"De Mendigo a Rei: A Queda dos Intocáveis" Capítulo 4
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O sol da manhã de Brasília rasgava as persianas verticais da sala de reuniões principal da Procuradoria-Geral da República, banhando o ambiente em uma luz dourada e solene.
As paredes revestidas de madeira nobre e o carpete espesso abafavam qualquer som exterior, criando a atmosfera perfeita para o triunfo institucional que se aproximava.
Renato ajustou os punhos da camisa de algodão egípcio, sentindo o peso frio e reconfortante do relógio de ouro em seu pulso esquerdo.
Ele caminhou com passos firmes até a ponta da imensa mesa oval de mogno, onde todas as câmeras de TV do país já focalizavam sua silhueta imponente.
Hoje era o dia em que o seu nome seria gravado na história da República como o salvador da pátria, o homem que limpou as contas do Estado.
Sua expressão era a própria imagem da serenidade magnânima, um misto calculado de estadista benevolente e implacável guardião da lei brasileira.
Sentado logo ao lado, o vice-procurador-geral Rodriguez ostentava um sorriso largo e caloroso, aplaudindo ostensivamente o colega de bancada.
"Magnífico, meu caro Renato", cochichou Rodriguez, inclinando-se levemente para a frente com os óculos de armação dourada brilhando sob as luzes dos refletores.
"Ninguém na história deste país conduziu uma investigação com tanta maestria e elegância. O cargo de Procurador-Geral titular já é seu por aclamação."
"Agradeço o apoio, Rodriguez", respondeu Renato sem desviar os olhos do telão, deixando escapar um riso abafado de pura soberba e autossatisfação.
"A justiça às vezes precisa ser implacável, mas acima de tudo, ela precisa saber premiar aqueles que mantêm a engrenagem rodando sem ruídos."
Enquanto os elogios públicos ecoavam pelo microfone aberto, a mão esquerda de Rodriguez deslizava sorrateiramente sob o tampo da mesa de mogno.
Seus dedos ágeis digitavam com precisão cirúrgica em um smartphone criptografado, enviando uma mensagem direta para a liderança da oposição no Senado.
A mensagem era curta, cortante e definitiva: "O peixe está na mesa. A última prova está comigo. Preparem o bote para a hora do brinde."
Rodriguez bloqueou o aparelho e o devolveu ao bolso interno do terno com a naturalidade de quem planejava uma rasteira há mais de cinco anos.
Ele detestava a empáfia de Renato, mas acima de todo o ódio, cobiçava a cadeira principal da Procuradoria com uma sede que beirava a obsessão pura.
Se os arquivos secretos que ele guardava no cofre pessoal fossem combinados com o escândalo que a oposição armava, Renato cairia do topo sem paraquedas.
E ele, Rodriguez, surgiria das cinzas como o herói incorruptível que limpou a casa após a queda vergonhosa do antigo aliado.
No canto oposto da mesa, a jovem assistente técnica de plantão, Beatriz, empalideceu subitamente ao olhar para o monitor de controle de redes da repartição.
Uma onda de pings anômalos vindos de servidores externos na Europa estava atingindo os firewalls do sistema com uma velocidade assustadora e inexplicável.
Ela se levantou apressada da cadeira ergonômica e deu três passos rápidos até o ouvido de Renato, com a respiração curta e o rosto tomado por pânico.
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"Senhor Procurador, perdão pela interrupção no meio da solenidade, mas temos uma anomalia gravíssima nos servidores centrais", sussurrou Beatriz, trêmula.
"Os pacotes de dados externos estão bypassando nossos protocolos de segurança primários. Há um tráfego suspeito drenando nossos backups."
Renato sequer virou o rosto para encará-la, limitando-se a soltar um muxoxo de desdém e a agitar a mão direita no ar com soberba.
"Menina, acalme-se e volte para o seu posto de trabalho", retrucou o promotor em voz baixa, sem perder o sorriso maroto para as câmeras de TV.
"O sistema está apenas fazendo a varredura automática de rotina para a transmissão nacional. Não venha criar tempestade em copo d'água agora."
Beatriz engoliu em seco, sentindo o peso esmagador da hierarquia militarizada da instituição esmagar qualquer tentativa de alerta mais urgente.
Ela recuou lentamente para a penumbra da parede de vidro, sabendo que qualquer insistência custaria o seu cargo e a sua carreira no serviço público.
Renato voltou toda a sua atenção para o painel de LED à sua frente, onde o selo oficial da República girava lentamente em alta resolução.
O relógio marcou exatamente dez horas da manhã, o horário estipulado por decreto para o início da transmissão ao vivo para todo o território nacional.
Milhões de brasileiros assistiam paralisados aos telejornais que abriam suas programações com a imagem do promotor sorrindo no plenário de Brasília.
A imprensa especializada elogiava a suposta rigidez moral do homem que comandava o combate à lavagem de dinheiro no topo do sistema judiciário.
Nenhum jornalista naquela sala de imprensa lotada fazia ideia de que, naquele exato segundo, os algoritmos de Enzo já haviam penetrado na última barreira.
As contas offshore nas Ilhas Cayman, nas Ilhas Virgens Britânicas e em Zurique começavam a emitir sinais de alerta vermelho em telas distantes.
O dinheiro sujo acumulado durante anos de propinas, extorsões e subornos começava a evaporar das contas numeradas como água escoando por um ralo.
E o pior de tudo: o sistema automatizado de redistribuição de renda do garoto já apontava o saldo bilionário diretamente para milhares de CPFs de órfãos.
Rodriguez percebeu uma leve alteração na postura dos assessores de imprensa de Renato, mas interpretou aquilo apenas como o nervosismo pré-televisão.
Ele ajeitou a gravata de seda cinza, ajeitou os óculos sobre o nariz e manteve o sorriso polido e impecável colado ao rosto para as lentes dos fotógrafos.
"Está quase na hora do grande desfecho, meu querido amigo", murmurou Rodriguez, erguendo a xícara de porcelana branca para molhar os lábios secos.
Renato assentiu com a cabeça, sentindo a adrenalina pura da vitória absoluta correr pelas suas veias com a intensidade de uma droga pesada.
Ele ergueu lentamente o braço direito, mantendo o indicador estendido bem acima do botão tátil iluminado de azul que finalizava o processo legal.
As câmeras de duzentas emissoras diferentes fecharam o plano em close-estrito no dedo do promotor, registrando cada detalhe daquela apoteose encenada.
Rodriguez, com a xícara de café trêmula encostada nos lábios, olhou para o colega através das lentes dos óculos com um brilho de pura antecipação fria.
A cortina final do teatro institucional estava prestes a subir, mas nenhum dos dois homens na mesa principal fazia a menor ideia de quem puxaria as cordas.
O silêncio na sala de reuniões tornou-se tão denso e pesado que parecia possível ouvir o tique-taque invisível de uma bomba relógio prestes a estourar.
Renato inspirou fundo, inflando o peito com a certeza absoluta de que era intocável, e preparou-se para descer o dedo contra a superfície sensível.
O que ele não sabia, e o que o sistema de segurança da República ignorava completamente, era que o contador regressivo havia chegado ao fim exato.
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