"“Ela Não É Minha Filha”… Até o DNA Revelar Um Segredo Pior" Capítulo 4
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Alexandre não respondeu.
Por alguns segundos, ficou parado no meio do escritório, com o celular pressionado contra o ouvido e os olhos fixos em lugar nenhum.
Henrique Ferraz.
Seu pai.
O homem que entrava na mansão Montenegro como advogado desde que Alexandre era criança.
O homem que apertara sua mão no enterro de Augusto.
O homem que, durante trinta e sete anos, nunca lhe dera uma única razão para imaginar a verdade.
"Isabela, onde você está?"
"Na Vila Mariana."
"Com Henrique?"
"Não mais."
Alexandre sentiu o peito apertar.
"O que aconteceu?"
"Eu encontrei documentos antigos. Depois confrontei Henrique."
"E ele confessou?"
Isabela demorou alguns segundos.
"Não com essas palavras."
Alexandre fechou os olhos.
"Então como você sabe?"
"Porque eu fiz a pergunta certa."
Ele ficou em silêncio.
Isabela continuou.
"Perguntei por que ele ajudaria Vitória a destruir a relação entre você e Sofia."
Alexandre apertou a mandíbula.
"E?"
"Ele disse que algumas famílias sobrevivem porque certos homens aceitam viver como fantasmas."
Alexandre caminhou até a janela.
"Isso não prova nada."
"Eu sei."
"Então por que você me disse que ele é meu pai?"
"Porque depois eu coloquei a certidão de nascimento dele sobre a mesa."
Alexandre virou o rosto.
"Que certidão?"
"Henrique nasceu em 1965. Trabalhou no Grupo Montenegro como assistente jurídico no período em que sua mãe engravidou."
Alexandre respirou fundo.
Isabela prosseguiu.
"Depois mostrei uma fotografia de um evento do grupo, de trinta e oito anos atrás."
"O que tinha na foto?"
"Vitória e Henrique."
"Isso também não prova."
"Não."
A voz de Isabela ficou mais baixa.
"Mas quando eu disse que pediria um exame de DNA, Henrique perguntou quem tinha me contado."
Alexandre ficou imóvel.
Não perguntou se era absurdo.
Não negou.
Perguntou quem havia contado.
"Eu vou atrás dele."
"Alexandre."
"Preciso olhar na cara dele."
"Você não está em condições."
"Não me diz em que condições eu estou."
A frase saiu mais agressiva do que deveria.
Isabela ficou em silêncio.
Alexandre percebeu imediatamente.
"Desculpa."
Ela respondeu sem suavizar a voz.
"Não desconta em mim o que sua mãe e Henrique fizeram."
Ele apertou os olhos.
"Você tem razão."
"Eu te mando o endereço do escritório dele."
"Obrigado."
"Alexandre."
"Fala."
"Não vá esperando encontrar um pai."
A ligação terminou.
A frase permaneceu.
Não vá esperando encontrar um pai.
Alexandre desceu as escadas da mansão quase correndo.
Vitória estava na sala de jantar.
Tomava café como se aquela manhã fosse igual a todas as outras.
Quando o viu, pousou a xícara.
"Aonde você vai?"
"Encontrar meu pai."
A porcelana bateu contra o pires.
Vitória empalideceu.
"Do que você está falando?"
Alexandre riu.
Dessa vez havia raiva.
"Você ainda vai fingir?"
"Alexandre..."
"Henrique é meu pai?"
Vitória se levantou.
"Quem colocou isso na sua cabeça?"
"Responde."
"Isabela?"
Ele bateu a mão sobre a mesa.
"RESPONDE!"
Vitória deu um pequeno passo para trás.
Alexandre raramente gritava.
Mas naquele momento, toda a contenção dos últimos dias havia desaparecido.
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"Henrique Ferraz é meu pai biológico?"
Vitória permaneceu olhando para ele.
Então baixou os olhos.
Foi o bastante.
Alexandre soltou uma risada quebrada.
"Meu Deus."
Ele levou a mão à cabeça.
"Era verdade."
"Alexandre, escuta..."
"Há quanto tempo?"
Vitória respirou fundo.
"Não faça isso dessa maneira."
"Há quanto tempo você sabe?"
"Desde o começo."
Ele ficou pálido.
"Desde o começo?"
Vitória fechou os olhos.
"Sim."
Alexandre sentiu o estômago revirar.
"Trinta e sete anos."
"Eu posso explicar."
"Você sabia durante trinta e sete anos."
"Eu era jovem."
"Isso não responde."
Vitória passou a mão pelo cabelo.
"Naquela época, as coisas eram diferentes."
"Ele era amante seu?"
Ela hesitou.
Alexandre percebeu.
"Era."
Vitória sentou devagar.
Quando voltou a falar, sua voz já não tinha a mesma força.
"Henrique era jovem quando entrou no grupo."
"Quanto?"
"Vinte e poucos anos."
"E você já era casada com Augusto."
"Sim."
Alexandre desviou o olhar.
Sentia nojo da conversa.
Mas precisava ouvir.
Vitória continuou.
"Seu pai passava semanas viajando."
"Augusto."
Ela o encarou.
"Sim. Augusto."
Alexandre percebeu que não conseguia chamá-lo de outra coisa.
Ainda era pai.
Mesmo depois daquele exame.
Vitória apertou as mãos.
"Henrique trabalhava diretamente com os contratos do grupo. Passávamos muito tempo juntos."
"E vocês tiveram um caso."
"Por alguns meses."
"Você engravidou."
Ela assentiu.
Alexandre engoliu em seco.
"E Augusto não percebeu?"
Vitória levantou os olhos.
"Percebeu."
Alexandre congelou.
"O quê?"
"Augusto sabia."
Aquela resposta atingiu mais forte que todas as anteriores.
"Sabia que eu não era filho dele?"
"Sabia."
"Desde quando?"
"Antes de você nascer."
Alexandre precisou se apoiar na cadeira.
"Isso não faz sentido."
Vitória soltou uma respiração pesada.
"Eu tentei esconder."
"Mas ele descobriu."
"Sim."
"Como?"
"Ele encontrou cartas."
Alexandre olhou para ela.
"Cartas suas para Henrique?"
"Algumas."
"E o que Augusto fez?"
Vitória ficou em silêncio por alguns instantes.
Uma lembrança parecia atravessar seu rosto.
"Eu achei que ele fosse me expulsar."
"Mas não expulsou."
"Não."
"Por quê?"
"Eu nunca entendi completamente."
Vitória apertou os lábios.
"Ele ficou três dias sem falar comigo."
Alexandre mal respirava.
"No quarto dia, entrou no meu quarto e perguntou se eu queria continuar casada."
"E você disse sim."
"Eu estava grávida. Assustada."
"Isso não é uma resposta."
"Eu disse sim."
Alexandre fez um gesto impaciente.
"E eu?"
Vitória olhou diretamente para ele.
"Augusto perguntou se Henrique pretendia assumir a criança."
Alexandre sentiu o coração acelerar.
"E ele pretendia?"
Vitória desviou os olhos.
"Henrique disse que não tinha condições."
Alexandre soltou uma risada seca.
Claro.
O homem que era seu pai biológico não tinha condições.
"E Augusto?"
Vitória respirou fundo.
"Augusto disse que você não seria criado como segredo de ninguém."
Alexandre ficou imóvel.
Vitória continuou.
"Ele disse que, se você nascesse dentro da casa dele, seria filho dele."
Os olhos de Alexandre ficaram úmidos.
Ele tentou controlar.
Não conseguiu.
"Ele disse isso?"
"Disse."
Vitória assentiu lentamente.
"E quando você nasceu, foi ele quem escolheu seu nome."
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Alexandre olhou para ela.
"Meu nome?"
"Alexandre Augusto Montenegro."
A garganta dele fechou.
Augusto.
O homem cujo sangue ele não carregava havia colocado o próprio nome no nome dele.
Alexandre virou o rosto.
Durante alguns segundos, nenhuma palavra saiu.
Memórias começaram a surgir sem permissão.
Augusto ensinando-o a andar de bicicleta.
Augusto sentado na arquibancada de uma escola.
Augusto entrando em seu quarto depois de uma derrota.
Augusto segurando seu ombro no primeiro dia no Grupo Montenegro.
Augusto dizendo:
"Um sobrenome não faz um homem."
Alexandre nunca entendera aquela frase.
Até agora.
"Ele sabia."
Vitória não respondeu.
"Meu pai sabia tudo."
"Sim."
Alexandre passou a mão pelo rosto.
"Henrique me deu o sangue."
Vitória ficou em silêncio.
"Augusto me deu uma vida."
Ela abaixou os olhos.
Alexandre sentiu a raiva voltar.
"Então me explica outra coisa."
Vitória ergueu o rosto.
"Se Augusto sabia que Henrique tinha sido seu amante, por que deixou esse homem continuar no Grupo Montenegro?"
Ela congelou.
Alexandre se aproximou.
"Por que Henrique virou advogado da família?"
"Augusto precisava dele."
"Precisava?"
"Henrique conhecia muito bem as empresas."
"Isso é ridículo."
Vitória não respondeu.
Alexandre continuou.
"E por que, anos depois, Augusto colocou justamente você e Henrique como administradores do Fundo Patrimonial Montenegro?"
O rosto de Vitória endureceu.
Alexandre percebeu.
Era ali.
Aquela pergunta tinha atingido alguma coisa.
"Você não sabe?"
Ele aproximou o rosto.
"Ou não quer me contar?"
Vitória levantou.
"Chega."
"Não, mãe."
A palavra saiu pesada.
"Chega de você."
Ele pegou as chaves.
Vitória segurou seu braço.
"Não vá atrás de Henrique."
Alexandre olhou para a mão dela.
"Por quê?"
"Porque ele vai tentar colocar você contra mim."
Alexandre retirou o braço.
"Você fez isso sozinha."
Saiu da mansão.
Enquanto isso, Isabela estava sentada diante de uma pequena mesa no escritório de um cartório antigo no centro de São Paulo.
À sua frente estava Antônio Braga.
O homem tinha oitenta e dois anos.
Durante décadas, havia trabalhado como escrevente e depois tabelião substituto.
Conhecera Augusto Montenegro.
"Faz muito tempo."
Isabela colocou algumas cópias sobre a mesa.
"Eu preciso saber se o senhor reconhece isso."
Antônio colocou os óculos.
Leu.
Quando viu o nome de Augusto, suas mãos pararam.
"De onde você tirou?"
"Dos arquivos da família."
"Isso não deveria estar com você."
"Por quê?"
O velho retirou os óculos.
"Porque Augusto pediu sigilo."
Isabela se inclinou.
"Sobre o quê?"
Antônio olhou para a porta fechada.
Depois para ela.
"Ele veio aqui pouco antes de morrer."
Isabela sentiu um arrepio.
"Para fazer um testamento?"
"Não."
"Então o quê?"
O homem abriu uma gaveta.
Retirou um caderno antigo.
Folheou lentamente.
Parou em uma página.
Havia números escritos à mão.
Antônio apontou para uma sequência.
"Esse é o registro."
Isabela fotografou.
"Registro de quê?"
Ele hesitou.
"De um documento particular."
"Assinado por Augusto?"
"Sim."
"Quem recebeu?"
"Ninguém."
Isabela franziu a testa.
"Como assim?"
"Ele deixou instruções."
"Quais?"
Antônio respirou fundo.
"O documento só poderia ser localizado quando alguém da família começasse a fazer perguntas sobre a origem de Alexandre."
Isabela ficou sem reação.
Augusto havia previsto aquilo.
Talvez não exatamente daquela forma.
Mas previra.
"Eu posso acessar?"
"Com esse número, Mariana Ribeiro consegue solicitar a cópia."
Isabela pegou o celular imediatamente.
Mandou a fotografia para Mariana.
Minutos depois, o telefone tocou.
Mariana.
"Isabela, você tem certeza de que esse número está correto?"
"Foi o tabelião que me passou."
"Eu encontrei o registro."
"E?"
Houve silêncio.
"Está em nome de Augusto Montenegro."
Isabela apertou o telefone.
"Qual é o título?"
Do outro lado, Mariana respirou fundo.
Então leu:
"Carta Particular — somente para Alexandre."
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