"Eles Pensavam Que Eu Era Uma Boneca Frágil… Até Ouvirem o Som do Gatilho" Capítulo 4
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A frase estampada na tela do ultrabook corporativo fez o sangue de Victória gelar instantaneamente nas veias.
O alarme silencioso conectado ao servidor principal da mansão piscava em um vermelho agressivo.
Com um reflexo instintivo de sobrevivência, ela pressionou o botão de desligamento forçado com a palma da mão.
A tela apagou-se de imediato, mergulhando o escritório em uma escuridão quase absoluta.
O coração dela batia tão forte e acelerado que parecia querer romper as costelas e saltar para fora.
Apenas três horas. Esse era o tempo exato que Christian passaria fora da mansão, reunido com os diretores do banco.
Três horas para virar o jogo, para encontrar uma brecha na fortaleza digital que a mantinha cativa.
Ela sabia que o risco era monumental, mas a passividade significava a morte lenta de sua alma.
Naquela tarde abafada, o mordomo havia anunciado a saída do patrão rumo à Avenida Paulista.
Assim que o ronco abafado do motor do sedã sumiu no horizonte, Victória entrou em ação.
Seus passos apressados, mas silenciosos, a conduziram de volta ao sancta sanctorum de mogno e couro.
Sentada na cadeira giratória de Christian, ela puxou o ultrabook para mais perto de si.
Os dedos longos e ágeis começaram a deslizar pelo teclado com a precisão de uma pianista virtuosa.
Desta vez, ela ignorou as pastas de contabilidade e os contratos de fachada que oculpavam a superfície.
Com um comando de terminal avançado, ela invadiu os diretórios ocultos do sistema operacional corporativo.
A tela encheu-se de linhas de código em verde fosforescente, refletindo diretamente em seus olhos cinzentos.
Ela tentava criar uma ponte de comunicação clandestina utilizando protocolos criptografados de ponta a ponta.
O objetivo era simples e desesperado: enviar um sinal de socorro para o submundo digital de São Paulo.
O suor escorria por sua testa, mas ela não ousava desviar a atenção do monitor nem por um segundo.
A barra de progresso do envio de dados avançava lentamente, tique-taque após tique-taque implacável.
Sessenta por cento. Setenta e cinco por cento. O sinal começava a propagar-se pela rede de fibra óptica.
No entanto, a segurança digital dos Von Stock era uma muralha impenetrável de bilhões de dólares.
Enquanto isso, a quilômetros dali, nos servidores descentralizados da Vila Madalena, um alarme sutil soou.
Lucas, um hacker lendário conhecido nos fóruns mais obscuros da dark web brasileira, ergueu a sobrancelha.
Ele já havia cruzado o caminho de Victória anos antes, durante um esquema de falsificação de telas famosas.
Naquela época, eles compartilharam segredos e uma admiração mútua que jamais se transformou em romance.
Agora, sentado diante de três monitores brilhantes em seu loft desorganizado, Lucas viu um pacote de dados anômalo.
O sinal trazia a assinatura digital inconfundível que ele próprio havia ensinado a ela em dias passados.
Uma chave de criptografia baseada em frases de poetas modernistas brasileiros, um toque de genialidade solitária.
"Ora, ora, veja só quem decidiu bater à minha porta digital."
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Murmurou Lucas para si mesmo, um sorriso irônico iluminando seu rosto pálido sob a luz dos LEDs.
Imediatamente, seus dedos voaram pelo teclado mecânico para interceptar e estabilizar o sinal de Victória.
Ele sabia que o protocolo de segurança de Christian estava prestes a derrubar aquela conexão frágil.
"Aguenta firme, garota. Estou rastreando a origem do seu inferno particular."
Disse ele em voz alta, enquanto os algoritmos de reversão começavam a desatar os nós do firewall corporativo.
De volta à mansão do Morumbi, a barra de progresso na tela de Victória atingira noventa e nove por cento.
Faltava apenas um único fragmento de segundo para que o pedido de socorro cruzasse os portões da propriedade.
Seus lábios moveram-se em uma prece silenciosa, torcendo para que a tecnologia superasse a tirania.
Mas o sistema de defesa autônomo de Christian percebeu a interferência externa de Lucas em tempo recorde.
Um escudo de dados virtual fechou-se como uma guilhotina digital, cortando o cabo invisível no ar.
A tela piscou violentamente, exibindo a mensagem de erro que frustraria qualquer mortal comum.
Conexão recusada. Acesso não autorizado bloqueado permanentemente.
O grito de frustração ficou preso na garganta de Victória, transformando-se em um aperto sufocante no peito.
Tudo parecia perdido, a tentativa desesperada havia sido completamente neutralizada pelo monstro.
Contudo, antes que a tela preta definitiva consumisse o monitor, um arquivo em cache abriu-se na lateral.
Era um subdiretório de monitoramento de câmeras de segurança externas e relatórios de visitantes.
O dedo de Victória parou sobre o trackpad, atraída por um nome que aparecia em destaque nos registros.
O relatório detalhado mostrava o histórico de acessos à instituição de Campos do Jordão onde Camila vivia.
Nas últimas duas semanas, enquanto Christian fingia estar focado apenas nos negócios da holding, houve uma movimentação.
Uma pessoa usando credenciais falsas havia visitado o quarto de Camila na ala de atendimento especial.
Não era um médico. Não era um assistente social autorizado pela família de Medeiros.
O registro fotográfico em miniatura mostrava a silhueta de um homem encapuzado saindo pelos fundos.
O estômago de Victória despencou em um abismo de pavor e fúria misturados em proporções iguais.
Christian não estava apenas vigiando a cunhada; ele a estava utilizando como peça de xadrez avançada.
Antes que ela pudesse copiar os metadados daquela visita clandestina para um pendrive, o sistema emitiu um bipe.
O som característico de autenticação remota indicava que o acesso principal da mansão acabara de ser destravado.
O motor do sedã blindado de Christian havia deslizado silenciosamente para dentro da garagem coberta.
O tempo havia esgotado de maneira impiedosa, sem dar margem para mais nenhum erro de cálculo.
Victória fechou a tampa do ultrabook com um movimento rápido, empurrando o aparelho para o lugar exato.
Ela levantou-se da cadeira de couro, ajeitou a gola da blusa e respirou fundo para recompor a postura.
Cada segundo contava para que ela não demonstrasse nenhum sinal de nervosismo ou culpa aparente.
Caminhou com passos firmes até a estante de livros, puxando um exemplar encadernado em couro de Machado de Assis.
Abriu o livro aleatoriamente, fingindo ler as páginas amareladas à luz fraca da luminária de mesa.
A porta pesada do escritório abriu-se com um rangido suave que cortou o silêncio da tarde chuvosa.
A figura imponente de Christian entrou no recinto, trazendo consigo uma lufada de ar frio da rua.
Ele tirou a luva de couro preto lentamente, revelando os dedos longos que controlavam a vida de todos ao redor.
Os olhos azul-gelo do magnata fixaram-se imediatamente em Victória, analisando cada detalhe de sua expressão.
"Vejo que a insônia literária continua atacando, minha querida herdeira."
Sussurrou Christian, aproximando-se com passos pausados e felinos, como um predador rondando a presa.
Victória virou a página do livro com extrema lentidão, erguendo o rosto para encará-lo sem vacilar.
"Os livros clássicos ajudam a suportar o tédio desta casa, Christian. Você deveria tentar ler um pouco mais."
Respondeu ela, com um tom de voz gélido e altivo que desafiava a autoridade dele.
Christian parou a centímetros de distância, sentindo o perfume sutil de jasmim misturado ao suor frio dela.
Um sorriso irônico e perigoso desenhou-se no canto de seus lábios finos e perfeitamente desenhados.
"A literatura é fascinante mesmo, especialmente as histórias de traição e finais trágicos."
Comentou ele, erguendo a mão para tocar uma mecha do cabelo platinado dela, enfiando-a atrás da orelha.
"Mas me diga uma coisa, Victória, enquanto eu cuidava dos nossos interesses lá fora..."
Ele fez uma pausa dramática, aproximando o rosto do pescoço dela para inalar o aroma da pele.
"Quem foi que tentou abrir a porta dos fundos do nosso sistema digital há exatos três minutos?"
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