"A Menina Deu Seu Último Remédio ao Temido Homem" Capítulo 3
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Adrian ouviu o nome de Luca sem demonstrar reação.
O homem estivera ao seu lado na noite da explosão. Segurara-o quando ele tentou correr para o carro em chamas, organizara os funerais e indicara o laboratório que identificou os restos. Durante três anos, sentara-se à direita de Adrian em cada reunião importante.
O pen drive de David terminou de abrir à meia-noite e sete. Guardava manifestos de carga copiados dos servidores da obra. Caixas declaradas como peças de elevador saíam do Porto de Santos e passavam por prédios da Moretti Construções. As fotos mostravam detonadores, explosivo plástico e placas de veículos. Em uma imagem feita três dias antes do atentado, Luca supervisionava uma entrega ao lado de um sedã cinza.
A câmera digital continha algo pior.
David fotografara o estacionamento do restaurante depois de consertar uma cancela. Numa sequência, o carro de Elena aparecia parado. Um homem instalava um pacote sob o chassi, enquanto outra figura observava junto ao sedã. A ampliação revelou Carlo Bassi, especialista em explosivos de uma quadrilha rival, conversando com Luca.
— David sabia quem colocou a bomba — disse Hannah.
O telefone antigo preservava um áudio gravado na manhã do desabamento. A voz de David estava cansada, mas clara. Ele contava que tentara entregar os arquivos ao detetive Otávio Prado. O policial marcara um encontro numa obra em Itaquera, dizendo que ali poderiam falar sem vigilância. David não confiava nele. Se não voltasse, Hannah devia abrir o armário e procurar alguém disposto a descobrir o que ocorrera com a menina do carro.
Ele vira Lily sair viva.
Hannah pausou o áudio. Por dois anos, a morte do marido estivera presa à palavra acidente. Agora tinha intenção e mandante.
Adrian ouvia pela conferência da mansão. Não ofereceu consolo vazio.
— Continue quando conseguir — disse.
David relatava que correra da entrada de serviço após a explosão. Elena já não respirava. Lily, protegida pelo corpo da mãe, estava ferida, mas viva. Ele a entregara a um suposto paramédico sem identificação. Mais tarde, as notícias declararam mãe e filha mortas. Nenhum hospital admitiu ter recebido a criança. Nove minutos haviam desaparecido dos vídeos oficiais.
A última mensagem era para Hannah.
"Se você está ouvindo, me perdoe por não contar. Eu queria manter você longe deles. Diga a Ellie que o pai não foi embora porque quis. Amei vocês até o último segundo."
Hannah encostou a testa na janela da van e chorou. Matteo desligou a tela. Adrian esperou em silêncio.
— Traga-a para casa — pediu. — Ela e as provas.
Sofia chegou à mansão à uma da manhã. Vincent caiu de joelhos. A filha o abraçou antes de saber o que ele fizera. Quando ouviu a confissão, afastou-se e olhou para as marcas vermelhas nos próprios pulsos.
— Pai, você podia ter matado Adrian.
— Achei que matariam você.
Hannah apareceu na porta.
— E quase me transformou em suspeita de homicídio. Minha filha teria ficado sozinha porque as câmeras só mostravam minha bandeja.
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Vincent não se defendeu.
— Escolhi minha filha acima da vida dele e da sua. Não mereço perdão.
Hannah viu Sofia tremendo e compreendeu a precisão da crueldade de Luca: transformar amor em arma e deixar que as vítimas se destruíssem.
— Não perdoo esta noite. O senhor contará tudo e aceitará o que vier depois.
Vincent revelou que Luca desviava cargas e dinheiro havia anos. Elena descobrira o esquema ao revisar uma fundação familiar usada para pagar propinas. Na noite da explosão, levaria um dossiê ao marido. Luca achava que ela viajaria sozinha e direcionou a bomba ao banco do motorista. Quando soube que Lily entrara no carro, deixou o plano seguir.
Depois da explosão, subornou o falso paramédico para levar a criança a uma clínica privada. Alterou amostras genéticas, comprou o detetive Prado e apresentou restos de outra vítima como os de Lily.
— Por que mantê-la viva? — perguntou Adrian.
— No começo, como seguro. Se o senhor descobrisse, Luca teria algo para negociar. Depois usou fotografias para controlar quem conhecia partes da verdade.
Vincent vira uma foto de Lily dezoito meses antes. Luca afirmara que era montagem e ameaçara acusá-lo como cúmplice. O mordomo escolhera o silêncio, dizendo a si mesmo que protegia a família.
— Onde ela está agora?
— A foto desta semana mostrava uma parede verde, uma janela estreita e frio lá fora. Lily segurava um papel com a data. Parecia saudável. Não sorria.
Técnicos recuperaram a imagem apagada. Pela janela aparecia uma caixa-d'água com a palavra incompleta "Santo". Matteo cruzou clima, relevo e propriedades ligadas a empresas de Luca. Encontrou um antigo colégio interno perto de Santo Antônio do Pinhal, comprado por uma fundação educacional falsa após o atentado. A diretora, Mara Valli, era prima de Luca e ex-enfermeira pediátrica.
Adrian quis partir naquela hora. Greene proibiu: uma segunda reação alérgica podia ocorrer por até doze horas, a pressão ainda oscilava e o helicóptero agravaria o risco.
A discussão terminou quando Ellie apareceu de pijama, segurando a mão de Hannah.
— O homem que não respirava vai ficar doente de novo?
— Não, se descansar — respondeu Greene, olhando para Adrian.
Ellie se aproximou da cadeira.
— Tem que obedecer ao médico. Mamãe diz que coragem não é fazer coisa boba.
Adrian teria punido qualquer adulto que falasse assim. Para ela, prometeu esperar o amanhecer.
Hannah ficou ao lado dele enquanto Ellie dormia no sofá. A mansão, antes mausoléu, tornara-se centro de busca.
— David viu minha filha viva e morreu tentando ser ouvido — disse Adrian.
— Morreu tentando nos proteger também. Fez isso do jeito errado. Devia ter confiado em mim.
— Achava que silêncio era proteção.
— O senhor também acha?
Adrian observou as portas fechadas. Elena pedira que ele deixasse os negócios criminosos. Ele sempre respondia que poder mantinha a família segura. Esse mesmo poder dera a Luca recursos para ocultar um atentado e uma criança.
— Achava — admitiu. — Eu estava errado.
Ao amanhecer, abriu pela primeira vez o quarto de Lily. O ar cheirava a poeira e lavanda seca. Sobre a cômoda estava a pulseira de contas em que ela escrevera o próprio nome ao contrário: YLIL. Adrian a guardou no bolso.
O urso da fotografia podia ser uma prova fabricada.
Aquele erro pertencia apenas a ele e à filha.
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