeira.
Vitória estava no corredor.
Léo chorava.
Ela segurava o telefone.
Minutos depois, Dr. Rafael aparecia pela entrada principal.
Henrique conferiu a data.
Era uma terça-feira.
Ele estava em Belo Horizonte naquele dia.
Vitória havia lhe enviado uma mensagem dizendo apenas que Léo estava cansado.
Henrique não sabia que Rafael tinha ido até a propriedade.
Na gravação seguinte, o médico saía quarenta minutos depois.
Léo não aparecia mais.
Henrique sentiu o sangue esfriar.
Às seis da manhã, ele ainda estava acordado.
Esperou a casa começar a se movimentar.
Isabela entrou na cozinha pouco antes das sete.
Henrique já estava lá.
Ela parou ao vê-lo.
"Bom dia, senhor Henrique."
"Feche a porta."
Isabela hesitou.
Depois obedeceu.
Henrique permaneceu de pé perto da janela.
"Eu preciso que você me conte a verdade."
O rosto dela perdeu a cor.
"Sobre o quê?"
"Sobre meu filho."
Isabela apertou as mãos.
"Eu não entendo."
"Entende."
Henrique se aproximou.
"O que acontece aqui quando eu não estou?"
Ela desviou o olhar.
"Nada."
"Não minta para mim."
"Eu não estou mentindo."
"Passei a noite vendo as câmeras."
Isabela levantou os olhos.
Henrique continuou.
"Vi como ele fica quando Vitória entra em um cômodo."
Isabela ficou em silêncio.
"Vi como ele fica com você."
Ainda nada.
"Também vi Rafael vindo aqui sem que ninguém me avisasse."
Isabela respirou fundo.
"Senhor Henrique..."
"Eu quero saber."
Ela balançou a cabeça.
"Eu posso perder meu emprego."
"Você não vai."
"Não é só isso."
"Então o que é?"
Isabela fechou os olhos por um instante.
Quando voltou a olhar para ele, havia lágrimas contidas.
"Ele tem medo dela."
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Henrique sentiu o peito apertar.
"Por quê?"
"Ela grita."
"Com que frequência?"
"Quando ele chora. Quando não quer comer. Quando não quer tomar remédio."
Henrique ficou imóvel.
"Ela já bateu nele?"
Isabela respondeu rapidamente.
"Eu nunca vi."
Henrique soltou o ar devagar.
"Então do que ele tem tanto medo?"
Isabela demorou para responder.
"Das coisas que ela fala."
"Que coisas?"
A mulher apertou os lábios.
"Uma vez ele derrubou um copo."
Henrique esperou.
"Vitória ficou muito irritada."
"E?"
"Ela disse que o senhor já tinha problemas demais."
Henrique franziu a testa.
Isabela baixou a voz.
"Ela disse para ele não ser mais um."
Henrique sentiu como se tivesse recebido um golpe.
"Exatamente o que ela falou?"
Isabela assentiu.
"Ela disse: Seu pai já tem problemas demais. Não seja mais um."
Henrique desviou o rosto.
Por alguns segundos, não conseguiu falar.
Ele pensou em todas as vezes que voltara tarde.
Em todas as viagens.
Em todas as noites em que Léo talvez tivesse pensado que era um peso.
"Tem mais."
Henrique olhou para Isabela.
"O quê?"
"Quando ele fica muito nervoso, ela liga para o Dr. Rafael."
"Sempre?"
"Quase sempre."
"E ele vem?"
"Às vezes."
"O que ele faz?"
"Eu não sei. Vitória manda todo mundo sair."
Henrique respirou fundo.
"Quantos remédios Léo toma?"
Isabela hesitou.
"De manhã, dois."
Henrique sentiu o estômago revirar.
"Dois?"
"Sim."
"E à noite?"
"Dois também."
Henrique se aproximou.
"Você tem certeza?"
"Sou eu quem leva água às vezes."
"Desde quando?"
"Desde antes de eu chegar aqui, pelo que Vitória disse."
Henrique saiu da cozinha sem responder.
Subiu a escada rapidamente.
Vitória estava no quarto, ainda se arrumando.
"Henrique?"
Ele nem parou.
Foi direto para o pequeno cômodo usado para guardar medicamentos e primeiros socorros.
Abriu a porta.
As prateleiras estavam vazias.
Henrique ficou parado.
Na noite anterior, havia caixas ali.
Ele tinha visto.
Vitória apareceu atrás dele.
"O que você está procurando?"
Henrique virou-se devagar.
"Os remédios do Léo."
Ela cruzou os braços.
"Eu organizei tudo."
"Quando?"
"Hoje cedo."
"Por quê?"
"Porque estavam misturados."
Henrique olhou novamente para as prateleiras.
"Onde estão?"
"Guardei em outro lugar."
"Que lugar?"
Vitória deu um pequeno sorriso.
"Henrique, isso está começando a ficar ridículo."
Ele se aproximou.
"Onde estão os remédios?"
"Comigo."
"Me entregue."
"Você não entende o tratamento."
"São medicamentos do meu filho."
"Prescritos por um médico."
"E pagos por mim."
Vitória endureceu a expressão.
"Você está insinuando alguma coisa?"
Henrique sustentou o olhar dela.
"Não."
Ele saiu.
Vitória pareceu surpresa.
Henrique desceu a escada sem pressa.
Não queria que ela percebesse o quanto estava alarmado.
No corredor de serviço, viu uma funcionária levando sacos de lixo para fora.
Henrique parou.
"Esses sacos são de onde?"
"Da cozinha e dos quartos, senhor."
"Deixe aí."
A mulher obedeceu.
Henrique esperou que ela saísse.
Abriu o primeiro saco.
Nada.
O segundo.
Restos de comida.
Papéis.
Embalagens.
No terceiro, encontrou uma pequena caixa rasgada.
Depois um frasco.
Henrique o retirou.
Ainda havia um comprimido dentro.
O coração dele acelerou.
Virou o frasco para ler o rótulo.
Era um medicamento controlado.
Mas não foi o nome do remédio que fez Henrique perder o ar.
Foi o nome do paciente impresso na etiqueta.
Henrique leu uma vez.
Depois outra.
O frasco que vinha sendo guardado junto aos medicamentos de seu filho não estava registrado para Leonardo Montenegro.
Estava registrado para outra pessoa.
Henrique apertou o vidro entre os dedos.
E naquele instante percebeu que talvez o medo de Léo fosse apenas a primeira parte de uma mentira muito maior.
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