"O Menino Que Quebrou o Farol do Milionário" Capítulo 7
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Caio dormiu por quarenta minutos com a cabeça no colo de Adriano.
Quando acordou, pediu o caderno da escola e perguntou se ainda precisava entregar uma maquete na segunda-feira. Adriano verificou o relógio. Havia perdido a noção do dia.
— Que maquete?
— Sistema solar. Mamãe cortou as bolas, mas faltou pintar Júpiter.
— Podemos terminar.
— Você sabe?
— Não.
— Adulto sempre fala que sabe.
— Posso pesquisar.
Heloísa trouxe a sacola do abrigo. No fundo, encontraram esferas de isopor, tinta e uma folha de instruções dobrada. Adriano cobriu a mesa da lanchonete com guardanapos e abriu um vídeo sobre as faixas de Júpiter.
Caio pintou metade. Adriano fez a outra e errou a proporção da mancha vermelha.
— Ficou parecendo machucado.
— Posso apagar.
— Deixa. Planeta também pode ter cicatriz.
O segurança do hospital trouxe uma camisa limpa para Adriano. Ele entregou a peça a Caio.
— Quer usar como travesseiro?
— Tem seu cheiro.
— Isso é ruim?
O menino cheirou a gola.
— Parece carro caro.
Adriano guardou a camisa. Caio aceitou um cobertor do hospital.
Ao anoitecer, um enfermeiro permitiu que vissem Olívia através do vidro. Tubos cobriam parte de seu rosto. O monitor mantinha um ritmo regular. Caio encostou a fotografia na janela.
— Ela consegue ouvir?
— Talvez — respondeu o enfermeiro.
— Então fala — disse Caio a Adriano.
Adriano se aproximou do vidro.
— Caio terminou Júpiter. Ficou com uma cicatriz.
O menino franziu a testa.
— Isso é tudo?
— Não sei o que ela quer ouvir de mim.
— Que você ficou.
Adriano voltou ao vidro.
— Eu fiquei.
Heloísa se afastou para atender Renata. A audiência de custódia confirmara a prisão de Camila. A anulação matrimonial seria protocolada, e os votos acionários ligados ao fundo de Caio haviam sido congelados.
— O conselho quer um pronunciamento — disse Heloísa.
— Façam uma nota factual — respondeu Adriano. — Nenhum nome de Olívia ou Caio.
— Os repórteres já sabem do herdeiro.
— Então processe quem vazou. Meu filho não será apresentado como ativo recuperado.
Caio ouviu a última frase.
— O que é ativo?
— Uma coisa que vale dinheiro.
— Eu valho dinheiro?
— Para a empresa, suas ações valem. Para mim, você não tem preço.
— Isso é frase de gente rica.
— Provavelmente.
— Mamãe fala que tudo tem custo.
— Sua mãe parece mais inteligente.
— É.
Na madrugada, Caio teve um pesadelo. Acordou gritando que o carro estava pegando fogo. Adriano sentou no chão ao lado do sofá, mantendo as mãos visíveis.
— Estamos no hospital. Sua mãe está na UTI. Heloísa dorme naquela poltrona.
— Não fecha a porta.
— Não vou fechar.
Caio estendeu a mão. Adriano segurou apenas quando os dedos do menino tocaram os seus.
Pela manhã, o cirurgião informou que Olívia reagia bem. Retirariam a sedação nas horas seguintes.
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Adriano levou Caio ao banheiro, encontrou uma escova infantil na loja do hospital e cortou um sanduíche em triângulos. O menino recusou.
— Ela corta em quadrados.
Adriano pediu outro pão.
— Pode comer esse.
— Eu disse quadrados.
— E eu ouvi.
Caio comeu os quatro pedaços. Depois contou que odiava tomate, gostava de dinossauros e dormia com a fotografia sob o travesseiro quando Olívia precisava trabalhar à noite.
— Qual história ela conta?
— A do pai que foi viajar e ia voltar.
— Ela falava bem de mim?
— Falava do homem da foto. Não sabia se você ainda era ele.
Uma enfermeira apareceu na porta.
— Olívia abriu os olhos.
Caio correu. Adriano foi atrás e parou antes de entrar.
Olívia abraçou o filho com cuidado. Então viu Adriano junto ao batente.
— Você ainda está aqui.
— Eu disse que voltaria.
— Você chegou sete anos tarde.
— Eu sei.
Ela estendeu a mão. Adriano se aproximou e segurou dois dedos, evitando os acessos venosos.
— Isto não significa que perdoei — sussurrou Olívia.
— Significa que posso ficar por enquanto.
— Significa que minha mão está fria.
Adriano cobriu os dedos dela com a outra mão. O monitor continuou estável.
Caio subiu na cadeira ao lado do leito e colocou a fotografia sobre o travesseiro. Pela primeira vez, as três pessoas da imagem estavam no mesmo quarto.
Heloísa permaneceu do lado de fora. Olívia pediu que entrasse. A mulher mais velha parou aos pés da cama.
— A guarda de Caio continua com você durante a internação. Isso não apaga o que aconteceu.
— Eu sei.
— Não use sua culpa para comprar tudo que ele aponta.
— Já fui proibida de comprar um telescópio.
— Era profissional — explicou Caio.
— Ele tem sete anos — disse Olívia.
— Foi o que Adriano falou.
Olívia olhou para o pai do menino.
— Você impediu?
— Sugeri começar com um binóculo.
— Também caro — disse Heloísa.
— Estamos aprendendo.
A enfermeira encerrou a visita. Na sala de espera, Adriano recebeu uma chamada do presidente interino. A prisão de Camila derrubara as ações, e bancos exigiam esclarecimentos.
— Envie os documentos a Renata.
— Precisamos do senhor numa coletiva.
— Não hoje.
— O mercado abre em duas horas.
— Meu filho acordou há uma.
Adriano desligou. Caio perguntou se a empresa ia quebrar.
— Talvez perca dinheiro.
— Foi por isso que você viajou quando eu nasci?
— Foi.
— E valeu?
Adriano olhou para a porta do quarto.
— Não.
— Então deixa perder.
— Há pessoas trabalhando lá. Preciso impedir que paguem pelo crime de Camila.
— Mas não vai embora?
— Faço a reunião daqui.
Renata montou uma videoconferência numa sala vazia. Adriano autorizou auditoria externa e afastou executivos ligados a Camila. Rejeitou uma nota que chamava Caio de "herdeiro reencontrado".
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— Ele é uma criança, não uma notícia para recuperar cotação.
Quando voltou, Caio acrescentara um pequeno homem ao sistema solar.
— Quem é?
— Você. Ficou no hospital e na empresa ao mesmo tempo.
Caio lhe deu o lápis preto para pintar o espaço entre os planetas.
— Mamãe fala que o escuro também faz parte.
— Sua mãe fala muita coisa boa.
— Você vai ouvir agora?
— Se ela continuar falando comigo.
— Então não interrompe.
Naquela noite, Adriano ajudou Caio a gravar uma mensagem para Olívia. O menino contou da escola, de Júpiter e do biscoito dividido com Heloísa. No fim, empurrou o telefone para o pai.
— Sua vez.
Adriano gravou: "O conselho terminou. Eu voltei para o corredor. Caio comeu e vai dormir. Não precisa responder."
— Muito curto — reclamou o menino.
— Estou treinando para não interromper.
Caio acrescentou: "Ele ainda está aqui." Enviaram o áudio quando a enfermeira autorizou. Horas depois, Olívia moveu os dedos ao ouvir a voz do filho.
Adriano assistiu pelo vidro. Caio apertou sua mão.
— Esperar também é fazer alguma coisa.
Pela manhã, a equipe retirou mais um tubo. O médico informou que a recuperação exigiria meses. Adriano entregou a Olívia uma lista de adaptações, sem contratar ninguém.
— Você escolhe o que entra na sua casa.
Ela marcou corrimão, cadeira de banho e enfermagem. Riscou motorista, cozinheiro e segurança interna.
— O resto fica fora.
— Certo.
Olívia também exigiu que as visitas fossem marcadas num calendário compartilhado. Adriano aceitou dois encontros semanais e uma chamada curta por noite, sempre no horário escolhido por Caio.
No primeiro sábado, levou apenas um jogo de damas e sanduíches. Não trouxe presentes caros. Caio perdeu a primeira partida, acusou o pai de trapaça e pediu revanche. Adriano venceu novamente.
O menino empurrou o tabuleiro, irritado, e Olívia esperou a reação. Adriano recolocou as peças sem repreendê-lo. Disse que perder também podia ser aprendido sem humilhação.
Caio sentou outra vez. Na terceira partida, Adriano perdeu por mérito, e não por pena.
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