"A Madrasta Contratada pelo Don" Capítulo 2
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A porta se encaixou no batente, abafando as vozes do escritório.
Nora recuou até a parede. Augusto pegou o saco dela e continuou pelo corredor.
— O senhor espera que eu siga andando?
— A entrevista começou quando a senhora entrou no carro.
— E termina quando?
— Se tiver sorte, antes do café da manhã.
Augusto abriu um quarto de hóspedes e deixou roupas secas sobre a cama. Nora trancou a porta, trocou o vestido por uma peça vinho sem mangas e colocou o diploma no fundo do armário. Pela janela, viu dois homens levarem um tapete enrolado até uma garagem lateral.
Ela poderia sair. O portão ficava a quase quinhentos metros e havia seguranças no jardim. O telefone mostrava dois por cento de bateria.
Alguém bateu.
— O menino está esperando — disse Augusto.
— Ele sabe disso?
— Não.
A sala de jantar tinha uma mesa comprida demais para três pessoas. Luca Castellano ocupava a ponta, de camisa preta aberta no pescoço. Uma tatuagem desaparecia sob o colarinho. No braço esquerdo, segurava um menino que se debatia para alcançar o chão.
— Só uma colher — disse Luca.
O garoto virou o rosto. A tigela de sopa caiu e espalhou caldo sobre a toalha.
Luca não gritou. Entregou um guardanapo a Augusto e encarou o filho.
— Léo.
O menino escapou e se enfiou sob a mesa.
— Don, a candidata — anunciou Augusto.
Luca levantou os olhos. O rosto que Nora vira em revistas parecia mais cansado de perto. Havia um corte recente junto aos nós dos dedos.
— Nome?
— Nora Batista.
Ele apontou para a mesa.
— Tente.
— Isso é a entrevista?
— Faça meu filho comer.
Nora se agachou, mantendo um braço de distância da toalha. Dois olhos escuros surgiram entre as pernas das cadeiras.
— Oi, Léo.
— Vai embora.
— Ainda nem cheguei.
— Você é gorda e feia.
Augusto inspirou pelo nariz. Luca continuou imóvel.
Nora procurou o prato. Cenoura, purê, frango e brócolis haviam sido separados em quatro compartimentos. A comida estava fria nas bordas, sinal de que a disputa durava havia tempo.
— Tudo bem — disse ela.
— Faz ela ir embora! Todas as mulheres são ruins!
Nora viu uma fileira de bonecos sobre o aparador. Pegou um herói de tecido com capa vermelha e uma espada presa à cintura.
Sentou no chão, fora do alcance de Léo, e colocou o brinquedo diante do prato.
— Fica tranquilo. Não vou dar comida para você.
O menino estreitou os olhos.
— Vou alimentar ele.
Nora ergueu o boneco e fez a capa tocar a colher.
— Abre a boca, pequeno herói.
Léo saiu alguns centímetros debaixo da mesa.
— Ele não come purê.
— Então não vai conseguir proteger ninguém.
— Consegue, sim.
— Com esses braços fininhos?
Léo olhou os próprios braços. Nora colocou um pedaço de brócolis na colher e aproximou do boneco.
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— Herói que não come não protege ninguém.
— Ele não gosta disso.
— Brócolis dá força. Mas talvez seja forte demais para ele.
O menino se arrastou até a borda da toalha.
— Eu sou mais forte.
— Não sei.
Nora levou a colher na direção do brinquedo. Léo surgiu, agarrou o cabo e enfiou o brócolis na boca. Mastigou de olhos fechados, como se aceitasse um desafio perigoso.
— Viu? — disse ele, com a boca cheia. — Eu ganho dele.
— Uma mordida não decide campeonato.
Léo pegou outra colherada. Depois mais uma. Em poucos minutos, estava sentado no tapete com o prato nos joelhos, alimentando a si mesmo e fingindo dividir com o boneco.
Nora levantou. Luca observava o filho. O canto da boca dele se moveu antes de desaparecer.
— Você começa hoje.
— Ainda não falamos de salário.
Os olhos dele voltaram para ela.
— Augusto.
— A remuneração inicial é de vinte mil reais por mês, com moradia e alimentação — disse o mordomo.
— Para ser babá?
— Madrasta — corrigiu Luca.
Nora olhou para Léo. O garoto escondia um pedaço de cenoura sob a capa do brinquedo.
— Qual é a diferença prática?
— A senhora ficará disponível para a rotina da criança, eventos escolares, atendimento médico e viagens autorizadas — respondeu Augusto.
— Horário?
— Integral.
— Folga?
Augusto hesitou. Nora cruzou os braços.
— Uma criança traumatizada não melhora com adulto exausto. Preciso de oito horas de sono, uma tarde livre por semana e autonomia para organizar refeições. Também quero ler os laudos dele.
Luca apoiou os antebraços na mesa.
— Você faz exigências numa casa onde acabou de ouvir um tiro.
— O tiro não muda o desenvolvimento infantil.
Augusto virou o rosto para esconder alguma reação. Luca apontou para o prato vazio.
— Dê a ela os laudos.
Depois do jantar, Augusto mostrou o segundo andar. O quarto de Nora tinha lareira, closet e uma cama maior que o antigo apartamento dela. No fim do corredor, uma escada subia para outro piso.
— Não vá ao terceiro andar — disse ele.
— O que há lá?
— Uma regra.
— Só isso?
— A última candidata entrou no quarto do Don sem autorização. Foi retirada por uma janela.
Nora lembrou o homem no tapete.
— Não pretendo entrar no quarto de ninguém.
Augusto entregou uma pasta. Havia relatórios da doutora Helena Sampaio: transtorno de estresse pós-traumático, mutismo seletivo em ambientes externos, recusa alimentar, crises ao atravessar portões. O evento inicial aparecia censurado.
— Por que esconderam a causa?
— Assunto da família.
Nora leu as anotações mais recentes. O peso de Léo havia caído por três meses. Nenhuma cuidadora permanecera mais de onze dias.
— Ele precisa de acompanhamento contínuo.
— Por isso a senhora está aqui.
— Eu não substituo psicóloga.
— A doutora Helena virá amanhã.
Nora fechou a pasta. Augusto permaneceu junto à porta.
— Tem mais alguma coisa?
— O Don deseja falar com a senhora na sala menor.
Luca esperava diante da lareira, com um copo de uísque e um envelope pardo sobre a mesa. Indicou a poltrona.
— Você disse que cuidou de uma criança.
— Sobrinho do meu ex-marido. A família demitiu a babá e me fez abandonar pacientes para buscá-lo na escola.
— Fez?
— Eu permiti por tempo demais.
— Por que se divorciou?
— Meu marido tinha vergonha do meu corpo e da cidade onde nasci.
Luca bebeu um gole.
— Só covarde humilha a própria mulher para parecer maior.
Nora ficou em silêncio. Sebastião nunca parecera pequeno dentro da casa dos Ferraz. Na frase de Luca, encolheu.
— Você publicou um anúncio procurando madrasta — disse ela. — Mas descreveu emprego de cuidadora.
Luca empurrou o envelope. Dentro havia um contrato pré-nupcial.
— Não estou contratando uma babá.
— Então o quê?
— Uma esposa.
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