"“Ela Não É Minha Filha”… Até o DNA Revelar Um Segredo Pior" Capítulo 3
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Alexandre não conseguiu dormir.
Às quatro da manhã, ainda estava no escritório da mansão, cercado por pastas que durante anos haviam sido assinadas sem que ele realmente as lesse.
Contratos.
Relatórios.
Atas.
Documentos do patrimônio da família.
Durante toda a vida adulta, Alexandre havia administrado empresas, comprado hotéis, vendido terrenos e negociado investimentos milionários.
Mas havia uma parte da fortuna dos Montenegro que ele quase nunca tocava.
O patrimônio familiar.
Augusto cuidara da estrutura durante décadas.
Depois de sua morte, Vitória e Henrique passaram a administrar os documentos mais sensíveis.
Alexandre nunca questionou.
Até aquela noite.
Ele abriu outra gaveta do arquivo.
No fundo, encontrou uma pasta de couro preto.
Na capa havia apenas uma inscrição dourada.
Fundo Patrimonial Montenegro.
Alexandre sentiu um desconforto imediato.
Já ouvira aquele nome inúmeras vezes em reuniões.
Mas nunca havia lido o documento completo.
Sentou diante da mesa.
Abriu a primeira página.
O fundo havia sido criado por Augusto Montenegro muitos anos antes, quando o Grupo Montenegro começou a crescer de forma agressiva em São Paulo.
O objetivo declarado era proteger o patrimônio central da família.
Hotéis.
Participações imobiliárias.
Fundos de investimento.
Terrenos.
Ações estratégicas do grupo.
Alexandre continuou lendo.
Como filho legalmente reconhecido de Augusto, ele possuía o direito de administrar parte das empresas e manter o controle operacional do Grupo Montenegro.
Aquilo ele já sabia.
Mas algumas páginas depois encontrou uma cláusula que nunca tinha visto.
Leu uma vez.
Depois outra.
"A distribuição definitiva das participações familiares deverá priorizar os descendentes biológicos legalmente reconhecidos de Alexandre Augusto Montenegro."
Ele ficou imóvel.
Descendentes biológicos.
Virou a página.
Havia uma tabela.
Alexandre acompanhou cada linha com o dedo.
No caso de existência de uma filha biológica reconhecida, vinte por cento das participações reservadas ao núcleo familiar seriam transferidas para um patrimônio protegido em nome dela.
Ele pegou uma calculadora.
Consultou a avaliação mais recente.
O número apareceu na tela.
Aproximadamente duzentos e trinta milhões de reais.
Alexandre afastou a cadeira.
"Sofia..."
Sua filha tinha quinze meses.
Ainda não sabia falar frases completas.
Ainda dormia abraçada a um coelho de pelúcia.
E já possuía direito potencial a uma fortuna que Alexandre nem sabia que Augusto havia reservado.
A porta do escritório se abriu.
Vitória entrou.
Ela já havia trocado o vestido da festa.
Usava uma camisola de seda e um robe escuro.
"Você ainda está aqui?"
Alexandre não respondeu.
Vitória viu a pasta.
Seu rosto mudou.
"Quem mandou você pegar isso?"
Alexandre ergueu os olhos.
"É patrimônio da minha família."
"Esses documentos são técnicos."
"Eu sei ler."
"Não foi isso que eu quis dizer."
"Então explica."
Vitória permaneceu perto da porta.
Alexandre virou a pasta na direção dela.
"Vinte por cento."
Ela não reagiu.
"Você sabia."
"É claro que eu sabia."
"Sofia tem direito a quase duzentos e trinta milhões de reais."
Vitória soltou uma respiração lenta.
"Você está reduzindo tudo a dinheiro."
Alexandre se levantou.
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"Foi você que tentou apagar minha filha da minha vida."
"Eu tentei impedir uma situação muito maior."
"Maior do que falsificar um exame?"
Vitória endureceu.
"Você ainda não entende como Augusto organizou esse patrimônio."
"Então me ajuda a entender."
Ela olhou para a pasta.
Por um instante, Alexandre teve a impressão de que Vitória estava com medo.
Não de perder dinheiro.
De alguma coisa dentro daqueles papéis.
"Esse fundo nunca deveria ter sido aberto dessa forma."
"Por quê?"
"Porque você não conhece o contexto."
"Eu tenho trinta e sete anos. Talvez esteja na hora de conhecer."
Vitória virou as costas.
"Durma um pouco."
Alexandre soltou uma risada amarga.
"Você mente sobre minha filha, eu descubro que Augusto não era meu pai e sua sugestão é dormir?"
Ela parou.
"Algumas coisas não podem ser resolvidas numa madrugada."
"Mas podem ser escondidas por trinta e sete anos?"
Vitória saiu sem responder.
Alexandre ficou sozinho outra vez.
Às oito e quinze da manhã, ligou para Mariana Ribeiro.
Ela havia trabalhado durante anos com direito societário e sucessório antes de abrir seu próprio escritório na Avenida Paulista.
Augusto confiara nela em algumas operações menores.
Henrique, curiosamente, nunca gostara dela.
Mariana chegou pouco depois das dez.
Entrou no escritório com uma pasta, notebook e expressão séria.
"Você disse que era urgente."
Alexandre colocou o Fundo Patrimonial Montenegro diante dela.
"Quero que leia tudo."
Mariana sentou.
"Henrique sabe que você me chamou?"
"Não."
"Vitória?"
"Sabe que eu estou lendo."
Mariana abriu a pasta.
"Então provavelmente ela já avisou Henrique."
Alexandre apoiou as mãos na mesa.
"Isso é um problema?"
"Depende do que existe aqui."
Durante quase uma hora, Mariana não disse nada.
Apenas leu.
Marcava páginas.
Fotografava trechos.
Fazia anotações.
Alexandre observava cada movimento.
Até que ela parou.
"Alexandre."
"O quê?"
"Você viu esta cláusula?"
"Qual?"
Mariana virou o documento.
O trecho estava perto do final.
Ela apontou.
"Leia."
Alexandre começou.
O texto tratava do surgimento de descendentes biológicos.
Ele já esperava outra regra de distribuição.
Mas não era.
Sua expressão mudou.
"Auditoria?"
Mariana assentiu.
"Automática."
Alexandre leu novamente.
A partir do reconhecimento formal do primeiro descendente biológico de Alexandre Montenegro, todas as movimentações do Fundo Patrimonial Montenegro realizadas nos dez anos anteriores deveriam ser submetidas a auditoria independente.
Nenhum administrador poderia impedir.
Adiar.
Ou substituir a empresa de auditoria indicada.
Alexandre ficou em silêncio.
Mariana continuou.
"Agora olha quem são os administradores responsáveis."
Ele já sabia.
Mesmo assim, virou a página.
Vitória Montenegro.
Henrique Ferraz.
O ar pareceu desaparecer do escritório.
"Então não era só o dinheiro da Sofia."
"Não."
Mariana fechou parcialmente a pasta.
"Se a paternidade dela for reconhecida formalmente, a auditoria começa."
Alexandre encarou a janela.
São Paulo se estendia do lado de fora.
Carros.
Prédios.
Uma manhã comum.
Dentro daquela sala, porém, tudo parecia apodrecer.
"Eu quero os extratos."
"Dez anos?"
"Todos."
Mariana levantou os olhos.
"Isso pode abrir coisas que sua família passou muito tempo tentando manter fechadas."
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"É exatamente por isso que eu quero."
No início da tarde, Alexandre já tinha acionado o departamento financeiro do grupo.
Alguns funcionários hesitaram.
Outros disseram que precisavam de autorização.
Alexandre não aceitou.
"Eu sou o presidente do Grupo Montenegro."
O diretor financeiro tentou explicar.
"O fundo tem administração separada."
"Então me dê acesso ao que estiver ligado às empresas do grupo."
Pouco a pouco, os arquivos começaram a chegar.
Transferências.
Pagamentos por consultoria.
Compra de participações.
Adiantamentos.
Empréstimos entre empresas.
Mariana abriu uma planilha.
A primeira movimentação suspeita apareceu rapidamente.
R$ 18 milhões.
Destino: FZ Participações Ltda.
Mariana pesquisou.
"Empresa aberta há oito anos."
"Quem são os sócios?"
"Uma holding."
"De quem?"
Ela continuou.
"Henrique aparece como procurador."
Alexandre ficou tenso.
Outra transferência.
R$ 27 milhões.
Destino: Vitoria Capital Gestão Patrimonial.
Mariana olhou para ele.
"O nome é coincidência demais."
Alexandre não disse nada.
Mais uma.
R$ 11 milhões.
Mais outra.
R$ 9,4 milhões.
R$ 16 milhões.
R$ 7,8 milhões.
As linhas continuavam.
Quando o total passou de oitenta milhões, Alexandre já não sentia surpresa.
Quando ultrapassou cem, sentiu raiva.
Ao chegar a cento e vinte milhões, Mariana fechou o notebook por alguns segundos.
"Tem mais."
"Quanto?"
"Não sei ainda."
Alexandre passou as mãos pelo rosto.
"Como ninguém viu isso?"
Mariana respondeu com calma.
"Talvez alguém tenha visto."
Ele olhou para ela.
"Meu pai?"
Mariana hesitou.
"Ainda não sabemos."
Alexandre sentiu a palavra bater dentro dele.
Pai.
Nem sabia mais quem aquele homem era.
Augusto.
O homem que o criou.
Ou outro homem cujo nome ainda desconhecia.
Mariana voltou ao computador.
"Tem uma coisa estranha."
"O quê?"
"Algumas empresas aparecem ligadas diretamente a Henrique."
"E as outras?"
"Não diretamente."
"Vitória?"
Mariana ampliou os registros.
"Há procurações assinadas por ela."
Alexandre sentiu a garganta secar.
"Então os dois movimentaram mais de cento e vinte milhões."
"É o que os documentos indicam até aqui."
Ele se levantou.
Começou a andar pelo escritório.
Agora entendia.
Vitória não estava aterrorizada porque Sofia teria direito a vinte por cento.
Duzentos e trinta milhões eram muito dinheiro.
Mas não explicavam um exame falso.
Não explicavam semanas de manipulação.
Não explicavam o medo.
A auditoria explicava.
Sofia não era uma ameaça por causa do que receberia.
Era uma ameaça por causa do que faria aparecer.
Alexandre parou diante do retrato de Augusto.
"Você deixou isso de propósito?"
Mariana olhou para ele.
"Como?"
"Essa cláusula."
Ele apontou para os documentos.
"Meu pai... Augusto nunca fazia nada por acaso."
Mariana permaneceu em silêncio.
Alexandre se aproximou da fotografia.
Augusto aparecia sério, usando um terno escuro.
A mesma fotografia que permanecia na sede do Grupo Montenegro.
A mesma imagem diante da qual Alexandre havia passado milhares de vezes.
"Se ele colocou uma auditoria automática justamente quando surgisse um descendente biológico..."
Mariana completou:
"Talvez soubesse que alguém tentaria impedir esse reconhecimento."
Alexandre sentiu um arrepio.
O telefone vibrou sobre a mesa.
Isabela.
Ele ficou olhando para o nome.
Não sabia se ela atenderia se fosse ele ligando.
Mas agora era ela quem telefonava.
Alexandre atendeu imediatamente.
"Isabela?"
Do outro lado, havia barulho de carros.
A respiração dela parecia acelerada.
"Alexandre... eu encontrei Henrique."
Ele endireitou o corpo.
"Onde você está?"
"Isso não importa agora."
"Isabela, não chega perto dele sozinha."
"Você precisa me ouvir."
Alexandre olhou para Mariana.
"Estou ouvindo."
Houve alguns segundos de silêncio.
Então Isabela falou.
"Ele não é apenas advogado da sua mãe."
Alexandre apertou o celular.
"Então quem ele é?"
Isabela respirou fundo.
"Seu pai."
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