"Seu Último Pedido Foi Ver Seu Cachorro… E O Que Ele Fez Calou A Prisão Inteira" Parte 3
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Paulo Mendes deu mais um passo.
Foi pequeno.
Quase nada.
Mas Thor percebeu.
O velho malinois ergueu o corpo de uma vez e se colocou exatamente entre Henrique e o agente.
Henrique ainda estava de joelhos.
As mãos permaneciam apoiadas no pescoço do cachorro.
"Thor."
Rafael puxou levemente a guia.
"Vem."
Thor não se mexeu.
Rafael franziu a testa.
Aquilo não era comum.
Desde que passara a viver com ele, Thor podia estar cansado, com dor ou irritado, mas sempre respondia quando Rafael dava uma ordem.
Sempre.
"Thor, vem."
Nada.
O cachorro continuava olhando para Paulo.
O corpo estava tenso.
As orelhas apontadas para a frente.
Paulo parou.
"Ele está reagindo."
Rafael manteve a voz calma.
"Não faça movimento brusco."
Paulo soltou um suspiro impaciente.
"Precisamos retirar o interno."
Henrique sentiu o estômago apertar.
"Espera."
Mariana olhou para o relógio.
"Paulo."
"Já passamos do horário."
"Eu sei."
"Então precisamos encerrar."
Paulo avançou novamente.
Thor deu um passo para o lado.
Exatamente na mesma direção.
Bloqueando a passagem.
Rafael apertou a guia.
"Thor."
O cachorro soltou um som baixo.
Quase imperceptível.
Um rosnado.
Todos ouviram.
O agente mais novo, Leandro, ficou imediatamente imóvel.
"Rafael..."
"Eu sei."
Rafael se aproximou um pouco mais.
"Thor, olha para mim."
O cachorro não olhou.
Seus olhos continuavam presos aos homens uniformizados.
Henrique finalmente entendeu.
"Meu Deus."
Mariana olhou para ele.
Henrique passou a mão pelo dorso de Thor.
"Ele acha que vocês vão me levar."
Ninguém respondeu.
Henrique engoliu em seco.
Porque aquela frase tinha um peso que nenhum deles conseguia ignorar.
Thor já tinha visto aquilo acontecer uma vez.
Onze anos antes.
Homens uniformizados.
Movimento rápido.
Vozes firmes.
Henrique sendo levado para longe.
E depois...
Nada.
Nenhum retorno.
Thor não sabia o que era uma prisão.
Não sabia o que significava uma sentença.
Não entendia o que era câncer.
Não sabia que o homem atrás dele tinha provocado a morte de outra pessoa.
Não sabia que Henrique tinha passado anos carregando culpa.
Para Thor, existia apenas uma lembrança simples.
Levaram Henrique.
Henrique não voltou.
Agora estavam se aproximando outra vez.
Leandro tentou contornar o cachorro pela lateral.
Thor virou a cabeça imediatamente.
E mostrou os dentes.
Leandro recuou.
"Calma."
Rafael levantou a mão.
"Ninguém chega mais perto."
Paulo fechou a expressão.
"Isso saiu do controle."
"Não saiu."
Rafael respondeu firme.
"Mas vai sair se vocês continuarem cercando ele."
Mariana se aproximou.
"Então diga o que precisamos fazer."
Rafael respirou fundo.
"Dar espaço."
Paulo olhou para ela.
"Diretora..."
"Espaço."
Mariana repetiu.
Os agentes recuaram alguns passos.
Thor continuou parado.
Henrique sentiu a mão tremer.
Ele tocou o pescoço do cachorro.
"Ei."
Thor moveu uma orelha.
"Olha para mim, garoto."
Nada.
Henrique tentou outra vez.
"Thor."
Dessa vez, o cachorro virou apenas um pouco a cabeça.
Henrique sorriu com dificuldade.
"Está tudo bem."
Thor soltou um gemido.
"Está tudo bem, garoto."
Henrique sentiu a garganta fechar.
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"Você não precisa fazer isso."
Thor voltou a olhar para os agentes.
Henrique começou a chorar de novo.
Mas agora não era a mesma emoção da chegada.
Era pior.
Porque Thor estava tentando protegê-lo de algo que ninguém podia impedir.
"Eu sei o que você está fazendo."
Henrique aproximou o rosto do dele.
"Mas não dá."
Rafael apertou os lábios.
Henrique continuou.
"Você já esperou por mim tempo demais."
Thor respirava mais rápido.
"Não espera outra vez."
A voz de Henrique quebrou.
"Por favor."
Por um segundo, o cachorro relaxou o corpo.
Paulo interpretou aquilo como uma oportunidade.
Deu meio passo.
Foi o bastante.
Thor se virou.
O latido explodiu dentro da sala.
Forte.
Seco.
Violento o suficiente para fazer Leandro levar a mão instintivamente ao rádio.
O som bateu nas paredes e voltou.
Todos congelaram.
Thor latiu novamente.
Dessa vez mais desesperado.
Henrique fechou os olhos.
"Não."
O cachorro rosnou.
Rafael puxou a guia.
"Thor, chega."
Nenhuma resposta.
"Thor!"
Pela primeira vez, Rafael elevou a voz.
Mesmo assim, o cachorro plantou as patas no chão.
Paulo falou sem tirar os olhos dele.
"Retirem o animal."
Henrique se virou rapidamente.
"Não machuquem ele."
"Ninguém vai machucar."
Mariana respondeu.
"Mas precisamos terminar."
Rafael se agachou perto de Thor.
"Vamos, velho."
Puxou a guia com cuidado.
Thor não saiu do lugar.
As unhas rasparam o piso.
Rafael tentou novamente.
"Vem."
Thor recuou na direção de Henrique.
Era como se quisesse diminuir ainda mais a distância entre os dois.
Henrique colocou as mãos no focinho dele.
"Thor."
O cachorro olhou.
"Escuta."
Henrique chorava abertamente.
"Você não pode ficar."
Thor soltou um gemido.
"Eu também queria."
Henrique respirou com dificuldade.
"Eu queria muito."
Rafael baixou a cabeça.
Até Paulo desviou os olhos.
Henrique acariciou o rosto do cachorro.
"Mas acabou."
Thor encostou o focinho na palma da mão dele.
"Você foi um bom garoto."
O cachorro fechou os olhos por um instante.
"O melhor."
Henrique sorriu entre lágrimas.
"Melhor do que eu merecia."
Rafael então puxou a guia.
Thor se recusou novamente.
As patas deslizaram no chão.
Ele latiu.
Uma vez.
Depois outra.
E outra.
Leandro se aproximou de Rafael.
"Quer ajuda?"
Rafael hesitou.
"Sem encostar no pescoço."
"Tá."
Leandro segurou a parte traseira do peitoral.
Thor se debateu.
Não com violência.
Com desespero.
As unhas voltaram a raspar o piso.
O corpo velho já não tinha a força de anos atrás, mas ele usava tudo o que ainda restava.
Henrique tentou ficar de pé.
Não conseguiu.
"Thor!"
O cachorro virou a cabeça.
"Está tudo bem!"
Thor latiu.
Henrique apontou para Rafael.
"Vai com ele!"
Nada.
"Vai!"
Thor soltou um som quase humano.
Um gemido longo.
Henrique levou a mão à boca.
Rafael fechou os olhos por um instante.
"Vamos."
Ele e Leandro começaram a conduzir Thor até a porta.
O cachorro olhava para trás a cada passo.
Quando Henrique desaparecia do seu campo de visão, ele torcia o corpo inteiro para encontrá-lo de novo.
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"Thor!"
O cachorro latiu.
Henrique tentou sorrir.
"Eu estou aqui!"
Mais um latido.
A porta se abriu.
Thor começou a resistir ainda mais.
As patas escorregavam.
O peitoral esticava.
Rafael precisou segurar com as duas mãos.
"Calma, velho."
Thor não queria calma.
Queria voltar.
Henrique continuava de joelhos.
"Vai, garoto."
A voz dele já quase não saía.
"Vai."
Thor foi levado para o corredor.
Mas o latido continuou.
Um.
Dois.
Três.
Henrique olhava para a porta aberta.
O som foi ficando mais distante.
Ainda dava para ouvir as unhas arranhando o piso.
Depois mais um latido.
Mais longe.
Henrique fechou os olhos.
Outro.
Ainda mais distante.
Até que não houve nada.
Silêncio.
A porta se fechou.
Henrique permaneceu no chão.
Ninguém mandou que ele se levantasse.
Ninguém falou sobre protocolo.
Paulo olhou para o relógio, mas não disse uma palavra.
Leandro voltou alguns minutos depois.
Os olhos estavam vermelhos.
Mariana se aproximou de Henrique.
"Quer ajuda para levantar?"
Ele balançou a cabeça.
"Não."
Ela esperou.
Henrique passou a mão pelo chão.
Como se ainda pudesse sentir ali o peso da pata de Thor.
"Ele tentou impedir vocês."
Mariana não respondeu.
Henrique riu sem humor.
"Onze anos."
A voz estava vazia.
"Onze anos e ele ainda acha que precisa me proteger."
Mariana se agachou a uma distância respeitosa.
"Ele não conhece a sua sentença."
Henrique olhou para ela.
"Talvez seja melhor assim."
"Por quê?"
"Porque todo mundo me olha e vê primeiro o que eu fiz."
Ele respirou fundo.
"Thor olha e só vê quem eu era para ele."
Mariana ficou em silêncio.
Henrique continuou:
"Mas isso não muda nada."
"Eu sei."
"Marcelo continua morto."
Mariana assentiu.
"Sim."
"Luciana continua sem marido."
"Sim."
"Meu filho cresceu sem pai."
A voz dele falhou.
"Sim."
Henrique fechou os olhos.
"Então não deixe ninguém transformar o que aconteceu aqui em alguma história bonita sobre mim."
Mariana franziu a testa.
"Henrique..."
"Eu não sou inocente porque um cachorro me ama."
A diretora não respondeu.
Henrique conseguiu finalmente se levantar com ajuda da cadeira.
"Ele só não sabe o que eu fiz."
Mariana observou aquele homem magro tentar recuperar o equilíbrio.
"Talvez ele saiba apenas o que você fez por ele."
Henrique sorriu de maneira triste.
"Isso não é a mesma coisa."
No corredor, Rafael estava sentado em um banco.
Thor permanecia junto à porta de aço.
O cachorro respirava com dificuldade.
Rafael ofereceu água.
Thor não bebeu.
"Acabou, velho."
Thor continuou olhando para a porta.
Rafael acariciou sua cabeça.
"Ele não vem."
O cachorro não se moveu.
Rafael sentiu os olhos arderem.
"Você nunca aprendeu isso, né?"
Thor encostou o focinho na fresta inferior da porta.
Ficou ali.
Esperando.
Como tinha feito tantos anos antes.
Naquela noite, Henrique foi levado de volta para a enfermaria.
A medicação o deixava cansado, mas o sono não vinha.
Sempre que fechava os olhos, ouvia Thor latindo no corredor.
Às dez e quarenta e sete, alguém bateu suavemente na porta.
Henrique abriu os olhos.
Padre Antônio entrou.
Era um homem alto, de cabelos completamente brancos, que visitava a penitenciária havia mais de quinze anos.
Henrique o conhecia bem.
"Se veio falar sobre Deus, hoje eu estou sem argumento."
Antônio não sorriu.
"Não vim por isso."
Henrique percebeu que ele segurava alguma coisa.
Um envelope.
"Chegou para você."
Henrique franziu a testa.
"Agora?"
"Foi entregue hoje à tarde. A administração acabou de liberar."
Padre Antônio caminhou até a cama.
Henrique estendeu a mão.
"De quem é?"
O padre entregou o envelope sem responder.
Henrique olhou para a frente.
Depois para o remetente.
O corpo inteiro ficou imóvel.
As mãos começaram a tremer.
Ele leu o nome uma vez.
Depois outra.
Como se os olhos estivessem mentindo.
Gabriel Vasconcelos.
Seu filho.
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