"A Menina Que Entrou Molhada no Baile" Capítulo 1
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A chuva já atravessara o casaco de Lívia quando ela alcançou as portas giratórias do Hotel Imperial.
Tinha nove anos, fome e um papel amassado com o endereço escrito pela mãe. Esperou um grupo de convidados de smoking entrar e passou junto deles, pequena o bastante para o porteiro não perceber. O ar quente bateu em seu rosto com cheiro de carne assada, lírios e perfume caro.
Os tênis molhados rangeram no mármore.
Lívia olhou o próprio reflexo no piso: cabelo escuro colado à testa, vestido cinza amarrotado, joelho manchado de lama. Atrás dela, o saguão brilhava com ouro e cristal. À frente, uma placa anunciava o Baile Anual do Hospital Infantil Esperança.
Sua mãe saíra de casa três horas antes, usando a única camisa bonita que possuía. Dissera que tinha uma reunião importante e que Lívia devia ficar com Dona Marta, no apartamento ao lado. Clara a abraçara por tempo demais, apertado demais, como se tivesse medo de não voltar.
Dona Marta adormeceu diante da televisão. Lívia encontrou o endereço perto do telefone e saiu pela escada dos fundos.
Agora o salão de baile parecia grande o bastante para engoli-la.
Lustres enormes despejavam luz sobre mesas cobertas de linho branco. Garçons levavam camarões, bolos pequenos e taças de espumante. Um quarteto tocava perto do palco. As roupas dos convidados pareciam custar mais que um ano do aluguel de Clara.
As conversas diminuíam quando Lívia passava. Uma mulher de seda azul puxou a bolsa para perto do corpo. Um homem entregou discretamente o telefone à esposa. Ninguém perguntou se a menina estava perdida ou com frio.
Ela continuou procurando o cabelo escuro da mãe.
O estômago doeu ao ver um pedaço de pão esquecido na borda de uma mesa. Lívia estendeu a mão e parou antes de tocar. Clara sempre dizia que fome não transformava coisa alheia em coisa disponível.
— Mãe? — chamou.
Uma mulher de vestido verde bloqueou seu caminho.
Helena Albuquerque tinha cabelos prateados presos num coque elegante, olhos claros e um broche de diamantes. Era viúva do fundador de um grupo de hospitais e presidia o comitê daquela noite. Olhou para a menina como se alguém tivesse deixado lixo no centro do salão.
— Como esta criança entrou aqui?
A pergunta cortou a música.
— Estou procurando minha mãe.
— Nome?
— Clara.
Um garçom começou a se aproximar. Roberto Nascimento, diretor da fundação, também se levantou de sua mesa. Talvez quisessem conduzir Lívia para um lugar seguro. Helena não esperou.
Pegou uma taça de água com gelo da bandeja.
— Crianças como você entram em lugares assim para roubar. Já vi isso antes.
Ela arremessou a água no rosto de Lívia.
O frio atingiu como tapa. Gotas escorreram pelos olhos e pela boca. Lívia deu um passo para trás; os tênis deslizaram no mármore. Seu joelho bateu no chão, e as palmas rasparam a superfície polida.
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O salão soltou um único suspiro.
Roberto chegou primeiro.
— Dona Helena, ela é uma criança.
— Uma criança sem convite, mexendo na mesa dos convidados.
— Eu não peguei nada — disse Lívia.
Sua voz saiu baixa, mas não falhou.
Helena apontou para a porta.
— Segurança.
Lívia tentou se levantar. Algo escorregou debaixo da gola encharcada do casaco. Uma corrente de ouro bateu no piso com som delicado.
No centro havia uma pedra azul em forma de lágrima.
O pingente girou entre os sapatos de Helena e as mãos trêmulas da menina, recolhendo a luz dos lustres.
O rosto da viúva mudou.
A irritação desapareceu. Em seu lugar surgiu um reconhecimento tão violento que ela precisou segurar a mesa.
— Onde conseguiu esse colar?
Lívia estendeu a mão, mas Helena se abaixou primeiro. Pegou a joia com as duas mãos, como se pudesse se quebrar.
— Minha mãe me deu.
— Está mentindo. Este colar desapareceu há vinte anos.
Helena segurou o ombro da menina. Os dedos apertaram mais do que pretendia.
— Quem é sua mãe? Diga o nome completo.
Roberto afastou a mão dela.
— Não toque nela desse jeito.
Lívia apertou o joelho dolorido.
— Clara Duarte.
Todo o sangue abandonou o rosto de Helena.
O nome atravessou duas décadas de silêncio e chegou ao salão diante de todos.
A viúva caiu de joelhos no mesmo piso onde acabara de humilhar a criança.
Com os dedos trêmulos, virou a safira e procurou um fecho que ninguém mais sabia existir.
Antes que Helena alcançasse o fecho, um garçom se ajoelhou e ofereceu a Lívia um guardanapo. A menina o usou para secar o rosto, ainda sem compreender por que todos a observavam. Seu estômago roncou alto. O som, pequeno e involuntário, atravessou a roda de convidados.
Roberto mandou trazer comida e chamou a equipe médica do hotel. Helena tentou ordenar que afastassem as câmeras, porém dezenas de telefones já estavam erguidos. Pela primeira vez naquela noite, sua fortuna não conseguia controlar a sala.
— Eu só quero minha mãe — repetiu Lívia.
Uma funcionária trouxe pão, queijo e suco. A menina segurou o prato com as duas mãos e perguntou quanto custava. Roberto respondeu que nada. Mesmo assim, ela comeu devagar, guardando metade do sanduíche no bolso do casaco.
— Para depois? — ele perguntou.
— Para minha mãe. Ela saiu sem jantar.
Helena ouviu e sentiu vergonha da abundância desperdiçada nas mesas. Havia travessas quase intocadas, arranjos que custavam meses de aluguel e discursos impressos sobre infância vulnerável. A criança que o evento dizia ajudar fora tratada como ameaça assim que apareceu sem convite.
Quando Helena estendeu a mão para o pingente, Lívia o puxou para perto do peito.
— Era do meu pai — avisou.
— Eu não vou tirar de você.
— A senhora já jogou água.
Helena baixou a mão. Precisaria esperar que a menina permitisse até mesmo a verdade.
No salão, a música havia parado. Um músico recolheu o arco do violino, e os garçons cobriram as bandejas como se o luxo pudesse ser encerrado com um pano. Lívia olhou em volta e percebeu que ninguém ria mais. Ainda assim, nenhuma daquelas pessoas conhecia seu nome. Ela o disse em voz alta para Roberto registrar: Lívia Duarte, nove anos, filha de Clara Duarte. Helena ouviu cada palavra.
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