"O Chefe da Máfia Mais Temido Viu Minhas Mãos Tremendo… E Fez Uma Única Pergunta" Capítulo 4
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Isabela passou o resto da manhã tentando lembrar de tudo o que sabia sobre o próprio pai.
Era pouco.
Assustadoramente pouco.
Antônio Oliveira Martins tinha morrido quando ela ainda era adolescente, e durante anos a história sobre ele nunca mudou.
Funcionário de uma empresa de logística.
Homem discreto.
Bom marido.
Pai presente.
Morto em um acidente de trânsito numa noite chuvosa na Rodovia dos Imigrantes.
Era isso.
Sempre tinha sido isso.
Mas agora o nome dele aparecia em pesquisas feitas por Marcelo.
E, pior, Dante Montenegro reconhecia aquele nome.
Isabela saiu da cafeteria com uma sensação que não conseguia explicar.
Não era apenas medo.
Era como descobrir que uma porta sempre esteve dentro da própria casa, mas ninguém nunca tinha contado que ela existia.
Dante insistiu para que ela não fosse sozinha até a casa da mãe.
Dessa vez, Isabela não recusou.
Não porque confiasse totalmente nele.
Mas porque, pela primeira vez desde que fugira de Marcelo, sentia que o perigo talvez fosse muito maior do que o relacionamento que acabara de abandonar.
Dona Lúcia morava em um apartamento antigo na Saúde, numa rua tranquila cercada por padarias, farmácias e pequenos mercados.
Quando abriu a porta e viu a filha acompanhada de Dante, ficou desconfiada.
"Quem é?"
"Um conhecido."
Dante não corrigiu.
"Prazer, senhora."
Lúcia olhou para ele de cima a baixo.
Depois voltou os olhos para Isabela.
"Marcelo fez alguma coisa?"
A pergunta veio rápida demais.
Isabela percebeu.
"Por que você perguntou dele?"
A mãe ficou rígida.
"Porque você apareceu assim."
"Assim como?"
"Com essa cara."
Isabela entrou.
Dante permaneceu perto da porta.
Lúcia fechou e cruzou os braços.
"Fala logo."
Isabela tirou o celular da bolsa.
Abriu a fotografia do documento que Bruno havia mostrado.
Colocou diante da mãe.
"Por que Marcelo estava procurando informações sobre o pai?"
Lúcia olhou para a tela.
Seu rosto perdeu a cor.
Foi rápido.
Mas Isabela viu.
"Mãe?"
"Eu não sei."
"Você conhece o sobrenome Ferraz?"
"Nunca ouvi."
Mentira.
Isabela sentiu imediatamente.
"Olha pra mim."
"Eu estou olhando."
"Não. Está fugindo."
Lúcia se virou e caminhou até a cozinha.
"Você veio aqui para me interrogar?"
Isabela a seguiu.
"Eu vim porque alguém pesquisou o nome de um homem morto há quinze anos."
"Isso não quer dizer nada."
"Quer dizer quando esse alguém passou dois anos comigo."
Lúcia parou.
Dante permaneceu no corredor, sem interferir.
Isabela respirou fundo.
"Marcelo se aproximou de mim num evento do Grupo Montenegro."
A mãe segurou a bancada.
"Grupo Montenegro?"
"Sim."
Dessa vez a reação foi ainda mais clara.
Isabela sentiu o estômago afundar.
"Você conhece esse nome também."
"Todo mundo conhece."
"Não desse jeito."
Lúcia fechou os olhos por alguns segundos.
"Isa, deixa isso pra lá."
"Não."
"Por favor."
"Não."
A firmeza da filha fez a mãe se virar.
"Seu pai morreu. Faz quinze anos. Mexer nisso não vai trazer ele de volta."
"Eu não quero trazer ele de volta."
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A voz de Isabela tremeu.
"Eu quero saber por que um homem que controlou minha vida estava procurando por ele."
Lúcia permaneceu calada.
Isabela se aproximou.
"Você sempre disse que o pai trabalhava numa transportadora."
"Trabalhava."
"Qual?"
Lúcia apertou os lábios.
"Não lembro."
"Você foi casada com ele por quase vinte anos."
"Já faz muito tempo."
"Mãe."
O silêncio se prolongou.
Então Dante finalmente falou.
"Grupo Montenegro Logística."
Lúcia virou o rosto para ele.
O medo apareceu.
Não dúvida.
Medo.
Isabela sentiu o chão mudar sob os pés.
"É verdade?"
A mãe não respondeu.
Dante continuou.
"Antônio Oliveira Martins trabalhou durante nove anos no setor de auditoria financeira da Montenegro Logística."
Isabela olhou para ele.
"Auditoria?"
"Sim."
"Você disse que precisava confirmar."
"Confirmei."
Lúcia segurou a cadeira ao lado.
"Você não tinha o direito."
Dante respondeu sem elevar a voz.
"Seu genro estava investigando um homem morto ligado à minha família."
"Ele não é meu genro."
"Melhor ainda."
Lúcia olhou para Isabela.
"Você terminou com Marcelo?"
"Terminei."
A mãe pareceu aliviada.
Aliviada demais.
Isabela percebeu novamente.
"Você sabia alguma coisa sobre ele?"
"Não."
"Tem certeza?"
"Tenho."
Isabela balançou a cabeça.
"Eu não acredito mais em respostas rápidas."
A frase atingiu Lúcia.
Ela se sentou.
Por alguns segundos, pareceu muito mais velha.
"Seu pai não gostava de falar do trabalho."
"Por quê?"
"Porque dizia que certas coisas eram melhores longe de casa."
Dante se aproximou um pouco.
"Quando começou?"
Lúcia olhou para ele.
"Começou o quê?"
"O medo."
Ela ficou imóvel.
Isabela sentiu um arrepio.
"Mãe?"
Lúcia respirou fundo.
"Uns seis meses antes do acidente."
O coração de Isabela acelerou.
"Que medo?"
"Seu pai começou a chegar tarde."
Ela olhava para algum ponto distante.
"Às vezes entrava em casa e ia direto para a janela. Ficava observando a rua."
Isabela sentiu os dedos esfriarem.
"Como eu."
Lúcia a encarou.
"Não."
"Como eu fazia quando Marcelo me seguia."
"Não compara."
"Então me explica."
A mãe apertou as mãos.
"Antônio começou a guardar documentos em casa."
"Que documentos?"
"Eu nunca vi direito."
"Por quê?"
"Porque ele escondia."
Dante perguntou:
"Ele mencionava transferências?"
Lúcia levantou os olhos.
"Como você sabe?"
A confirmação caiu sobre o ambiente.
Isabela virou-se para Dante.
"Transferências de quê?"
Ele não respondeu imediatamente.
"Dinheiro."
"Quanto?"
"Não sei ainda."
"De onde para onde?"
"Contas ligadas a empresas do Grupo Montenegro."
Isabela sentiu uma pressão no peito.
"E para onde ia?"
Dante olhou para Lúcia.
Ela desviou.
"Parte chegava a empresas ligadas ao Grupo Ferraz."
O silêncio ficou pesado.
Isabela demorou alguns segundos para entender completamente.
"Montenegro e Ferraz."
"Sim."
"Seu grupo e a família do Marcelo."
"Sim."
Ela passou a mão pelo rosto.
"Meu pai descobriu isso?"
"Foi o que encontrei."
Dante retirou uma pasta fina de dentro da bolsa de couro que Bruno havia deixado no carro.
Colocou sobre a mesa.
"Há quinze anos, houve uma auditoria interna extraordinária."
Lúcia ficou nervosa.
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"Guarda isso."
Isabela abriu a pasta.
"Não."
Dentro havia cópias de documentos antigos.
Planilhas.
Protocolos.
Memorandos internos.
Em uma das páginas, o nome de Antônio aparecia no rodapé.
Responsável pela revisão.
Isabela tocou a assinatura.
Conhecia aquela letra.
Tinha visto em cartões de aniversário.
Bilhetes deixados na geladeira.
Mensagens antigas guardadas pela mãe.
"É dele."
Dante assentiu.
"A auditoria identificou movimentações incompatíveis com os registros oficiais."
"Roubo?"
"Possivelmente desvio."
"Possivelmente?"
"Os documentos estão incompletos."
Isabela virou outra página.
"Por quê?"
"Porque o processo interno foi interrompido."
"Quando?"
Dante sustentou o olhar dela.
"Onze dias depois da morte do seu pai."
Isabela parou de respirar.
Lúcia começou a chorar em silêncio.
"Mãe?"
"Eu te disse que não mexesse nisso."
"Você sabia."
"Eu sabia que ele estava com medo."
"Sabia de quê?"
"Não sabia tudo."
"Mas sabia alguma coisa."
Lúcia limpou o rosto.
"Na semana antes de morrer, seu pai me fez prometer que, se acontecesse qualquer coisa, eu não faria perguntas."
"Você aceitou isso?"
"Eu tinha você."
A voz dela quebrou.
"Você tinha treze anos."
Isabela ficou imóvel.
"Ele achava que alguém podia vir atrás de mim?"
Lúcia não respondeu.
A ausência de resposta foi suficiente.
Dante fechou a pasta lentamente.
"Antônio não morreu simplesmente depois de encontrar irregularidades."
Isabela virou-se para ele.
"O que você está dizendo?"
"Estou dizendo que o acidente precisa ser revisto."
Lúcia se levantou abruptamente.
"Não."
"Senhora..."
"Não."
Ela apontou para Dante.
"Vocês Montenegro já tiraram o suficiente da minha família."
Isabela congelou.
Dante também.
"O que isso significa?"
Lúcia percebeu o que tinha dito.
Tarde demais.
"Mãe."
"Eu falei sem pensar."
"Não."
Isabela deu um passo à frente.
"Você falou exatamente o que pensa."
Lúcia baixou o rosto.
Dante permaneceu em silêncio.
Isabela sentiu a raiva crescer.
"Quinze anos."
Sua voz estava baixa.
"Quinze anos você me deixou acreditar que ele morreu por acaso."
"Eu queria te proteger."
"De quem?"
Lúcia chorou.
"De todo mundo."
Dante caminhou até a janela.
Olhou para a rua.
A frase parecia ter confirmado algo que ele não queria aceitar.
Isabela percebeu.
"Você está pensando em alguma coisa."
Dante voltou-se.
"Se Marcelo pesquisava seu pai..."
"Sim?"
"E se ele apareceu no mesmo evento em que você estava..."
Isabela já sabia onde aquilo levava.
"Você acha que ele se aproximou de mim por causa do meu pai."
"Eu acho que essa hipótese agora é forte demais para ser ignorada."
A frase a atingiu com violência.
Dois anos.
Dois anos de namoro.
Flores.
Viagens.
Jantares.
Planos.
Promessas.
E se nada daquilo tivesse começado por acaso?
"E o que ele queria?"
Dante olhou para a documentação.
"Se Antônio encontrou algo grande o bastante para colocar duas famílias em risco, talvez tenha guardado uma prova."
Lúcia levantou os olhos.
"Ele guardou."
Isabela virou-se.
"O quê?"
A mãe pareceu se arrepender no mesmo instante.
"Você acabou de dizer que ele guardou alguma coisa."
"Eu não sei o que era."
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"Onde?"
"Ele tinha uma caixa."
Isabela sentiu o coração bater mais forte.
"Que caixa?"
"Madeira escura. Pequena."
Ela conhecia.
Tinha visto centenas de vezes.
"Está no meu apartamento."
Lúcia arregalou os olhos.
"Você ficou com ela?"
"Claro."
"Isabela, seu pai disse para nunca entregar aquela caixa a ninguém."
"Você nunca me contou isso."
"Porque eu achei que ninguém sabia dela."
O celular de Isabela começou a tocar.
Camila.
Ela atendeu imediatamente.
"Oi."
Do outro lado, só havia respiração acelerada.
"Camila?"
"Isa..."
A voz da amiga estava quebrada.
"Que foi?"
"Você precisa vir pra cá."
Isabela se levantou.
"Por quê?"
"Alguém entrou no seu apartamento."
O corpo inteiro dela gelou.
Dante já estava olhando para ela.
"Você chamou a polícia?"
"Já."
"Não toca em nada."
"Eu não toquei."
Camila respirou fundo.
"Mas está tudo destruído."
Vinte minutos depois, Isabela subia as escadas do prédio em Vila Mariana com Dante logo atrás.
A porta estava aberta.
Um policial permanecia no corredor.
Camila correu até ela.
"Eu vim buscar umas roupas suas e encontrei assim."
Isabela entrou.
Parou.
O apartamento parecia ter sido atingido por uma tempestade.
Gavetas abertas.
Roupas espalhadas.
Almofadas rasgadas.
Livros no chão.
Armários revirados.
Mas a televisão continuava na parede.
O notebook estava sobre a mesa.
Uma pequena caixa com joias permanecia aberta, com tudo dentro.
Isabela caminhou lentamente até o quarto.
Abriu a gaveta inferior do guarda-roupa.
Vazia.
Ela se ajoelhou.
Mexeu nas roupas jogadas.
Nada.
Dante apareceu na porta.
"O que estava aí?"
Isabela não respondeu de imediato.
Seu rosto ficou completamente pálido.
Camila se aproximou.
"Isa?"
Ela virou-se para os dois.
"Não levaram dinheiro."
Olhou para o notebook.
"Não levaram computador."
Depois para as joias.
"Não levaram nada que valesse alguma coisa."
Dante entendeu.
"O que sumiu?"
Isabela sentiu a garganta fechar.
"A caixa do meu pai."
E, naquele instante, o celular dela vibrou.
Número desconhecido.
Havia apenas uma mensagem.
"Você devia ter aberto a caixa antes de mim."
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