"O Menino Que Quebrou o Farol do Milionário" Capítulo 6
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Adriano entrou no carro antes que Bento abrisse a porta por completo.
— Hospital. Agora.
O SUV saiu com o farol esquerdo destruído. A luz restante cortava o trânsito do meio-dia enquanto Bento usava a sirene de emergência autorizada pela escolta policial.
— O que aconteceu? — perguntou Adriano ao telefone.
— O coração dela parou durante a correção — disse Heloísa. — Estão tentando estabilizar.
— Caio ouviu?
— Ouviu a palavra "parou".
Adriano encerrou a ligação. Bento o viu pelo espelho, mas não ofereceu frase alguma.
No hospital, Caio estava agachado sob uma janela, as mãos tapando os ouvidos. Heloísa permanecia perto, sem tocá-lo.
Adriano se sentou no chão.
— A polícia pegou Camila — disse.
Caio não levantou o rosto.
— Minha mãe morreu?
— Os médicos estão cuidando dela.
— Isso não responde.
— Não. Ela não morreu. O coração parou e voltou. A cirurgia continua.
Caio tirou as mãos dos ouvidos.
— Se ela morrer, você vai embora de novo?
Adriano apoiou os antebraços nos joelhos.
— Não.
— Você falou isso quando eu era bebê.
— Como sabe?
Caio entregou a fotografia. No verso, a caligrafia de Olívia registrava uma frase: "Aconteça o que acontecer, seu pai sempre voltará para você."
— Eu não lembro de dizer.
— Mamãe lembra.
— Então falhei com uma promessa que fiz. Não vou pedir que confie na mesma frase. Observe o que eu fizer.
Caio ficou ao lado dele no chão.
Renata retornou à noite. Camila fora presa preventivamente por fraude, falsidade documental, chantagem e suspeita de tentativa de homicídio. A polícia localizara o ex-investigador e o antigo funcionário do protocolo.
— O investigador confessou os pagamentos — disse. — Afirmou que não sabia que Olívia estava viva.
— Conveniente.
— Caberá ao Ministério Público provar o que sabia. O funcionário admitiu que devolvia as cartas por ordem direta de Camila.
— E o documento de renúncia?
— Encontrado no cofre do escritório dela. Sua assinatura foi copiada de uma ata.
Heloísa fechou os olhos.
— Eu aprovei a nomeação daquela mulher para o conselho.
— E eu me casei com ela — disse Adriano.
— Depois de enterrar a mulher que amava.
— Sem fazer uma pergunta que não tivesse resposta fácil.
Caio desenhava numa mesa próxima. O lápis parou.
— Você amava minha mãe?
Adriano respondeu olhando para ele.
— Amava.
— E depois casou com a mulher ruim.
— Casei.
— Isso foi burro.
— Foi.
Caio retomou o desenho. Heloísa soltou uma respiração que quase parecia riso.
Miriam ficou para o depoimento complementar. Contou que Olívia acordara sem documentos e com medo de perder o filho. Um homem ligado à consultoria de Camila aparecera no hospital usando crachá falso de advogado.
— Ele entregou a suposta renúncia — disse Miriam. — Quando tentei falar com Olívia sozinha, já tinham transferido os dois.
— Por que guardou as cópias? — perguntou Caio.
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— Porque sua mãe disse uma coisa antes de sair: "Um dia meu filho vai precisar que alguém acredite que existimos."
Caio levantou e abraçou Miriam. A enfermeira aposentada fechou os braços ao redor dele e olhou para Adriano por cima de sua cabeça.
— Ela nunca deixou de procurar você.
O cirurgião apareceu às duas da tarde, oito horas depois do início do procedimento. A touca estava marcada de suor.
Adriano se levantou tão depressa que a cadeira virou.
— Tivemos duas paradas — disse o médico. — Conseguimos restaurar um ritmo estável. As próximas vinte e quatro horas são críticas.
Caio começou a chorar. Adriano abriu os braços, mas esperou. O menino deu um passo, depois outro, e encostou o rosto em sua camisa.
Adriano o abraçou pela primeira vez.
O corpo de Caio permaneceu rígido nos primeiros segundos. Depois os punhos se abriram sobre as costas de Adriano. O menino chorou sem bater, como se ainda decidisse se aqueles braços eram abrigo ou armadilha.
— Posso soltar quando quiser — disse Adriano.
— Ainda não.
Eles ficaram no corredor até o choro diminuir. Quando Caio se afastou, limpou o nariz na manga da camisa de Adriano.
— Estraguei.
— Já estava estragada.
— Roupa de rico estraga caro.
— Essa sobrevive.
Heloísa voltou com uma mochila, roupas do abrigo e o urso de tecido que Caio escondia entre as cobertas. Ele arrancou o brinquedo das mãos dela.
— Não conta.
— Não vi nada — respondeu.
Renata recebeu novas informações da perícia. O telefone secundário continha uma fotografia do cheque oferecido a Olívia e mensagens trocadas com o investigador antes do acidente. Uma frase dizia: "Se ela recusar, o plano da ponte continua."
— Isso liga Camila à tentativa de homicídio — disse Renata.
— Quem dirigia o outro carro?
— Um segurança particular morto há dois anos. O investigador organizou o pagamento. A promotoria vai negociar depoimento.
Adriano olhou para Caio, que vestia o urso com uma faixa de identificação do hospital.
— Ele precisa saber?
— Um dia. Hoje, a informação não o ajuda a esperar pela mãe.
— Concordo.
Renata guardou o tablet.
— Você está aprendendo a não despejar verdade apenas para aliviar a própria pressão.
— Não transforme isso em elogio.
— Longe disso.
Miriam contou a Caio como conhecera Olívia. Disse que sua mãe, mesmo ferida, acordava procurando o berçário. Caio pediu detalhes do caminhoneiro que os salvara.
— José ficou até a ambulância chegar — disse Miriam. — Cobriu você com a própria jaqueta.
— Ele sabe que eu estou vivo?
— Vai saber quando sua mãe permitir.
Caio desenhou um caminhão ao lado de Júpiter. Adriano observou a folha.
— Por que o planeta?
— Estava na mesa.
— E a cicatriz?
— Para lembrar que ele não quebrou inteiro.
No fim da tarde, Caio quis voltar ao abrigo para buscar os livros. Adriano explicou que precisavam permanecer perto da UTI. O menino respondeu que os livros pertenciam à mãe.
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— Bento pode trazer.
— Ele vai abrir a gaveta de baixo?
— Não.
— Promete?
— Vou mandar uma lista por escrito e pedir que a irmã Cecília acompanhe.
— Isso é melhor que promessa.
Adriano enviou a mensagem. Pouco depois, Bento respondeu com uma fotografia das sacolas fechadas e da freira ao lado. Caio aprovou.
Quando as luzes do corredor diminuíram, Adriano colocou duas cadeiras juntas para o filho se deitar. Caio segurou o urso e perguntou:
— Se ela acordar, quem entra primeiro?
— Você.
— E depois?
— Quem ela escolher.
Caio assentiu. A resposta permitiu que fechasse os olhos.
Renata voltou com um formulário para incluir Miriam no programa de proteção a testemunhas. A enfermeira recusou sair da cidade antes de Olívia acordar.
— Passei sete anos guardando papel. Posso esperar mais uma noite guardando a porta.
Adriano pediu que Bento permanecesse no corredor externo, sem uniforme e sem abordar Miriam. Ela aceitou apenas depois de receber por escrito que o segurança não controlaria seus movimentos.
— Todo mundo quer proteger decidindo — disse.
— Estou tentando perguntar primeiro.
— Continue.
Miriam sentou perto da UTI com os prontuários no colo. Caio dormiu entre Heloísa e Adriano. Três adultos vigiavam a mesma criança, cada um carregando uma parte do atraso.
— Não deixa ela morrer.
— Eu não mando nisso.
— Você manda em tudo.
— Foi o erro que trouxe a gente até aqui.
Caio segurou o tecido da camisa. Adriano permaneceu ajoelhado, sustentando o filho enquanto as portas da UTI se fechavam diante dos dois.
O alarme de um monitor soou atrás do vidro. Caio se levantou num salto, mas Miriam segurou seus ombros e explicou que correr não abriria a porta mais depressa.
Adriano telefonou para Renata e pediu que suspendesse qualquer audiência até que a equipe médica desse notícias. Nenhuma ação da empresa teria prioridade naquela madrugada.
Quando o cirurgião apareceu, ainda de máscara, Adriano não perguntou primeiro sobre riscos jurídicos nem custos. Perguntou se Olívia sentira dor.
Caio ouviu. A resposta não apagou sete anos de ausência, porém mostrou ao menino que o homem ao lado finalmente aprendera qual pergunta vinha antes.
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