"MILIONÁRIO CHEGA MAIS CEDO À CASA DE CAMPO... E QUASE DESMAIA COM O QUE VÊ" Capítulo 1
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Henrique Vasconcelos Montenegro parou no meio do jardim antes mesmo de perceber que havia soltado a chave do carro.
O som veio outra vez.
Uma gargalhada.
Alta, limpa, descontrolada.
Uma gargalhada de criança.
Henrique ficou imóvel diante da varanda da casa de campo em Campos do Jordão, como se alguém tivesse acabado de empurrá-lo contra uma parede invisível.
Porque ele conhecia aquela voz.
Era Léo.
Seu filho.
Henrique atravessou o gramado devagar, sem fazer barulho.
Não deveria estar ali naquele dia.
A reunião com investidores na Avenida Faria Lima estava prevista para durar até a noite, e ele só retornaria à propriedade na manhã seguinte.
Mas um dos executivos cancelara o encontro de última hora.
Henrique decidira voltar mais cedo.
Não avisara Vitória.
Não avisara os funcionários.
Não avisara ninguém.
E agora agradecia por isso.
Outra gargalhada explodiu atrás da casa.
Henrique apertou o passo.
Quando contornou a varanda lateral, parou de novo.
Por alguns segundos, não conseguiu respirar.
Léo estava sentado nos ombros de Isabela Oliveira, a funcionária responsável pela limpeza da casa.
A mulher corria pelo gramado com os braços abertos, fingindo ser um avião.
Léo segurava os cabelos presos dela e ria tanto que mal conseguia permanecer sentado.
"Mais rápido, Isa!"
"Mais rápido? Você quer me derrubar no chão, menino?"
"Mais rápido!"
Isabela começou a correr em círculos.
Léo gritou de alegria.
Henrique levou a mão à boca.
Aquilo simplesmente não podia estar acontecendo.
Durante quase dois anos, ele ouvira médicos, terapeutas e especialistas repetirem praticamente a mesma coisa.
Léo tinha dificuldade severa de interação.
Léo não respondia emocionalmente como outras crianças.
Léo evitava contato.
Léo apresentava episódios de isolamento.
Léo precisava de acompanhamento constante.
Dr. Rafael Ferraz fora ainda mais direto.
"Henrique, você precisa aceitar que talvez seu filho nunca demonstre afeto da maneira que você espera."
Henrique aceitara.
Ou pelo menos tentara.
Passara noites inteiras sentado ao lado da cama do filho, olhando aquele rosto pequeno e sério, esperando qualquer reação.
Um sorriso.
Uma brincadeira.
Uma mão estendida.
Qualquer coisa.
Mas Léo costumava ficar imóvel.
Às vezes olhava pela janela durante horas.
Outras vezes parecia assustado sem motivo.
E naquela mesma manhã, Vitória havia ligado.
Henrique ainda lembrava perfeitamente do tom preocupado dela.
"Léo teve outra crise."
"Que crise?"
"Ele ficou agitado. Chorou quando tentei ajudá-lo a se vestir."
Henrique fechara os olhos dentro do escritório.
"Você chamou o Rafael?"
"Sim. Ele acha melhor aumentar um pouco a medicação."
Henrique não gostara da ideia.
"De novo?"
"Henrique, eu sei que dói ouvir isso, mas precisamos pensar no que é melhor para ele."
E agora aquele mesmo menino estava correndo pelo jardim.
Rindo.
Gritando.
Pedindo para brincar mais.
Henrique sentiu alguma coisa quebrar dentro do peito.
Não era tristeza.
Era pior.
Era dúvida.
Isabela girou mais uma vez.
Quando virou o rosto, finalmente viu Henrique.
O sorriso desapareceu.
Ela parou tão rápido que quase perdeu o equilíbrio.
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"Senhor Henrique!"
Léo ainda ria.
Isabela levou as mãos às pernas do menino.
"Meu Deus… desce, Léo. Desce agora."
Henrique franziu a testa.
"Por quê?"
Isabela empalideceu.
"Eu… eu estava terminando a limpeza."
Henrique olhou para o balde abandonado perto da varanda.
Depois olhou para o filho.
"Eu não perguntei o que você estava fazendo."
Isabela engoliu em seco.
"Desculpe."
"Léo."
O menino virou o rosto.
Henrique esperou.
Por alguns segundos, o sorriso do garoto diminuiu.
Mas não desapareceu completamente.
"Oi, papai."
Henrique sentiu um aperto no peito.
"Você estava se divertindo?"
Léo assentiu.
"Muito."
Henrique quase não reconheceu a própria voz.
"Eu percebi."
Isabela abaixou-se para colocar o menino no chão.
Assim que os pés de Léo tocaram a grama, ele agarrou a cintura dela.
Henrique observou.
Aquele gesto também era novo.
Léo nunca agarrava ninguém daquele jeito.
Muito menos voluntariamente.
Isabela percebeu o olhar do patrão.
"Léo, vai falar com seu pai."
O menino apertou mais os braços.
"Não."
Henrique sentiu uma pontada dolorosa.
Mas antes que pudesse reagir, Isabela falou com calma.
"Seu pai chegou mais cedo. Ele deve estar com saudade."
Léo olhou para Henrique.
Então soltou Isabela e correu.
Henrique mal teve tempo de se preparar.
O filho bateu contra seu corpo e envolveu sua cintura.
Henrique fechou os olhos.
Por um instante, esqueceu a empresa.
Esqueceu a família.
Esqueceu todas as reuniões.
Apenas segurou o filho.
"Você sentiu minha falta?"
"Um pouco."
Henrique sorriu.
"Só um pouco?"
Léo pensou.
"Muito."
Henrique soltou uma pequena risada.
Quando abriu os olhos, Isabela estava observando os dois.
Ela sorriu discretamente.
Depois abaixou o rosto.
"Vou voltar ao trabalho."
Henrique levantou a mão.
"Espere."
Isabela parou.
"Há quanto tempo ele brinca assim com você?"
Ela hesitou.
Henrique percebeu.
"Isabela."
"Às vezes."
"Às vezes quanto?"
Ela olhou para Léo.
"Algumas semanas."
Henrique congelou.
"Semanas?"
Isabela apertou os dedos.
"Quando ele está tranquilo."
"E por que ninguém me contou?"
Ela ficou em silêncio.
Henrique sentiu o corpo endurecer.
"Eu perguntei por que ninguém me contou."
"Eu não sabia se deveria."
"Você viu meu filho rindo durante semanas e achou que eu não deveria saber?"
Isabela ergueu os olhos.
Havia medo ali.
Mas também havia alguma coisa que Henrique não conseguiu identificar.
"Não foi isso."
"Então o que foi?"
Antes que ela respondesse, Léo segurou a mão dela.
"Isa não fez nada."
Henrique olhou para o filho.
"Eu sei."
"Ela não fez."
"Está tudo bem."
Léo parecia preocupado.
Isabela passou a mão nos cabelos dele.
"Vai brincar um pouco perto da árvore."
"Você vem?"
"Daqui a pouco."
Léo correu até uma pequena bola abandonada no gramado.
Henrique esperou até ele se afastar.
"Agora me diga."
Isabela respirou fundo.
"Quando cheguei aqui, ele quase não falava comigo."
"Eu sei."
"Ele ficava assustado quando alguém chegava perto."
Henrique franziu a testa.
"Assustado?"
"Foi a impressão que tive."
"Os médicos disseram que é parte da condição dele."
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Isabela baixou os olhos.
"Pode ser."
Henrique percebeu a escolha cuidadosa das palavras.
"Mas você não acredita nisso."
"Eu não sou médica."
"Não foi isso que eu perguntei."
Isabela respirou devagar.
"Comigo ele começou a conversar porque eu não obrigava."
"Obrigava o quê?"
"Nada."
"Isabela."
Ela desviou o olhar.
"Eu só deixava ele ficar perto de mim enquanto eu trabalhava."
Henrique permaneceu em silêncio.
"Um dia derrubei um pano na cabeça e ele riu."
Ela sorriu ao lembrar.
"Foi bem baixinho."
Henrique sentiu o estômago se apertar.
"Depois ele começou a aparecer todos os dias."
"Vitória sabe?"
O sorriso de Isabela desapareceu.
Ela demorou demais para responder.
"Sabe."
Henrique sentiu um frio percorrer as costas.
"Ela viu?"
"Algumas vezes."
"E não me disse."
Isabela ficou tensa.
"Senhor Henrique, talvez seja melhor conversar com ela."
"Eu estou conversando com você."
O som de um motor interrompeu a frase.
Um carro surgiu pela entrada principal da propriedade.
Isabela virou o rosto.
Henrique também.
Era o SUV preto de Vitória.
Ele sentiu a mão de Léo tocar sua perna.
Henrique olhou para baixo.
O menino tinha voltado.
Mas estava diferente.
Completamente diferente.
O sorriso havia desaparecido.
Os ombros estavam levantados.
Os dedos apertavam o tecido da calça do pai.
Henrique viu a mudança acontecer em segundos.
A porta do carro abriu.
Vitória Albuquerque desceu usando óculos escuros e um conjunto claro impecável.
Ao notar Henrique, ela parou.
A surpresa atravessou seu rosto.
"Henrique?"
Ele não respondeu imediatamente.
Vitória tirou os óculos.
"Você não voltaria amanhã?"
"A reunião foi cancelada."
"Você deveria ter me avisado."
"Por quê?"
Ela sorriu.
"Para eu preparar tudo."
Henrique observava Léo.
O menino havia se aproximado de Isabela novamente.
Vitória começou a caminhar na direção deles.
"Meu amor."
Léo deu um passo para trás.
Henrique percebeu.
Vitória não.
Ou fingiu não perceber.
"Como você está?"
Ela abriu os braços.
Léo não se mexeu.
"Venha dar um beijo na Vitória."
O menino baixou a cabeça.
Henrique sentiu a mandíbula travar.
Vitória olhou para Isabela.
"Ele tomou o remédio da tarde?"
Isabela hesitou.
"Ainda não."
Vitória franziu a testa.
"Como assim, ainda não?"
"Ele estava brincando."
"Eu não perguntei o que ele estava fazendo."
A voz de Vitória mudou.
Pouco.
Mas mudou.
Henrique ouviu.
Isabela também.
Léo se encolheu.
Vitória estendeu a mão.
"Vamos entrar, Léo."
O menino recuou.
"Léo."
Vitória avançou mais um passo.
Henrique viu o rosto do filho ficar pálido.
A respiração dele acelerou.
"Léo, venha comigo."
Vitória tentou tocar seu braço.
O menino se escondeu atrás de Isabela.
Vitória parou.
O silêncio caiu sobre o jardim.
Henrique olhou para Isabela.
Ela estava imóvel.
Depois olhou para Vitória.
"Ele estava rindo quando eu cheguei."
Vitória piscou.
"Rindo?"
"Sim."
Ela soltou uma pequena risada nervosa.
"Henrique, crianças têm momentos de agitação. O Rafael explicou isso."
"Não parecia agitação."
"Você não estava aqui pela manhã."
"Não."
Vitória respirou fundo.
"Ele teve um episódio difícil."
Henrique virou o rosto para o filho.
"Léo."
O menino não respondeu.
"Léo, olha para o papai."
Devagar, ele ergueu os olhos.
Henrique se abaixou.
"Você estava feliz agora há pouco?"
Léo assentiu.
"Estava."
"Está feliz agora?"
O menino olhou para Vitória.
Então abaixou a cabeça.
Henrique sentiu o coração bater mais forte.
Vitória avançou.
"Chega. Ele está cansado."
Ela estendeu a mão novamente.
"Vamos entrar."
Léo se agarrou à camisa de Isabela.
Vitória endureceu o rosto.
"Léo."
Henrique levantou-se.
"Deixa ele."
Vitória o encarou.
"Henrique, ele precisa da rotina."
"Eu disse para deixar."
Ela abriu a boca, surpresa.
Léo soltou lentamente Isabela.
Henrique achou que o filho viria até ele.
Mas o menino continuou parado.
Tremendo.
Henrique viu.
Dessa vez, viu de verdade.
Não era apenas silêncio.
Não era apenas uma criança distante.
Era medo.
Um medo tão profundo que transformava completamente o menino que, minutos antes, estava gargalhando no jardim.
Vitória voltou a estender a mão.
"Léo, venha."
Foi então que o menino correu até Henrique.
Agarrou sua perna com os dois braços.
Henrique baixou os olhos.
Léo enterrou o rosto contra ele.
E falou tão baixo que quase ninguém teria ouvido.
Mas Henrique ouviu cada palavra.
"Papai… não deixa ela me levar."
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