"O Chefe da Máfia Mais Temido Viu Minhas Mãos Tremendo… E Fez Uma Única Pergunta" Capítulo 3
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Isabela não dormiu naquela noite.
Tentou.
Deitou no sofá do pequeno apartamento de Camila Ribeiro, em Vila Mariana, fechou os olhos e puxou a manta até o peito.
Mas toda vez que o sono parecia chegar, a mesma imagem surgia.
Marcelo entrando no restaurante.
Marcelo sorrindo.
Marcelo dizendo que ela estava passando por uma fase difícil.
Depois vinha outra.
Dante Montenegro se levantando.
"Ela disse que não vai."
E, por fim, a mensagem.
"Pergunta para Dante Montenegro o que aconteceu com o homem que tentou enfrentá-lo dez anos atrás."
Às três e quinze da manhã, Isabela desistiu de dormir.
Sentou-se no sofá e abriu o celular.
Havia novas mensagens de Marcelo.
Nenhuma ameaça direta.
Isso era pior.
"Espero que você esteja bem."
"Quando quiser conversar como dois adultos, me avisa."
"Eu só quero resolver as coisas."
Isabela sentiu náusea.
Era como se o homem que a havia apertado pelo braço poucas horas antes tivesse desaparecido.
No lugar dele, voltava o Marcelo educado.
O Marcelo que sabia escrever frases perfeitas.
O Marcelo que sempre deixava uma saída para dizer que ela tinha entendido tudo errado.
Camila apareceu no corredor usando uma camiseta larga e os cabelos presos de qualquer jeito.
"Você ainda está acordada?"
Isabela bloqueou a tela.
"Não consegui dormir."
Camila sentou-se ao lado dela.
"Ele mandou mensagem?"
Isabela não respondeu.
Camila estendeu a mão.
"Me mostra."
"Não."
"Isa."
"Não quero passar a noite inteira falando dele."
Camila ficou em silêncio.
Depois olhou para o braço da amiga.
A marca dos dedos de Marcelo começava a aparecer discretamente sobre a pele.
"Você precisa denunciar."
"Eu sei."
"Você fala isso há meses."
Isabela apertou a manta.
"Porque eu sei."
"Então por que não faz?"
A pergunta doeu.
Camila percebeu imediatamente.
"Desculpa."
Isabela respirou fundo.
"Porque ele nunca deixa nada claro."
"Como assim?"
"Ele não manda mensagem dizendo que vai me machucar."
Ela desbloqueou o celular.
Abriu uma conversa antiga.
"Ele diz que seria uma pena se minha mãe descobrisse certas coisas."
Deslizou a tela.
"Ou que talvez eu devesse pensar melhor antes de sair sozinha."
Mais uma.
"Ou que São Paulo é uma cidade grande, mas nem tanto."
Camila fechou os olhos.
"Isso é ameaça."
"Eu sei."
"Então..."
"Mas ele sabe explicar."
Isabela riu sem humor.
"Ele sempre sabe."
Camila ficou olhando para ela.
"Você não precisa continuar explicando Marcelo para as pessoas."
Isabela desviou os olhos.
"Passei tanto tempo fazendo isso que nem percebi."
O celular tocou.
Número desconhecido.
As duas olharam para a tela.
Camila segurou o braço dela.
"Não atende."
O aparelho continuou tocando.
Isabela esperou.
Parou.
Poucos segundos depois, chegou uma mensagem.
"Sr. Dante Montenegro gostaria de falar com você. Meu nome é Bruno Almeida."
Isabela ficou imóvel.
Camila leu por cima do ombro.
"É o homem do restaurante?"
"O segurança dele."
"Como ele conseguiu seu número?"
Essa pergunta incomodou Isabela mais do que deveria.
Ela digitou.
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"Como conseguiu meu telefone?"
A resposta veio rapidamente.
"Seu cadastro profissional no restaurante tem um contato autorizado para emergências. Dona Helena pediu que eu falasse diretamente com você antes de fornecer qualquer informação. Ela não passou nada sem sua autorização."
Isabela respirou um pouco melhor.
Outra mensagem chegou.
"O senhor Montenegro encontrou algo sobre Marcelo Ferraz que acredita que você precisa saber."
Camila franziu a testa.
"Não vai."
Isabela olhou para ela.
"Você acabou de dizer que eu preciso parar de deixar Marcelo controlar minha vida."
"Isso não significa entrar na casa de outro homem perigoso."
"Quem disse que é na casa dele?"
Uma terceira mensagem apareceu.
"Podemos nos encontrar amanhã, às dez, em uma cafeteria na Avenida Paulista. Local público. Você escolhe a mesa."
Camila ficou em silêncio.
Isabela quase sorriu.
"Ele pensou nisso."
"Ou é muito bom em parecer confiável."
"Talvez."
"Isa."
"Eu preciso saber."
Na manhã seguinte, Isabela chegou vinte minutos antes.
Escolheu uma mesa perto da janela, de onde conseguia ver a entrada, a calçada e parte da Avenida Paulista.
Só percebeu a ironia quando Dante entrou.
Ele também olhou primeiro para a porta.
Depois para as janelas.
Só então encontrou Isabela.
Bruno vinha alguns passos atrás.
Os dois se aproximaram.
Dante não se sentou imediatamente.
"Posso?"
Isabela assentiu.
Bruno ficou em outra mesa, longe o bastante para não ouvir tudo.
Dante tirou o celular do bolso e colocou-o virado para baixo.
"Como está seu braço?"
Isabela se incomodou.
"Foi para falar disso que me chamou?"
"Não."
"Então vamos direto ao assunto."
Dante a encarou por alguns segundos.
"Você sempre fala assim quando está com medo?"
"Eu não estou com medo."
"Está."
Ela apertou os lábios.
"Você gosta de dizer às pessoas o que elas estão sentindo?"
"Não."
"Fez isso duas vezes comigo."
"Porque nas duas vezes estava evidente."
Isabela recostou-se na cadeira.
"Então diga logo o que descobriu."
Dante não discutiu.
"Marcelo Ferraz é filho de Augusto Ferraz."
"Eu sei."
Dante franziu a testa.
"Você sabe?"
"Claro que sei."
"Marcelo nunca escondeu quem é o pai."
"Você conheceu Augusto?"
"Uma vez."
"Quando?"
"Num jantar."
Dante permaneceu quieto.
Isabela notou.
"O que foi?"
"Nada."
"Seu rosto diz outra coisa."
Dante quase sorriu.
"Então estamos aprendendo rápido."
Ela não entrou no jogo.
"Quem é Augusto Ferraz para você?"
Dante olhou pela janela.
"Alguém que eu preferia não voltar a encontrar."
"Isso não responde."
"É a resposta que posso dar agora."
Isabela sentiu irritação.
"Você me chama aqui porque descobriu coisas sobre meu ex, mas quando eu faço uma pergunta, não pode responder?"
"Posso responder a algumas."
"Conveniente."
Dante inclinou-se levemente para a frente.
"Então responda uma minha."
"Depende."
"Como vocês se conheceram?"
Isabela hesitou.
Não porque fosse segredo.
Porque parecia irrelevante.
"Há dois anos."
"Isso eu sei."
"Então por que pergunta?"
"Onde?"
Ela tentou lembrar.
Marcelo parecia ter estado em sua vida havia tempo demais.
"Num evento."
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"Que evento?"
"Um jantar beneficente."
Dante ficou completamente imóvel.
Isabela percebeu.
"Qual?"
"Não lembro o nome."
"Tenta."
A intensidade da voz dele mudou.
Não era agressiva.
Mas era urgente.
Isabela fechou os olhos por alguns segundos.
"Tinha alguma coisa sobre bolsas de estudo."
"Local?"
"Um hotel perto do Parque Ibirapuera."
Dante continuou esperando.
Isabela procurou na memória.
"Minha amiga trabalhava para uma ONG que recebeu convites. Eu fui porque ela não queria ir sozinha."
"Qual ONG?"
"Instituto Horizonte."
Dante recuou lentamente na cadeira.
Agora Isabela teve certeza.
Alguma coisa estava errada.
"Você conhece?"
Dante olhou para Bruno.
Um único gesto.
Bruno levantou e se aproximou.
"Confirma para mim."
"Sim?"
"Evento do Instituto Horizonte. Dois anos atrás. Bolsas para estudantes de escolas públicas."
Bruno pegou o celular.
Digitou por poucos segundos.
Depois mostrou a tela.
"Foi realizado no Hotel Imperial Paulista. Patrocínio principal do Grupo Montenegro."
Isabela olhou para Dante.
Ele não disse nada.
"Grupo Montenegro?"
"Sim."
"A sua empresa?"
"Uma delas."
Ela sentiu um arrepio.
"Marcelo estava lá porque o pai dele foi convidado?"
Bruno respondeu:
"Não."
Isabela virou-se para ele.
"Como assim?"
"Augusto Ferraz não estava na lista de convidados."
"Então Marcelo foi com outra pessoa."
Bruno deslizou a tela.
"Também não consta como acompanhante."
Dante pegou o aparelho.
"Tem credenciamento de imprensa? Prestadores? Segurança?"
"Estou verificando."
Isabela ficou desconfortável.
"Isso não prova nada."
"Não."
Dante devolveu o celular.
"Mas muda a pergunta."
"Qual pergunta?"
Ele olhou diretamente para ela.
"Marcelo estava naquele evento por acaso ou estava procurando alguém?"
Isabela sentiu o estômago apertar.
"Você está dizendo que ele estava me procurando?"
"Estou dizendo que ainda não sei."
Ela respirou fundo.
"Isso é absurdo."
"Pode ser."
"Ele veio falar comigo porque derrubei vinho na camisa dele."
Dante não reagiu.
Isabela continuou.
"Eu estava segurando duas taças. Alguém esbarrou em mim. Uma caiu nele."
"Ele ficou bravo?"
"Não."
Ela lembrou.
Marcelo havia rido.
Tinha tirado o paletó.
Tinha dito que aquela era a melhor desculpa que alguém já tinha usado para puxar conversa.
Isabela quase sorriu ao lembrar.
Quase.
"Acho que foi por isso que gostei dele."
"Porque ele não ficou bravo?"
"Porque ele tornou uma situação horrível leve."
Dante ficou quieto.
"Depois?"
"Ele pediu meu número."
"E você deu."
"Dei."
Nos meses seguintes, tudo parecia perfeito.
Marcelo mandava flores no restaurante.
Buscava Isabela depois dos turnos noturnos.
Quando Dona Lúcia, mãe dela, teve uma crise de pressão, ele passou horas no Hospital Santa Cecília.
Levava compras para a casa dela.
Consertava coisas.
Lembrava aniversários.
Sabia qual chocolate Isabela gostava.
"Minha mãe adorava ele."
A voz dela ficou baixa.
"Camila também, no começo."
Dante escutava sem interromper.
"Quando mudou?"
Isabela olhou para as próprias mãos.
"Não aconteceu de uma vez."
Primeiro, Marcelo pediu a senha do celular.
Disse que casais não deveriam ter segredos.
Depois começou a perguntar por que ela precisava conversar tanto com Camila.
"Ele dizia que ela colocava ideias na minha cabeça."
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Dante ficou sério.
"Depois?"
"Roupas."
Marcelo dizia que alguns vestidos chamavam atenção demais.
No começo, fazia piada.
Depois emburrava.
Depois estragava a noite inteira.
"Então eu parei de usar."
Isabela deu de ombros.
"Era mais fácil."
Depois vieram os colegas homens.
Depois as redes sociais.
Depois a conta bancária.
"Ele dizia que eu era desorganizada com dinheiro."
"Era?"
"Não."
A resposta saiu imediata.
"Mas depois de ouvir a mesma coisa cem vezes, você começa a conferir."
Dante apertou a mandíbula.
"Ele passou a controlar sua conta?"
"Primeiro só ajudava."
Isabela soltou uma risada amarga.
"Depois eu precisava explicar cada gasto."
"Por que ficou?"
Ela ergueu os olhos.
A pergunta poderia ter soado cruel.
Mas Dante não parecia julgá-la.
Ainda assim, doeu.
"Porque quando eu pensava em ir embora, ele voltava a ser o homem do começo."
Silêncio.
"Flores. Jantar. Desculpas. Promessas."
Ela engoliu em seco.
"E porque eu achava que, se eu fizesse tudo certo, aquela versão dele voltaria de vez."
Dante desviou os olhos por um segundo.
"Ela nunca existiu."
Isabela ficou imóvel.
"Você não sabe disso."
"Não."
Ele corrigiu:
"Mas homens que precisam controlar cada passo de uma pessoa raramente começam mostrando quem são."
A frase atingiu um lugar que Isabela evitava olhar.
Bruno voltou a mexer no celular.
De repente, parou.
"Dante."
O tom fez os dois olharem.
"Encontrei algo diferente."
Ele colocou o aparelho sobre a mesa.
"Nas verificações de Marcelo dos últimos dois anos."
Isabela franziu a testa.
"Que verificações?"
Bruno explicou:
"Consultas em bancos de dados empresariais, arquivos públicos, registros antigos. Algumas foram feitas por empresas ligadas a ele."
Dante pegou o telefone.
"O que ele procurava?"
"Um nome aparece várias vezes."
Bruno virou a tela para Isabela.
Ela leu.
Uma vez.
Depois outra.
As letras continuaram iguais.
Antônio Oliveira Martins.
O sangue pareceu abandonar seu corpo.
"Não."
Dante observou a reação.
"Você conhece?"
Isabela não respondeu.
Seus dedos começaram a tremer novamente.
Bruno olhou para Dante.
Isabela finalmente tocou a tela com a ponta do dedo.
"Por que Marcelo pesquisaria esse nome?"
"Quem é Antônio?"
Ela levantou os olhos.
A voz saiu quase como um sussurro.
"Meu pai."
Dante ficou imóvel.
Isabela respirou com dificuldade.
"Ele morreu há quinze anos."
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