"Seu Último Pedido Foi Ver Seu Cachorro… E O Que Ele Fez Calou A Prisão Inteira" Parte 10
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Luciana Prado recebeu a ligação no início da tarde.
Estava saindo de uma reunião quando viu o número desconhecido.
Quase não atendeu.
"Alô?"
"Luciana Prado?"
"Sim."
"Meu nome é Mariana Ferraz. Sou diretora da unidade onde Henrique Vasconcelos está internado."
Luciana parou no meio do corredor.
Durante alguns segundos, não disse nada.
"Ele morreu?"
"Não."
Luciana fechou os olhos.
"Então por que está me ligando?"
Mariana hesitou.
"Henrique fez um pedido."
Luciana soltou uma respiração curta.
"Não."
"Eu ainda nem disse qual."
"Eu sei qual é."
Uma mulher passou por ela e entrou no elevador.
Luciana continuou imóvel.
"Ele quer me ver."
"Sim."
Luciana apertou o celular.
"Depois de onze anos?"
"Eu entendo se a senhora recusar."
"Não."
Mariana esperou.
Luciana olhou para a cidade através da janela.
"Você não entende."
A voz dela endureceu.
"Todo mundo acha que, quando alguém está morrendo, as pessoas que ficaram precisam correr para resolver tudo."
Mariana não respondeu.
"Como se a morte desse urgência ao arrependimento dele e apagasse o meu tempo."
"Não estou pedindo que a senhora perdoe ninguém."
"Espero que não."
Luciana desligou.
Passou o resto da tarde tentando voltar ao trabalho.
Não conseguiu.
Abriu documentos.
Fechou.
Respondeu dois e-mails sem lembrar o que havia escrito.
Às seis da tarde, estava dentro do carro.
Às seis e vinte, ligou para Gabriel.
Ele atendeu rápido.
"Luciana?"
"Seu pai pediu para me ver."
Houve silêncio.
"Eu sei."
"Foi você quem deu meu número?"
"Não."
"Então como..."
"Rafael tinha."
Luciana apertou o volante.
"Você acha que eu deveria ir?"
Gabriel demorou.
"Eu não tenho direito de responder isso."
Luciana quase sorriu.
"Está aprendendo rápido."
Gabriel respirou do outro lado.
"Mas se você for, não precisa fazer nada por ele."
"Eu sei."
"Nem por mim."
Luciana fechou os olhos.
"Eu sei."
Na manhã seguinte, ela chegou à penitenciária pouco depois das nove.
Usava roupas simples.
Nenhuma maquiagem.
Nenhum símbolo de luto.
Não precisava.
Marcelo já não estava apenas nas roupas que ela vestia.
Estava em tudo.
Nos aniversários que atravessara sem ele.
Na formatura dos filhos.
Nas contas pagas sozinha.
Nos domingos silenciosos.
Nas noites em que acordava imaginando como seria a vida se ele tivesse voltado para casa.
Mariana a recebeu pessoalmente.
"Se quiser desistir, pode ir embora a qualquer momento."
Luciana entregou os documentos ao agente.
"Eu não vim porque alguém me obrigou."
"Eu sei."
"Quanto tempo?"
"O quanto a senhora quiser, dentro do limite médico."
Luciana soltou um suspiro.
"Provavelmente vai ser pouco."
Mariana não comentou.
Antes de abrir a porta da enfermaria, perguntou:
"Quer que eu fique?"
Luciana pensou.
"Não."
A porta se abriu.
Henrique estava acordado.
Quando viu Luciana entrar, perdeu completamente a expressão.
Durante onze anos, ele imaginara aquele momento.
Em nenhuma das versões conseguira prever o que sentiria.
Luciana parou perto da porta.
Henrique abaixou os olhos.
Não conseguiu encará-la.
"Oi, Luciana."
Ela permaneceu de pé.
"Henrique."
Ele apertou os dedos sobre o lençol.
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"Obrigado por vir."
"Não agradece."
Henrique assentiu.
"Tá."
Luciana puxou a cadeira.
Sentou.
Havia pouco mais de um metro entre os dois.
Parecia uma distância imensa.
Henrique tentou olhar para ela.
Não conseguiu por muito tempo.
"Eu não vou pedir perdão."
Luciana respondeu imediatamente:
"Ainda bem."
A voz foi fria.
Henrique assentiu.
"Porque eu sei que não tenho o direito de pedir que você me dê isso."
Luciana apoiou as mãos sobre o colo.
"Pelo menos aprendeu."
"Demorei."
"Onze anos."
"Sim."
"Marcelo não teve onze anos."
Henrique fechou os olhos.
"Eu sei."
Luciana ficou tensa.
"Não fala isso como se soubesse."
Henrique abriu os olhos.
Ela continuou:
"Você sabe que ele morreu."
"Sim."
"Mas não sabe o que aconteceu depois."
Henrique ficou em silêncio.
Luciana inclinou o corpo para a frente.
"Você quer saber?"
Henrique respirou fundo.
"Quero."
"Então escuta."
Ele assentiu.
Luciana começou devagar.
"Nas primeiras semanas, eu dormia com o telefone na cama."
Henrique franziu a testa.
"Por quê?"
"Porque durante alguns segundos, quando acordava, eu esquecia que ele estava morto."
A voz dela não tremia.
"E eu achava que Marcelo podia ligar."
Henrique abaixou a cabeça.
"Depois eu lembrava."
Luciana continuou:
"Nosso filho mais velho parou de falar sobre o pai."
"A mais nova perguntava quando ele voltaria."
Henrique apertou o lençol.
"Eu tive que explicar várias vezes."
Luciana olhou diretamente para ele.
"Você sabe como é dizer para uma criança que o pai não vai voltar?"
Henrique respondeu baixo:
"Não."
"Não sabe."
Ela respirou fundo.
"Eu também não sabia."
O silêncio se tornou pesado.
Luciana continuou.
"Havia seguro."
"Havia indenização."
"Havia dinheiro da venda dos seus bens."
Henrique não interrompeu.
"Mas antes de tudo ser resolvido, havia parcelas."
"Havia escola."
"Havia financiamento."
"Havia uma vida montada para duas pessoas."
A voz dela começou a ficar mais intensa.
"E de repente existia só uma."
Henrique fechou os olhos.
"Eu trabalhei mais."
"Vendi o carro."
"Parei de dormir."
"Comecei a ter crise de ansiedade."
Ela respirou fundo.
"Passei meses sem conseguir dirigir na Bandeirantes."
Henrique levou a mão ao rosto.
"Luciana..."
"Eu não terminei."
Ele baixou a mão.
"Eu tive raiva de você."
Ela continuou.
"Não essa raiva bonita que as pessoas mostram em filme."
Henrique levantou os olhos.
"Eu desejava que você sofresse."
A frase veio limpa.
Sem vergonha.
"Queria que você acordasse com medo."
"Queria que você perdesse tudo."
"Queria que cada aniversário dos seus filhos doesse."
Henrique não se mexeu.
Luciana apertou os dedos.
"Quando soube que você tinha sido condenado, eu senti alívio."
Ela respirou fundo.
"Depois senti culpa por sentir alívio."
Henrique respondeu:
"Você não precisava sentir culpa."
"Não me diga o que eu precisava."
"Desculpa."
Luciana riu sem humor.
"Você ainda pede desculpa por reflexo."
Henrique abaixou os olhos.
"Talvez."
Ela olhou para aquele homem enfraquecido.
Durante anos, imaginara Henrique de muitas formas.
Arrogante.
Cruel.
Indiferente.
Nunca o imaginara assim.
E isso a irritava.
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"Eu não queria que você morresse."
Henrique pareceu surpreso.
Luciana continuou:
"Houve uma época em que eu queria."
Ela sustentou o olhar dele.
"Mas passou."
"Por quê?"
"Porque um dia percebi que continuar esperando seu sofrimento não trazia o Marcelo de volta."
Henrique permaneceu imóvel.
Luciana falou mais baixo:
"Eu estava acordando com você."
"Trabalhando com você."
"Jantando com você."
"Dormindo com você."
Henrique franziu a testa.
"Eu nem estava perto."
"Exatamente."
Os olhos dela ficaram molhados.
"Você estava preso e, mesmo assim, continuava ocupando espaço dentro da minha casa."
Henrique sentiu a garganta fechar.
"Eu não sabia."
"Claro que não."
Luciana limpou uma lágrima rapidamente.
"Você não precisava saber."
Ela respirou fundo.
"Eu precisava entender."
Henrique olhou para ela.
"E entendeu?"
"Demorei."
A voz suavizou, mas não perdeu firmeza.
"Um dia meu filho me perguntou por que eu ainda falava tanto de você."
Henrique fechou os olhos.
"Ele disse que parecia que você tinha virado mais importante na nossa história do que o próprio pai."
A frase atingiu Henrique.
Luciana continuou:
"Foi aí que eu percebi."
"Marcelo estava sendo lembrado pela forma como morreu."
"E você estava sendo lembrado por ter causado a morte."
Ela balançou a cabeça.
"Eu não queria mais isso."
Henrique respirou com dificuldade.
"Eu sinto muito."
Luciana levantou o olhar.
"Eu sei."
Foi a primeira vez que ela disse aquilo sem agressividade.
Henrique percebeu.
Mas não tentou aproveitar.
"Gabriel me contou do projeto."
Luciana falou.
Henrique ficou tenso.
"Ele não devia ter..."
"Ele não tentou me convencer."
"Eu não quero usar o nome do Marcelo."
"Não use."
"Não vou."
Luciana observou o rosto dele.
"Se esse projeto ajudar alguém a não dirigir bêbado, ótimo."
Henrique assentiu.
"Se ajudar uma pessoa em recuperação, ótimo."
Ela continuou.
"Se ajudar uma família que passou por um trauma, melhor ainda."
Henrique ficou em silêncio.
"Mas não faça isso achando que equilibra uma balança."
"Eu não acho."
"Não existe balança."
"Eu sei."
Luciana respirou fundo.
"Você não salva dez pessoas e ganha Marcelo de volta."
Henrique sentiu os olhos se encherem.
"Eu sei."
"Não ganha meu perdão."
"Eu sei."
Luciana se levantou.
Henrique percebeu que a conversa estava terminando.
Ele não tentou impedir.
Ela pegou a bolsa.
Ficou alguns segundos olhando para ele.
Henrique finalmente conseguiu sustentar seu olhar.
Luciana falou:
"Eu não te perdoo, Henrique."
Ele fechou os olhos.
Uma lágrima escapou.
"Eu sei."
Luciana permaneceu ali.
Então continuou:
"Mas também não vou carregar você dentro de mim pelo resto da vida."
Henrique abriu os olhos.
Ela estava chorando.
Não muito.
Apenas o suficiente para que onze anos aparecessem de uma vez.
"Eu quero lembrar do Marcelo sem precisar lembrar de você em seguida."
Henrique não conseguiu falar.
"Quero ir à Bandeirantes sem sentir que aquela estrada pertence à pior noite da minha vida."
Luciana respirou fundo.
"Quero que meus filhos contem histórias do pai deles que não terminem com o acidente."
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Henrique assentiu lentamente.
"Você merece isso."
Luciana pegou a bolsa.
"Não é sobre merecer."
Ela caminhou até a porta.
Henrique chamou:
"Luciana."
Ela parou.
Ele não pediu que voltasse.
Não pediu absolvição.
Apenas disse:
"Eu lembro da voz dele."
Luciana ficou imóvel.
Henrique tentou controlar o choro.
"Até hoje."
Ela não virou.
Henrique continuou:
"E eu espero nunca esquecer."
Luciana fechou os olhos.
Depois abriu a porta.
Antes de sair, respondeu:
"Eu também lembro."
E foi embora.
Henrique ficou sozinho.
Não se sentia perdoado.
Porque não tinha sido.
Não se sentia livre.
Porque algumas consequências não terminavam.
Mas, pela primeira vez em muitos anos, havia dito tudo sem pedir nada em troca.
Naquela noite, pouco depois das duas da manhã, uma dor forte acordou Henrique.
Ele tentou alcançar o botão ao lado da cama.
Não conseguiu.
O monitor começou a disparar.
Uma enfermeira entrou correndo.
"Senhor Henrique?"
Ele tentou responder.
Nenhum som saiu.
"Chama o doutor!"
Outra profissional entrou.
A pressão despencava.
Henrique fechou os olhos.
"Henrique, fica comigo."
Horas antes, Gabriel tinha deixado o celular sobre o criado-mudo do apartamento na Vila Mariana.
Às duas e dezessete, ele começou a tocar.
Gabriel acordou assustado.
Olhou para a tela.
Número da penitenciária.
Sentou na cama imediatamente.
"Alô?"
Do outro lado, Mariana respirou fundo.
"Gabriel..."
Ele levantou antes mesmo de ouvir o resto.
"O que aconteceu?"
Enquanto Gabriel procurava as chaves com as mãos tremendo, a quase cem quilômetros dali, Rafael dormia.
A casa estava completamente silenciosa.
Thor também.
O velho cachorro permanecia deitado em sua cama perto da sala.
Então abriu os olhos.
Levantou a cabeça.
Ficou imóvel.
Rafael continuou dormindo.
Thor tentou se levantar.
A pata traseira falhou.
Tentou novamente.
Conseguiu.
Caminhou lentamente pelo corredor.
Passou pela tigela de água.
Não parou.
Chegou à porta da frente.
Ficou olhando para ela.
Depois se deitou.
Colocou o focinho entre as patas.
Exatamente como tinha feito onze anos antes.
E começou a esperar.
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