"Três Dias Após o Funeral, Ouvi Meu Marido Planejar Minha Herança" Capítulo 5
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Eliza tomou o chá até o fim. Garrett observou cada gole e falou sobre descanso, burocracia e a necessidade de alguém filtrar pedidos. Nenhuma frase isolada soaria estranha. Juntas, formavam um corredor que terminava na assinatura dela.
— Segunda-feira a gente conversa com Harrison — ele disse.
— Sobre o quê?
— Uma procuração limitada. Pagamentos, contratos urgentes, coisas operacionais.
— Você já preparou?
Garrett levou a própria xícara à pia.
— Pedi um modelo a um conhecido.
— Antes da leitura do testamento?
Ele se virou com um sorriso curto.
— Eliza, você está exausta. Não transforma ajuda em suspeita.
Foi a primeira fissura visível. A palavra exausta funcionava como diagnóstico e ordem. Se ela discordasse, confirmaria que não estava em condição de decidir.
— Tem razão — respondeu. — Estou exausta.
Garrett se aproximou e beijou sua testa.
— Então deixa comigo.
Naquela tarde, Eliza ligou para Renato Azevedo, diretor financeiro da Sullivan Vineyards. Conhecia-o desde os vinte anos, mas nunca discutira permissões administrativas com ele.
— Mantenha todas as autorizações como estão — pediu. — Nenhum novo acesso, nenhum cadastro de procurador.
— Inclusive Garrett?
Eliza olhou para a porta fechada do escritório.
— Principalmente Garrett. Registre qualquer tentativa e avise Harrison.
Renato não perguntou por quê.
— Entendido.
Nos dois dias seguintes, a herança mudou a forma como as pessoas se aproximavam. Um primo que mal falara no funeral mandou mensagem sobre "preservar o legado". Um fornecedor apareceu com uma garrafa rara. Uma tia ofereceu ajuda para "administrar a situação de Sienna" e evitou pronunciar o nome da sobrinha.
Eliza anotou cada contato numa planilha. Garrett aparecia atrás dela com comida, café ou sugestões.
— Posso responder por você.
— Ainda não.
— Essas pessoas vão cansá-la.
— Preciso saber quem são.
Ele apoiou as mãos no encosto da cadeira.
— Você não precisa provar nada para ninguém.
— Nem para você?
Garrett riu, porém a mão direita apertou o couro.
— Muito menos para mim.
Na sexta-feira, ele colocou uma pasta diante dela no café da manhã.
— Harrison está complicando demais. Conversei com um especialista.
Eliza não abriu.
— O conhecido?
— Um profissional que já trabalhou com estruturas familiares.
— Nome?
— Não foi consulta formal.
Ele empurrou a pasta alguns centímetros.
— Se você me der uma procuração limitada, posso cuidar das questões operacionais enquanto descansa.
— Segunda-feira eu vejo isso.
— Podemos ler agora.
— Segunda-feira, no escritório de Harrison.
Garrett manteve os dedos sobre a pasta. Eliza pousou a mão no outro lado e a puxou para si.
— Você queria ajudar — disse. — Vou deixar o advogado revisar.
Ele soltou.
— Claro.
Quando Garrett saiu para a cidade, Harrison buscou a pasta. Fotografou cada página antes de colocá-la numa embalagem própria.
— A cláusula de entidades afiliadas está aqui — informou por telefone uma hora depois. — O texto permitiria transferir recursos para empresas vinculadas ao procurador.
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— Mason?
— Ainda não aparece. Precisamos da conexão documental.
Renato ligou em seguida. Duas tentativas de acesso haviam atingido o portal administrativo durante a madrugada. Usaram credenciais antigas ligadas a um consultor externo. O sistema bloqueou ambas.
— Preserve os registros — Eliza ordenou. — Ninguém redefine senha.
— Já isolei os logs.
— Garrett sabe?
— Não por nós.
A chuva começou pouco depois das quatro. Eliza estava na sala quando um carro parou diante da casa. Sienna saiu usando óculos escuros, embora o céu estivesse quase preto.
Entrou sem tirar o casaco. As mãos permaneciam nos bolsos.
Garrett acabara de voltar e estava perto da lareira. Ao vê-la, o corpo dele ficou rígido por meio segundo.
— Precisamos conversar — Sienna disse.
— Sobre o quê? — Eliza perguntou.
Sienna olhou para Garrett.
— A sós.
— Acho melhor vocês duas… — ele começou.
— Eu disse a sós.
Eliza conduziu a irmã escada acima. Entraram no antigo quarto de Margaret. As rosas do funeral continuavam perto da janela, agora com as pétalas escuras nas pontas.
Sienna fechou a porta.
— Eu conhecia Garrett antes de você.
Eliza encostou a porta do armário. Sienna retirou as mãos dos bolsos.
— Não vim pedir perdão. Vim antes que ele consiga fazer você assinar.
— Você esperou até ele falhar.
— Esperei até ficar com mais medo dele do que de perder você.
— Isso não torna sua escolha nobre.
— Eu sei.
Sienna deixou o telefone desbloqueado sobre a cama, com as mensagens abertas. Eliza pediu que ela se sentasse do outro lado. O aparelho ficou entre as duas. A conversa começaria com datas, valores e nomes. Nenhuma delas usaria lágrimas para substituir resposta.
Antes de abrir a primeira mensagem, Eliza fotografou a tela e enviou a Harrison. Sienna entregou a senha do backup e escreveu num papel os lugares onde estivera com Garrett. O hotel da fotografia aparecia na terceira linha.
— Se você apagar alguma coisa agora, eu encerro a conversa — Eliza avisou.
— Não vou apagar.
Eliza tocou a primeira data. A mensagem de Garrett perguntava se Margaret já havia atualizado o fundo. Sienna respondera com um áudio de onze segundos. Ela fechou os olhos, porém deixou a irmã reproduzir.
Durante os dias anteriores, Renato também rastreou solicitações internas feitas em nome de Eliza. Uma delas pedia lista de contratos com cláusulas de mudança de controle. O pedido não trazia assinatura, porém saíra do endereço IP da casa principal numa noite em que Garrett alegara trabalhar no escritório.
Eliza autorizou o bloqueio preventivo e pediu que o conselho recebesse apenas a informação necessária: risco de credencial, auditoria em curso, nenhuma acusação pública. Queria impedir o acesso sem alertar o responsável sobre cada prova preservada.
Na sexta, parentes continuaram a chegar. Um tio trouxe uma proposta para comprar parte das terras. Uma prima sugeriu vender a vinícola enquanto a avaliação estava alta. Garrett recebia todos na porta e apresentava-se como filtro da viúva enlutada, embora Eliza fosse viúva de David e esposa dele.
— Ela não precisa ver isso agora — dizia.
Eliza passou a receber cada documento pessoalmente.
— Deixe na minha mesa — corrigia.
Garrett mantinha o sorriso. Quando os visitantes saíam, perguntava por que ela se expunha.
— Porque o patrimônio está no meu nome.
— Nosso casamento devia significar confiança.
— Significa que você pode esperar até segunda.
Ele encerrou a conversa batendo a porta do escritório com força suficiente para derrubar uma pétala da rosa no corredor.
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