"Seu Último Pedido Foi Ver Seu Cachorro… E O Que Ele Fez Calou A Prisão Inteira" Parte 9
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Gabriel voltou os olhos para a primeira página.
Projeto Segunda Chance.
Leu o nome outra vez.
Depois folheou os documentos.
Havia contratos.
Pareceres jurídicos.
Relatórios bancários.
Planilhas.
E várias anotações feitas à mão por Henrique.
Gabriel franziu a testa.
"Você preparou tudo isso daqui?"
Henrique respirou devagar.
"Não sozinho."
"Com quem?"
"Advogados."
Gabriel virou mais uma página.
"Esses valores..."
Henrique percebeu a pergunta antes que ela fosse feita.
"São legais."
Gabriel ergueu os olhos.
"Eu não perguntei isso."
"Mas pensou."
Gabriel ficou em silêncio.
Henrique continuou:
"Quando vendi parte da empresa, nem tudo foi usado na indenização."
"Quanto sobrou?"
"Menos do que as pessoas imaginavam."
"Mas ainda é dinheiro."
"Sim."
Henrique apontou para os papéis.
"Ficou aplicado durante esses anos."
Gabriel começou a fazer contas mentalmente.
Não era uma fortuna capaz de reconstruir a antiga vida da família.
Mas era suficiente para financiar alguma coisa importante.
"Você podia ter deixado isso para a mamãe."
"Helena recebeu o que era dela na separação."
"E para mim?"
Henrique olhou diretamente para ele.
"Você também vai receber uma parte."
Gabriel fechou a pasta.
"Eu não vim aqui buscar herança."
"Eu sei."
"Então por que está me mostrando isso?"
Henrique respirou fundo.
"Porque eu preciso de alguém que não transforme esse projeto em homenagem a mim."
Gabriel ficou imóvel.
"Como assim?"
"Meu nome não pode estar na fachada."
Henrique falou com dificuldade.
"Não quero placa."
"Não quero estátua."
"Não quero gente contando que eu fui um homem maravilhoso porque me arrependi."
Gabriel o observou em silêncio.
Henrique prosseguiu:
"Eu não fui."
A resposta veio sem hesitação.
"Fiz coisas boas na vida."
"Também fiz uma escolha que matou um homem."
"Uma coisa não cancela a outra."
Gabriel abriu a pasta novamente.
Na segunda seção, encontrou o estatuto preliminar.
O projeto teria sede inicial em uma propriedade adaptada no interior de São Paulo.
Havia parceria em negociação com veterinários, psicólogos e especialistas em comportamento animal.
Gabriel começou a ler em voz alta.
"Resgate e acolhimento de cães idosos, abandonados ou aposentados de funções de trabalho."
Ele parou.
Olhou para Henrique.
"Foi por causa do Thor?"
"Começou com ele."
"Começou quando?"
Henrique demorou.
"Anos atrás."
Gabriel franziu a testa.
"Antes do câncer?"
"Sim."
Essa resposta o surpreendeu.
Ele esperava descobrir que tudo aquilo tinha surgido diante da proximidade da morte.
Mas não.
Henrique já pensava no projeto quando ainda acreditava ter muitos anos pela frente.
Gabriel continuou lendo.
Os animais seriam avaliados por veterinários e profissionais de comportamento.
Nem todo cachorro resgatado seria utilizado em atividades assistidas.
Os que não tivessem perfil adequado permaneceriam sob cuidado até serem adotados ou viveriam no próprio instituto.
"Havia uma veterinária envolvida."
Gabriel apontou para um nome.
"Camila Nogueira."
Henrique assentiu.
"Ela trabalha com comportamento e intervenção assistida por animais."
"Você conhece ela?"
"Por cartas."
Gabriel quase sorriu.
"Você resolveu metade da sua vida por carta."
Henrique soltou uma risada curta.
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"Era o que eu tinha."
Gabriel virou a página.
O projeto previa quatro frentes.
A primeira chamou sua atenção.
Acompanhamento emocional de pessoas privadas de liberdade.
Gabriel ficou sério.
"Você quer colocar cachorros dentro de presídio?"
"Com equipe profissional."
"Isso existe?"
"Existe trabalho parecido em vários lugares."
Henrique respirou fundo.
"A ideia não é jogar um cachorro numa cela e chamar isso de terapia."
Gabriel continuou lendo.
Haveria avaliação psicológica.
Controle veterinário.
Treinamento.
Supervisão.
Participação voluntária.
"E por que presos?"
Henrique demorou a responder.
"Porque muita gente chega aqui sem saber lidar com raiva, culpa, medo."
Gabriel o interrompeu.
"Isso não diminui o crime."
"Não."
"Nem a responsabilidade."
"Não."
Henrique ergueu os olhos.
"É justamente por isso."
Gabriel não entendeu.
Henrique falou mais devagar.
"Responsabilidade não é só sofrer uma consequência."
"Também é aprender a não repetir."
Gabriel olhou para a folha.
Henrique continuou:
"Tem homem aqui que vai sair."
"Vai voltar para a esposa."
"Para os filhos."
"Para a rua."
Ele precisou parar para respirar.
"Se sair exatamente igual entrou, a prisão não protegeu ninguém."
Gabriel não respondeu.
A segunda frente era destinada a famílias afetadas por crimes e traumas.
Aquilo o incomodou imediatamente.
"Famílias de vítimas?"
"Sim."
Gabriel fechou o semblante.
"Você acha mesmo que uma família que perdeu alguém por causa de um criminoso vai querer participar de um projeto criado por você?"
Henrique balançou a cabeça.
"Talvez não."
"Então por que colocar isso?"
"Porque o projeto não é meu."
Gabriel encarou o pai.
Henrique apontou para o documento.
"Depois que começar, precisa existir sem mim."
"Sem minha história."
"Sem exigir que ninguém aceite de onde veio o dinheiro."
Gabriel ficou pensativo.
"Luciana sabe disso?"
"Não."
"Então você está criando apoio para vítimas sem sequer conversar com uma?"
Henrique aceitou a crítica.
"Por isso a proposta diz que essa parte só pode funcionar se organizações de apoio às vítimas participarem da construção."
Gabriel encontrou exatamente aquela cláusula algumas páginas depois.
Nenhuma ação direcionada a vítimas poderia ser implementada apenas pela direção do instituto.
Precisaria de conselho independente.
Gabriel levantou os olhos.
"Você pensou bastante nisso."
"Tempo é uma coisa que prisão dá."
A terceira frente tratava da recuperação de pessoas com dependência de álcool.
Gabriel parou de virar as páginas.
Henrique percebeu.
"Essa é a parte mais importante para mim."
Gabriel soltou uma respiração pesada.
"Imagino."
"Não quero palestra de criminoso arrependido."
"Então o que você quer?"
"Profissionais."
Henrique falou firme.
"Psicólogos."
"Médicos."
"Grupos de apoio."
"Famílias."
"E cães entram onde?"
"Na adesão."
Gabriel franziu a testa.
Henrique explicou:
"Tem gente que não entra numa sala para falar."
"Mas senta perto de um animal."
"Começa pelo cachorro."
"Depois, talvez, consiga falar com uma pessoa."
Gabriel lembrou de como tinha se ajoelhado diante de Thor.
De como passou anos recusando conversar sobre o pai.
E de como um único gesto do velho cachorro quebrara alguma coisa dentro dele.
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Ele voltou à pasta.
A quarta frente dizia respeito a prevenção.
Palestras e atividades educativas para jovens e adultos sobre álcool, direção e tomada de decisão.
Gabriel ficou sério.
"Você quer contar a sua história?"
"Se os profissionais acharem útil."
"Em vídeo?"
Henrique hesitou.
"Gravei alguns depoimentos."
Gabriel ficou surpreso.
"Quando?"
"Nos últimos meses."
"Falando do acidente?"
"Sim."
"Do Marcelo?"
"Sem usar a imagem dele."
Gabriel assentiu lentamente.
"Isso seria errado."
"Eu sei."
Henrique respirou fundo.
"Eu não tenho direito de usar Marcelo para construir legado."
A frase ficou entre os dois.
Gabriel voltou ao começo do documento.
Havia uma seção destinada ao primeiro animal vinculado simbolicamente ao projeto.
Thor.
Ele quase sorriu.
"Primeiro cão do projeto."
Henrique olhou para ele.
"Ele não vai trabalhar."
"Claro que não."
"Está velho."
"Eu percebi."
Henrique sorriu.
"Camila disse que, no máximo, ele participaria de encontros curtos."
"Se quisesse."
"Se não quisesse, ficaria deitado tomando sol."
Gabriel riu.
"Isso parece mais adequado."
Por alguns segundos, a enfermaria ficou mais leve.
Então Gabriel voltou a olhar para o documento.
"Por que ele?"
Henrique ficou sério.
"Porque Thor me ensinou uma coisa que eu demorei muito para entender."
Gabriel esperou.
"Um animal não pergunta quem você era antes de sentar do seu lado."
"Isso não pode virar desculpa."
"Eu sei."
Henrique respondeu imediatamente.
"Ele não pode apagar o que eu fiz."
Gabriel ficou imóvel.
Henrique olhou pela janela.
"Mas talvez possa impedir que alguém destrua a própria vida como eu destruí a minha."
A voz saiu baixa.
Gabriel sentiu o peso da frase.
Henrique continuou:
"Se um homem beber e decidir não pegar o carro porque ouviu essa história..."
Ele respirou fundo.
"Talvez alguém chegue vivo em casa."
Gabriel não respondeu.
"Se alguém em tratamento conseguir ficar mais um dia sem beber..."
Henrique apertou o lençol.
"Talvez uma criança não veja o pai se destruir."
Gabriel desviou o olhar.
"Se um preso aprender a controlar a própria violência antes de sair..."
Henrique parou.
"Talvez exista uma vítima a menos."
Gabriel fechou a pasta devagar.
Agora compreendia.
Henrique não estava tentando convencer o mundo de que era bom.
Estava tentando impedir que o pior erro da vida dele terminasse apenas em sofrimento.
Isso não era reparação completa.
Nada seria.
Marcelo continuaria morto.
Luciana continuaria tendo vivido anos que não escolhera.
Gabriel continuaria carregando uma adolescência quebrada.
Mas talvez alguma coisa ainda pudesse nascer daquela ruína.
"Você quer que eu administre isso?"
Henrique respondeu:
"Não."
Gabriel ficou surpreso.
"Então por que eu?"
"Quero que você decida se o projeto deve existir."
"Eu?"
"Sim."
"Você passou anos planejando e agora joga isso na minha mão?"
Henrique quase sorriu.
"Você tem razão."
Gabriel levantou uma sobrancelha.
"Isso é assustador."
"Estou tentando melhorar."
A pequena ironia desapareceu rapidamente.
Henrique continuou:
"Se você achar que tudo isso é só uma forma minha de aliviar a consciência, destrua os papéis."
Gabriel ficou sério.
"Você aceitaria?"
"Sim."
"Sem reclamar?"
"Provavelmente reclamaria."
Gabriel soltou uma risada.
Henrique sorriu.
"Mas aceitaria."
Gabriel colocou a pasta sobre o colo.
"Eu quero falar com a Camila."
"Fale."
"Quero ver os pareceres."
"Veja."
"Quero advogado independente."
"Tenha."
"E nada de transformar isso em Instituto Henrique Vasconcelos."
Henrique fez uma careta.
"Deus me livre."
Gabriel riu de novo.
Foi a segunda vez naquele dia.
E percebeu isso.
Henrique também.
Os dois ficaram em silêncio.
Dessa vez, não era um silêncio hostil.
Era apenas novo.
Uma enfermeira entrou para verificar a medicação.
Henrique fechou os olhos por alguns segundos.
Quando abriu novamente, parecia ainda mais cansado.
Gabriel guardou os papéis.
"Eu vou levar isso."
Henrique assentiu.
"Obrigado."
"Eu não disse que vou fazer."
"Eu sei."
Gabriel se levantou.
Henrique chamou:
"Gabriel."
Ele virou.
"Tem mais uma coisa."
Gabriel voltou para perto da cama.
"Sobre o projeto?"
"Não."
Henrique respirou fundo.
"Eu quero ver uma pessoa."
Gabriel pensou imediatamente na mãe.
"Helena?"
Henrique balançou a cabeça.
"Não."
Gabriel franziu a testa.
"Rafael?"
"Também não."
"Então quem?"
Henrique hesitou.
Pela primeira vez desde que Gabriel entrara na enfermaria, ele pareceu realmente com medo.
"Pai?"
Henrique virou o rosto para a janela.
"Talvez ela não aceite."
Gabriel sentiu o peito apertar.
"Quem?"
Henrique fechou os olhos.
Depois pronunciou o nome que Gabriel jamais esperava ouvir.
"Luciana Prado."
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