"A Menina Deu Seu Último Remédio ao Temido Homem" Capítulo 2
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Vincent Bellini foi encontrado na capela particular, sentado no último banco com as mãos unidas.
Não tentou fugir quando Matteo retirou seu telefone e o conduziu à biblioteca. O velho mordomo trabalhava para os Moretti havia trinta e dois anos. Preparara o primeiro terno de Adrian, enterrara Elena e carregara o pequeno caixão atribuído a Lily. Naquela noite, porém, havia restos de cristal azul no ralo de seu banheiro e nenhum frasco em seus bolsos.
Greene protestou quando Adrian exigiu participar do interrogatório. Cedeu após instalar oxigênio portátil e obrigá-lo a usar cadeira de rodas. Hannah e Ellie foram levadas para um quarto de hóspedes, sob proteção. Adrian não queria a criança diante de Vincent. Também não precisava submetê-la a novas perguntas: a descrição do tremor e do vidro correspondia ao que a perícia encontrara.
Vincent manteve os olhos baixos quando Adrian entrou.
— Olhe para mim.
O mordomo obedeceu. Parecia cansado havia anos.
— O que colocou no meu vinho?
— Não sei o nome.
Matteo avançou, mas Adrian levantou a mão.
— Uma criança viu. O laboratório identificará. Esta é sua oportunidade de explicar por quê.
— Não posso.
— Pode. Não quer.
Vincent olhou para o relógio e depois para a porta. Seu medo não era de apanhar nem de morrer. Era a urgência de alguém que aguardava um prazo.
— Se eu falar antes da meia-noite, matam minha filha.
— Sofia está em Florença.
O rosto dele se contraiu.
— Chegou ao Brasil há seis dias para me fazer uma surpresa. Pegaram-na no Aeroporto de Guarulhos. Mandaram uma foto com o jornal de ontem e um número diferente em cada ligação. Disseram que eu devia esvaziar o frasco em sua taça às quatro e meia. Se o senhor estivesse vivo à meia-noite, Sofia morreria.
— Por que não pediu ajuda?
— Mostraram outra fotografia. Uma que eu acreditava impossível. Se eu falasse, também matariam a pessoa da imagem.
Adrian segurou os braços da cadeira.
— Quem?
Vincent tornou a olhar o relógio.
— Encontre Sofia primeiro. Depois contarei.
O impulso de Adrian era arrancar a verdade ali. A imagem de Ellie contando até três interrompeu essa reação. Mandou Matteo rastrear a última chamada. O número passava por torres diferentes, mas nas gravações havia um som repetido: rodas metálicas sobre juntas de concreto e uma buzina grave a cada quarenta segundos.
O padrão apontava para galpões próximos à ferrovia de carga na zona leste de São Paulo. O Grupo Moretti possuía vários imóveis na região. Um deles, em Mooca, permanecia lacrado desde a morte de um empreiteiro num desabamento dois anos antes.
O nome do homem era David Carter.
Quando Matteo pronunciou o nome, Adrian sentiu a sala inclinar.
— Repita.
— David supervisionava uma obra da Moretti Construções. A seguradora fechou o depósito durante a investigação. Alguém reativou a energia quatro dias atrás com autorização interna.
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Hannah foi chamada. Deixou Ellie com Greene e chegou abraçada à mochila rosa. Não conhecia o galpão, mas se lembrava do pó cinzento nos sapatos do marido nas semanas anteriores à morte. David passara a verificar a fechadura três vezes. Dizia que um erro de estoque podia lhe custar o emprego.
— Na véspera do acidente, me entregou uma chave de latão — contou. — Disse que, se alguma coisa acontecesse, eu não devia levá-la à polícia antes de saber em quem confiar.
— Onde está a chave?
Hannah apertou Rosie.
— Costurada dentro do coelho.
Depois do funeral, temera que revistassem o apartamento. Abrira a barriga do brinquedo, escondera a chave e fechara a costura. Com o tempo, convencera-se de que o medo de David vinha do estresse.
Matteo trouxe um kit de costura. Hannah abriu Rosie com cuidado. Uma chave marcada com o número 317 caiu sobre a mesa. Junto dela havia um papel minúsculo que nem Hannah sabia existir.
David escrevera um endereço em Santana, seis números e três palavras em letras fortes:
LILY NÃO ESTAVA.
Adrian leu duas vezes.
— O que significa? — perguntou Hannah.
Ele não respondeu. A garganta parecia fechar novamente, embora Greene confirmasse que o oxigênio estava normal.
Vincent soltou um gemido.
— Era a segunda fotografia — confessou. — Lily. Viva.
Adrian levantou da cadeira e o agarrou pelo colete. A fraqueza não reduziu a violência do gesto.
— Minha filha morreu.
— Vimos um caixão fechado. Aceitamos um laudo de DNA porque todos queríamos acabar com o horror. Na fotografia, ela estava maior. Tinha a marca de meia-lua atrás da orelha e segurava o urso daquela noite.
Adrian o soltou.
Durante três anos, sobrevivera transformando a morte em certeza. A possibilidade de erro doía mais que o luto, porque devolvia esperança e um medo que não tinha fundo.
Faltavam cinquenta minutos para a meia-noite. A chave 317 pertencia a armários privados de uma antiga rodoviária no Tietê. Matteo dividiu as equipes: uma seguiria ao galpão; outra abriria o armário. Adrian ficaria na mansão por ordem médica e porque uma saída poderia alertar quem observava a propriedade.
Hannah exigiu acompanhar a equipe do armário.
— David deixou a chave para mim.
— Também deixou uma advertência. Você já chegou perto demais.
— Meu marido morreu por algo ligado à sua família. Minha filha acabou de arriscar a vida pelo senhor. Não decida que me deixar no escuro é uma forma de proteção.
Adrian reconheceu uma coragem que não precisava de arma. Concordou, com a condição de que ela obedecesse a Matteo em caso de perigo.
O armário 317 continha uma bolsa de ferramentas, um telefone antigo, um pen drive e uma câmera digital quebrada. Numa etiqueta, David escrevera: "Cópia. Se algo acontecer, procure 14 de outubro".
Ao mesmo tempo, a equipe na Mooca encontrou uma sala com uma cadeira, fita cortada e uma xícara ainda morna. Sofia estivera ali. Os sequestradores a haviam transferido menos de uma hora antes. Na parede, alguém escrevera 00:15 e o nome de um cais em Santos.
Matteo desconfiou da pista evidente. No reflexo de uma janela do vídeo de segurança, identificou o logotipo invertido de uma lavanderia industrial. A empresa funcionava seis ruas adiante, junto aos trilhos. O ruído das ligações coincidia.
Às onze e cinquenta e dois, os homens entraram por dois lados. Sofia estava presa numa câmara de armazenamento, com capuz e um falso explosivo no torso. Matteo cortou as amarras sem tocar nos fios. Dois vigias tentaram fugir. Um foi capturado; o outro se feriu ao atirar contra os seguranças.
Nenhum conhecia o plano inteiro. Recebiam ordens de um homem chamado senhor Ferraro.
Luca Ferraro era diretor de operações da Moretti Navegação.
Também era padrinho de Lily.
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