"Três Dias Após o Funeral, Ouvi Meu Marido Planejar Minha Herança" Capítulo 2
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Sienna chegou oito minutos atrasada e não pediu desculpas. Tirou os óculos escuros apenas depois de sentar. Garrett puxou a cadeira ao lado de Eliza, embora a plaqueta com seu nome estivesse do outro lado da mesa.
Harrison esperou todos se acomodarem. Uma assistente fechou a porta e colocou água diante de cada pessoa.
— Margaret Sullivan assinou este documento quatro meses antes do falecimento — começou. — As avaliações patrimoniais anexas foram atualizadas na semana passada.
Eliza abriu a cópia. O nome da mãe ocupava a primeira página com a assinatura firme que a doença não conseguira alterar.
Harrison leu os legados menores, as doações a funcionários antigos e os recursos destinados a bolsas de formação técnica. Sienna batia a unha no copo. Garrett mantinha uma mão sobre o joelho de Eliza.
— À minha filha Eliza Marie Sullivan Pierce, deixo a totalidade do fundo irrevogável Sullivan, atualmente avaliado em quarenta e sete milhões de dólares.
A unha de Sienna parou.
Garrett retirou a mão do joelho da esposa.
Harrison continuou. Três propriedades de alto padrão. A casa principal do vinhedo. Participação integral na Sullivan Vineyards, empresa com faturamento anual próximo de vinte e cinco milhões. Direitos sobre marcas, reservas e contratos de distribuição.
Eliza fixou os olhos numa mancha de luz sobre a mesa. Durante meses, discutira doses de remédio, fisioterapia e oxigênio. Margaret nunca mencionara números. Eliza sabia que a empresa era valiosa; jamais perguntara quanto.
— Para Sienna Louise Sullivan — Harrison prosseguiu —, deixo quinhentos mil dólares em conta restrita, liberados após a conclusão de programa certificado de recuperação e doze meses de progresso documentado.
A cadeira raspou o piso.
Sienna ficou de pé.
— Só isso?
— Sienna… — Eliza chamou.
— Quarenta e sete milhões, a empresa, as casas. E para mim ela deixou uma coleira.
— O valor é seu quando cumprir as condições — Harrison disse.
— Você fala como se ela tivesse me dado uma chance.
— Sua mãe indicou uma equipe independente. Ninguém da família controla o relatório.
Sienna olhou para Eliza.
— Você ficou com tudo. A terra, o nome, a empresa. Tudo.
Eliza fechou o testamento.
— Eu descobri agora.
— E isso melhora o quê?
Garrett levantou depressa. A mão dele tocou o encosto da cadeira de Sienna antes de recuar.
— Vou garantir que ela fique bem.
Eliza virou o rosto.
— Deixa ela sozinha.
— Não vou pressionar. Só quero que saiba que não está sozinha.
Garrett beijou o alto da cabeça de Eliza e seguiu Sienna até o corredor. A porta fechou atrás deles.
Harrison esperou o som dos passos desaparecer. A assistente recolheu o copo de Sienna e saiu pela outra porta.
O advogado tirou os óculos.
— Sua mãe estava preocupada.
— Com Sienna?
— Com pessoas próximas de você.
Eliza passou o polegar pela borda do testamento.
— Garrett?
Harrison não respondeu. Puxou a pasta preta para perto e apoiou as duas mãos sobre ela.
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— Margaret deixou algo para você. Queria que visse sozinha.
— Estou sozinha agora.
— Ela especificou outra reunião. Amanhã, às dez. Sem seu marido, sem sua irmã e sem membros da empresa.
— O que tem nessa pasta?
— Material que precisa ser apresentado na ordem determinada por ela.
Eliza olhou para a porta. Garrett ainda não voltara.
— Você está dizendo que minha mãe investigou alguém da família?
— Estou dizendo que ela tomou medidas para proteger sua capacidade de decidir.
— De quem?
Harrison recolocou os óculos.
— Amanhã.
Eliza deixou o escritório vinte minutos depois. Garrett a esperava na calçada, sozinho. Sienna pedira um carro e fora embora.
— Ela está péssima — ele disse.
— Você conseguiu falar com ela?
— Pouco. Está convencida de que sua mãe a puniu.
— Talvez tenha punido.
Garrett abriu a porta do carro para Eliza.
— Você pode corrigir isso.
— O testamento tem condições.
— Condições podem ser administradas.
Ela entrou. Garrett contornou o veículo e sentou ao volante.
— Harrison explicou como funciona o acesso às contas? — perguntou enquanto ligava o motor.
— Hoje não.
— Posso ajudá-la quando chegar a hora.
— Eu sei.
Ele sorriu, satisfeito com a resposta. No caminho, falou de imposto, governança e decisões urgentes. Eliza ouviu apenas metade. A pasta preta de Harrison ocupava mais espaço dentro do carro do que o homem sentado ao lado.
No vinhedo, ela entrou pela porta lateral. Garrett foi atender uma ligação na cozinha enquanto Eliza subiu para trocar de roupa. Ao descer, ouviu o toque seco de cristal na bancada.
— Já está feito — Garrett disse ao telefone.
Eliza parou no meio da escada.
— Não. Ela não desconfia de nada.
Sua mão fechou no corrimão.
Garrett permaneceu de costas, diante da janela. O copo de uísque estava à direita do celular que segurava.
— Margaret deixou tudo para Eliza. Assim que eu conseguir acesso às contas, a gente venceu.
Eliza levou a outra mão ao bolso do casaco. O telefone estava ali.
Garrett riu.
— Ela vai assinar. Agora só precisa parecer ideia dela.
O gravador continuava ligado.
Eliza permaneceu imóvel quando Garrett saiu da cozinha. Esperou a porta do escritório fechar, desceu e encontrou o copo ainda úmido sobre a bancada. O telefone dele desaparecera; a marca circular no mármore indicava onde estivera.
No pátio, a chuva apagava pegadas. Sienna já alcançara o carro. Antes de entrar, olhou para a janela da cozinha e viu Eliza atrás do vidro. A irmã desviou o rosto e fechou a porta depressa.
Eliza não a chamou. Fotografou o copo, o horário no relógio da cozinha e a entrada do veículo no sistema externo. Depois voltou à escada pelo mesmo caminho, ensaiando o ruído normal de quem acabava de chegar.
Garrett apareceu no corredor.
— Pensei que estivesse lá em cima.
— Fui buscar água.
Ele olhou para o copo deixado na bancada. Eliza pegou outro no armário e encheu. Garrett sorriu, satisfeito, e retornou ao escritório.
Só então ela respirou.
Antes de subir, Eliza limpou o uísque derramado perto das rosas. Guardou o pano usado num saco e escreveu a hora. O gesto pareceu excessivo, mas Harrison havia pedido que preservasse tudo capaz de confirmar a sequência. Pela primeira vez, ela tratou a própria memória como algo que Garrett não poderia editar depois.
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