"O Chefe da Máfia Mais Temido Viu Minhas Mãos Tremendo… E Fez Uma Única Pergunta" Capítulo 1
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As mãos de Isabela Oliveira Martins não paravam de tremer.
Ela segurava a bandeja com força demais enquanto atravessava o salão iluminado do restaurante nos Jardins, tentando convencer a si mesma de que ninguém estava percebendo.
Mas estava.
O caldo dentro do prato fundo balançava a cada passo.
Uma gota escorreu pela borda da porcelana branca e caiu sobre a bandeja.
Isabela apertou os lábios.
Não podia derrubar aquilo.
Não naquela noite.
Não naquele lugar.
E, principalmente, não depois do que tinha acontecido naquela manhã.
O restaurante ocupava o térreo de um edifício elegante perto da Rua Oscar Freire.
Vidros enormes deixavam entrar a luz dourada do fim da tarde, lustres modernos refletiam sobre as mesas e garçons de uniforme escuro atravessavam o salão carregando taças, pratos e sorrisos treinados.
Tudo ali parecia seguro.
Bonito.
Controlado.
Isabela quase riu da ironia.
Naquela manhã, ela havia fugido de casa com duas malas, uma mochila e o coração batendo como se tentasse quebrar suas costelas.
Não era exatamente a casa dela.
Era o apartamento onde morava com Marcelo Ferraz havia quase dois anos.
Durante muito tempo, Isabela chamou aquilo de amor.
Depois chamou de ciúme.
Depois de preocupação.
Só muito tarde começou a chamar pelo nome certo.
Controle.
Marcelo queria saber onde ela estava.
Com quem falava.
O que vestia.
Por que demorava cinco minutos a mais para responder.
Por que Camila havia curtido uma foto dela.
Por que um colega de trabalho tinha mandado uma mensagem sobre troca de turno.
Tudo virava pergunta.
Depois discussão.
Depois ameaça disfarçada de cuidado.
Naquela manhã, ele tinha deixado o apartamento pouco depois das sete.
Isabela esperou quinze minutos.
Depois vinte.
Só então começou a colocar suas coisas dentro das malas.
Não levou tudo.
Não havia tempo.
Algumas roupas.
Documentos.
Remédios.
O carregador do celular.
Uma fotografia antiga dos pais.
O restante ficou para trás.
Inclusive a sensação de que aquele lugar algum dia tinha sido um lar.
Às oito e quarenta e três, ela já estava dentro de um carro de aplicativo, olhando pelo vidro traseiro e imaginando Marcelo surgindo no portão a qualquer segundo.
Ele não apareceu.
A primeira mensagem chegou antes de ela alcançar Vila Mariana.
"Você está onde?"
Isabela não respondeu.
A segunda veio dez minutos depois.
"Isabela, não começa."
Depois:
"Volta para casa."
E então:
"Você acha que pode se esconder de mim?"
Essa última ficou gravada dentro dela.
Mesmo agora, horas depois, a frase continuava ali.
Você acha que pode se esconder de mim?
Isabela chegou à mesa 17.
Quatro homens ocupavam o espaço próximo à grande janela.
Ela já tinha percebido quando eles entraram.
Era impossível não perceber.
Não porque fossem barulhentos.
Era justamente o contrário.
Eles não precisavam fazer barulho para alterar o ambiente.
Dois usavam ternos escuros.
Um terceiro estava com camisa social preta, mangas dobradas até os antebraços, deixando aparecer parte de uma tatuagem.
Mas o quarto homem era diferente.
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Dante Vasconcelos Montenegro.
Isabela ainda não sabia o nome dele.
Só sabia que ele não tinha aberto o cardápio desde que se sentara.
Enquanto os outros falavam em voz baixa, Dante observava.
A entrada.
As janelas.
O corredor que levava aos banheiros.
A porta da cozinha.
Os funcionários.
As mesas.
Era como se ele tivesse chegado ao restaurante não para jantar, mas para estudar todos os possíveis caminhos de saída.
Ele devia ter pouco menos de quarenta anos.
Cabelos escuros.
Barba curta.
Camisa preta sob um blazer igualmente escuro.
Um relógio discreto no pulso.
Nada excessivamente chamativo.
Ainda assim, havia alguma coisa nele que fazia o homem ao seu lado se inclinar quando falava.
E fazia os outros dois esperarem antes de interrompê-lo.
Isabela aproximou-se.
"Boa noite."
A própria voz soou estranha.
Mais fina do que deveria.
Um dos homens ergueu os olhos.
"Boa noite."
Ela colocou o primeiro prato sobre a mesa.
Depois o segundo.
No terceiro, sua mão falhou.
A porcelana escorregou alguns centímetros.
Isabela segurou antes que caísse.
O homem tatuado soltou um sorriso curto.
"Está tudo bem?"
"Está."
Resposta rápida demais.
Ela respirou.
"Desculpe. Está tudo bem."
Mentira.
Era mentira desde o momento em que tinha vestido aquele uniforme.
Dona Helena, proprietária do restaurante, quase havia mandado Isabela para casa quando viu seu estado.
"Você está pálida."
"Não dormi bem."
"Tem certeza de que consegue trabalhar?"
"Tenho."
Não tinha.
Mas precisava do dinheiro.
Precisava do emprego.
Precisava provar para si mesma que Marcelo não tinha destruído também aquela parte da vida dela.
Isabela chegou ao último prato.
O de Dante.
Ele levantou os olhos.
Os dois se encararam por um segundo.
Foi tempo demais.
Isabela sentiu o estômago se apertar.
Aquele homem não tinha o olhar curioso de alguém observando uma garçonete nervosa.
Era um olhar atento.
Preciso.
Incômodo.
Como se ele não estivesse vendo o uniforme.
Estivesse vendo o medo.
Ela estendeu a mão para colocar o prato diante dele.
A bandeja tremeu novamente.
Dante segurou o pulso dela.
Isabela congelou.
Não foi forte.
Não houve violência.
Apenas dois dedos repousaram sobre a parte interna de seu pulso.
Exatamente onde o coração denunciava tudo.
O corpo dela reagiu antes da razão.
Puxou o braço.
"Desculpe."
Dante não impediu.
Mas os olhos dele baixaram por um instante para a mão dela.
Depois voltaram ao rosto.
"Você está tremendo."
A voz era baixa.
Calma.
Isso a deixou ainda mais desconfortável.
Isabela engoliu em seco.
"É o calor da cozinha."
Dante olhou para o salão climatizado.
Depois para ela.
Um dos homens conteve um sorriso.
Isabela sentiu o rosto esquentar.
Dante, porém, não riu.
Não perguntou de novo.
Apenas soltou o pulso dela.
"Claro."
Ela não soube dizer se aquilo significava que ele acreditava.
Provavelmente não.
Isabela se afastou da mesa.
O coração continuava descontrolado.
Ela atravessou o salão até o balcão lateral.
Camila tinha dito para trocar o número.
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Dona Helena tinha dito para procurar a polícia.
Isabela tinha prometido que faria ambos.
Mas promessas parecem simples quando o medo não está sentado no seu peito.
Ela pegou uma jarra de água.
Seu celular vibrou dentro do bolso do avental.
O corpo inteiro ficou rígido.
Não.
Não olha.
Ela tentou continuar andando.
O aparelho vibrou novamente.
Isabela parou perto da entrada da cozinha.
Retirou o celular.
Uma mensagem.
Marcelo.
O nome apareceu na tela junto com a fotografia que ela ainda não tinha tido coragem de apagar.
O homem sorridente daquela foto parecia outra pessoa.
Isabela abriu.
"Eu sei onde você está."
O ar desapareceu dos pulmões.
Por alguns segundos, ela não ouviu o restaurante.
Não ouviu talheres.
Não ouviu conversas.
Não ouviu a máquina de café.
Apenas aquela frase.
Eu sei onde você está.
Ela olhou para as grandes janelas.
Carros passavam do lado de fora.
Pedestres caminhavam pela calçada.
Ninguém parecia estar olhando para dentro.
Isabela fechou a mensagem.
Outro aviso apareceu.
"Não faz nenhuma besteira."
As mãos começaram a tremer ainda mais.
"Isabela?"
Dona Helena surgiu atrás dela.
Isabela bloqueou o celular imediatamente.
"Oi."
"Você está passando mal?"
"Não."
"Tem certeza?"
"Tenho."
Helena olhou para ela com desconfiança.
"Se precisar ir embora..."
"Não preciso."
Isabela respondeu rápido.
Ir embora para onde?
O apartamento de Camila?
Marcelo conhecia Camila.
A casa da mãe?
Marcelo conhecia o endereço.
Um hotel?
Por quanto tempo?
Ela mal tinha dinheiro para reorganizar a própria vida.
"Eu consigo terminar o turno."
Dona Helena hesitou.
Depois assentiu.
"Se mudar de ideia, me avisa."
Isabela agradeceu com um sorriso fraco.
Voltou ao salão.
Mesa 17.
Ela percebeu imediatamente.
Dante ainda estava olhando para ela.
Não de forma descarada.
Mas estava.
Isabela desviou.
Pegou dois copos.
Serviu outra mesa.
Recolheu pratos.
Entregou uma conta.
Tentou entrar no ritmo mecânico do trabalho.
Cinco minutos.
Dez.
Nada aconteceu.
Talvez Marcelo estivesse mentindo.
Talvez estivesse tentando assustá-la.
Era exatamente o tipo de coisa que ele faria.
O problema era que funcionava.
Isabela voltou à mesa 17 para servir água.
O homem tatuado falava sobre uma reunião.
"Se fecharmos até sexta, eles não terão alternativa."
Outro respondeu:
"Desde que o jurídico não invente outro problema."
Dante não participava.
Ele observava Isabela encher os copos.
Ela chegou ao dele.
A garrafa bateu de leve na borda da taça.
O som foi pequeno.
Mas Isabela se assustou.
Dante percebeu.
"Você sempre se assusta assim?"
Ela ergueu os olhos.
"Como?"
"Como se alguém fosse entrar por aquela porta."
O sangue sumiu do rosto dela.
Os outros homens ficaram em silêncio.
Isabela pousou a garrafa.
"Eu não sei do que o senhor está falando."
"Não?"
"Não."
Dante inclinou levemente a cabeça.
Não parecia irritado.
Parecia interessado.
Isso era pior.
"Você olha para a porta a cada vinte segundos."
Isabela apertou os dedos ao redor da garrafa.
"É meu trabalho observar o salão."
"Você não observa o salão."
Ele olhou para a entrada.
"Você observa aquela porta."
Isabela ficou muda.
Dante apoiou um braço sobre a mesa.
"Seu celular tocou."
Ela não respondeu.
"Depois você ficou ainda mais pálida."
"Com licença."
Isabela se virou.
"Quem está te procurando?"
Ela parou.
Não deveria ter parado.
Mas parou.
O salão pareceu pequeno demais.
Isabela virou o rosto lentamente.
Dante a encarava.
Sem sorriso.
Sem provocação.
Sem piedade.
Era pior do que qualquer uma dessas coisas.
Havia certeza.
Ele sabia.
Talvez não soubesse quem.
Talvez não soubesse por quê.
Mas sabia que ela estava com medo de alguém.
"Eu não..."
A porta principal do restaurante se abriu.
Isabela ouviu o som.
O corpo reagiu instantaneamente.
Seus dedos soltaram a garrafa.
Dante segurou antes que caísse.
Mas Isabela já não estava olhando para ele.
Um homem havia acabado de entrar no restaurante.
Terno azul-marinho.
Camisa clara.
Cabelos perfeitamente arrumados.
A aparência impecável de sempre.
Marcelo Ferraz parou junto à entrada.
Olhou para o salão.
Depois encontrou Isabela.
E sorriu.
"Finalmente."
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